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CUBA - O que foi que aconteceu?

CUBA - O inferno no paraíso

CUBA - A revolução cubana e os seus mitos

Dom Ciccillo

"Dom Ciccillo" e o fim do mundo

Conheça os efeitos da internet

Os agricultores padecem por falta de conhecimentos úteis - Polan Lacki

Golpes da internet

AYR ALISKI - Agência Estado

Desafios à Humanidade

Cronobiologia

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CUBA - O que foi que aconteceu?

Álvaro Pedreira de Cerqueira


A primeira nação da América espanhola, incluindo a Espanha e Portugal, que utilizou máquinas e barcos a vapor foi Cuba foi em 1829.


A primeira nação da América Latina e a terceira no mundo (atrás da Inglaterra e dos EUA), a ter uma ferrovia foi Cuba, em 1837.


Foi um cubano que primeiro aplicou anestesia com éter na América Latina em 1847.


A primeira demonstração, a nível mundial, de uma indústria movida à eletricidade foi em Havana, em 1877.


Em 1881, foi um médico cubano, Carlos J. Finlay, que descobriu o agente transmissor da febre amarela e definiu sua prevenção e tratamento.


O primeiro sistema elétrico de iluminação em toda a América Latina (incluindo Espanha) foi instalado em Cuba, em 1889.


Entre 1825 e 1897, entre 60 e 75% de toda a renda bruta que a Espanha recebeu do exterior vieram de Cuba.


Antes do final do Século XVIII Cuba aboliu as touradas por considerá-las "impopulares, sanguinárias e abusivas com os animais".


O primeiro bonde que circulou na América Latina foi em Havana em 1900.


Também em 1900, antes de qualquer outro país na América Latina foi em Havana que chegou o primeiro automóvel.


A primeira cidade do mundo a ter telefonia com ligação direta (sem necessidade de telefonista) foi em Havana, em 1906.


Em 1907, estreou em Havana o primeiro aparelho de Raios-X em toda a América Latina.


Em 19 maio de 1913, quem primeiro realizou um vôo em toda a América Latina foram os cubanos Agustin Parla e Rosillo Domingo, entre Cuba e Key West, que durou uma hora e quarenta minutos.


O primeiro país da América Latina a conceder o divórcio a casais em conflito foi Cuba, em 1918.


O primeiro latino-americano a ganhar um campeonato mundial de xadrez foi o cubano José Raúl Capablanca, que, por sua vez, foi o primeiro campeão mundial de xadrez nascido em um país subdesenvolvido. Ele venceu todos os campeonatos mundiais de 1921-1927.


Em 1922, Cuba foi o segundo país no mundo a abrir uma estação de rádio e o primeiro país do mundo a transmitir um concerto de música e apresentar uma notícia pelo rádio.


A primeira locutora de rádio do mundo foi uma cubana: Esther Perea de la Torre. Em 1928, Cuba tinha 61 estações de rádio, 43 deles em Havana, ocupando o quarto lugar no mundo, perdendo apenas para os EUA, Canadá e União Soviética. Cuba foi o primeiro no mundo em número de estações por população e área territorial.


Em 1937, Cuba decretou pela primeira vez na América Latina, a jornada de trabalho de 8 horas, o salário mínimo e a autonomia universitária.


Em 1940, Cuba foi o primeiro país da América Latina a ter um presidente da raça negra, eleita por sufrágio universal, por maioria absoluta, quando a maioria da população era branca. Ela se adiantou em 68 anos aos Estados Unidos.


Em 1940, Cuba adotou a mais avançada Constituição de todas as Constituições do mundo. Na América Latina foi o primeiro país a conceder o direito de voto às mulheres, igualdade de direitos entre os sexos e raças, bem como o direito das mulheres trabalharem.


O movimento feminista na América Latina apareceu pela primeira vez no final dos anos trinta em Cuba. Ela se antecipou à Espanha em 36 anos, que só vai conceder às mulheres espanholas o direito de voto, o posse de seus filhos, bem como poder tirar passaporte ou ter o direito de abrir uma conta bancária sem autorização do marido, o que só ocorreu em 1976.


Em 1942, um cubano se torna o primeiro diretor musical latino-americana de uma produção cinematográfica mundial e também o primeiro a receber indicação para o Oscar norte-americano. Seu nome: Ernesto Lecuona.


O segundo país do mundo a emitir uma transmissão pela TV foi Cuba em 1950. As maiores estrelas de toda a América, que não tinham chance em seus países, foram para Havana para atuarem nos seus canais de televisão.


O primeiro hotel a ter ar-condicionado em todo o mundo foi construído em Havana: o Hotel Riviera em 1951.


O primeiro prédio construído em concreto armado em todo o mundo ficava em Havana: O Focsa, em 1952.


Em 1954, Cuba tem uma cabeça de gado por pessoa. O país ocupava a terceira posição na América Latina (depois de Argentina e Uruguai) no consumo de carne per capita.


Em 1955, Cuba é o segundo país na América Latina com a menor taxa de mortalidade infantil (33,4 por mil nascimentos).


Em 1956, a ONU reconheceu Cuba como o segundo país na América Latina com as menores taxas de analfabetismo (apenas 23,6%). As taxas do Haiti era de 90%; e Espanha, El Salvador, Bolívia, Venezuela, Brasil, Peru, Guatemala e República Dominicana 50%.


Em 1957, a ONU reconheceu Cuba como o melhor país da América Latina em número de médicos per capita (1 por 957 habitantes); com o maior percentual de casas com energia elétrica, depois Uruguai; e com o maior número de calorias (2870) ingeridas per capita.


Em 1958, Cuba é o segundo país do mundo a emitir uma transmissão de televisão a cores.


Em 1958, Cuba é o país da América Latina com maior número de automóveis (160.000, um para cada 38 habitantes). Era quem mais possuía eletrodomésticos. O país com o maior número de quilômetros de ferrovias por km2 e o segundo no número total de aparelhos de rádio.


Ao longo dos anos cinquenta, Cuba detinha o segundo e terceiro lugar em internações per capita na América Latina, à frente da Itália e mais que o dobro da Espanha.


Em 1958, apesar da sua pequena extensão e possuindo apenas 6,5 milhões de habitantes, Cuba era 29ª economia do mundo.


Em 1959, Havana era a cidade do mundo com o maior número de salas de cinema: (358) batendo Nova York e Paris, que ficaram em segundo lugar e terceiro, respectivamente.


E depois o que aconteceu?


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CUBA - O inferno no paraíso

Juremir Machado da Silva
Correio do Povo, Porto Alegre (RS)


Na crônica da semana passada, tentei, pela milésima vez, aderir ao comunismo. Usei todos os chavões que conhecia para justificar o projeto cubano.


Não deu certo. Depois de 11 dias na ilha de Fidel Castro, entreguei de novo os pontos.


O problema do socialismo é sempre o real. Está certo que as utopias são virtuais, o não-lugar, mas tanto problema com a realidade inviabiliza qualquer adesão.


Volto chocado: Cuba é uma favela no paraíso caribenho.


Não fiquei trancado no mundo cinco estrelas do hotel Habana Libre. Fui para a rua. Vi, ouvi e me estarreci.


Em 42 anos, Fidel construiu o inferno ao alcance de todos. Em Cuba, até os médicos são miseráveis. Ninguém pode queixar-se de discriminação.


É ainda pior. Os cubanos gostam de uma fórmula cristalina: 'Cuba tem 11 milhões de habitantes e 5 milhões de policiais'. Um policial pode ganhar até quatro vezes mais do que um médico, cujo salário anda em torno de 15 dólares mensais.


José, professor de História, e Marcela, sua companheira, moram num cortiço, no Centro de Havana, com mais dez pessoas (em outros chega a 30).


Não há mais água encanada. Calorosos e necessitados de tudo, querem ser ouvidos. José tem o dom da síntese: 'Cuba é uma prisão, um cárcere especial.


Aqui já se nasce prisioneiro. E a pena é perpétua.


Não podemos viajar e somos vigiados em permanência.


Tenho uma vida tripla: nas aulas, minto para os alunos. Faço a apologia da revolução. Fora, sei que vivo um pesadelo. Alívio é arranjar dólares com turistas'.


José e Marcela, Ariel e Julia, Paco e Adelaida, entre tantos com quem falamos, pedem tudo: sabão, roupas, livros, dinheiro, papel higiênico, absorventes.


Como não podem entrar sozinhos nos hotéis de luxo que dominam Havana, quando convidados por turistas, não perdem tempo: enchem os bolsos de envelopes de açúcar.


O sistema de livreta, pelo qual os cubanos recebem do governo uma espécie de cesta básica, garante comida para uma semana.


Depois, cada um que se vire. Carne é um produto impensável.


José e Marcela, ainda assim, quiseram mostrar a casa e servir um almoço de domingo: arroz, feijão e alguns pedaços de fígado de boi. Uma festa.


Culpa do embargo norte-americano? Resultado da queda do Leste Europeu?


José não vacila: 'Para quem tem dólares não há embargo.


A crise do Leste trouxe um agravamento da situação econômica.


Mas, se Cuba é uma ditadura, isso nada tem a ver com o bloqueio'.


Cuba tem quatro classes sociais: os altos funcionários do Estado, confortavelmente instalados em Miramar; os militares e os policiais; os empregados de hotel (que recebem gorjetas em dólar); e o povo.


Para ter um emprego num hotel é preciso ser filho de papai, ser protegido de um grande, ter influência, explica Ricardo, engenheiro que virou mecânico e gostaria de ser mensageiro nos hotéis luxuosos de redes internacionais.


Certa noite, numa roda de novos amigos, brinco que, quando visito um país problemático, o regime cai logo depois da minha saída. Respondem em uníssono:


'Vamos te expulsar daqui agora mesmo'. Pergunto por que não se rebelam, não protestam, não matam Fidel?


Explicam que foram educados para o medo, vivem num Estado totalitário, não têm um líder de oposição e não saberiam atacar com pedras, à moda palestina.


Prometem, no embalo das piadas, substituir todas as fotos de Che Guevara espalhadas pela ilha por uma minha se eu assassinar Fidel para eles.


Quero explicações, definições, mais luz.


Resumem: 'Cuba é uma ditadura'.


Peço demonstrações: 'Aqui não existem eleições.


A democracia participativa, direta, popular, é uma fachada para a manipulação. Não temos campanhas eleitorais, só temos um partido, um jornal, dois canais de televisão, de propaganda, e, se fizéssemos um discurso em praça pública para criticar o governo, seríamos presos na hora'.


Ricardo Alarcón aparece na televisão para dizer que o sistema eleitoral de Cuba é o mais democrático do mundo.


Os telespectadores riem: 'É o braço direito da ditadura. O partido indica o candidato a delegado de um distrito; cabe aos moradores do lugar confirmá-lo; a partir daí, o povo não interfere em mais nada.


Os delegados confirmam os deputados; estes, o Conselho de Estado; que consagra Fidel'.


Mas e a educação e a saúde para todos? Ariel explica: 'Temos alfabetização e profissionalização para todos, não educação.


Somos formados para ler a versão oficial, não para a liberdade.


A educação só existe para a consciência crítica, à qual não temos direito.


O sistema de saúde é bom e garante que vivamos mais tempo para a submissão'.


José mostra-me as prostitutas, dá os preços e diz que ninguém as condena: 'Estão ajudando as famílias a sobreviver'.


Por uma de 15 anos, estudante e bonita, 80 dólares.


Quatro velhas negras olham uma televisão em preto e branco, cuja imagem não se fixa. Tentam ver 'Força de um Desejo'.


Uma delas justifica: 'Só temos a macumba (santería) e as novelas como alento. Fidel já nos tirou tudo. Tomara que nos deixe as novelas brasileiras'.


Antes da partida, José exige que eu me comprometa a ter coragem de, ao chegar ao Brasil, contar a verdade que me ensinaram: em Cuba só há 'rumvoltados'.


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CUBA - A revolução cubana e os seus mitos

Por aliancaliberal - Do blog Policult


Os dez mitos da Revolução Cubana


A revolução cubana foi um dos mais importantes acontecimentos no século XX, por ter despertado paixões, desilusões, ódios e enfim uma infinidade de sentimentos que somente quem acompanhou o processo revolucionário pode descrever. Na histografia oficial, a revolução cubana é apresentada como uma luta de jovens rebeldes guerrilheiros, liderados pelo advogado Fidel Castro contra a ditadura de Fulgencio Batista, aliado incondicional do governo do Estados Unidos que sustentava o Estado autoritário. Após anos de lutas, a guerrilha finalmente triunfou em janeiro de 1959 e dois anos depois, Cuba tornou-se o primeiro país latino-americano a se declarar socialista.


No entanto, a história oficial cubana é recheada de mitos sobre o processo que deu origem a revolução cubana, especialmente pelo fato de que a maior parte da histografia ter sido concentrada na guerrilha e nas suas lideranças Fidel Castro, Ernesto Che Guevara, Camilo Cienfuegos e entre outros. Raramente é abordado, outros sujeitos históricos, como o papel do movimento estudantil, o movimento operário como se eles não tivessem a mesma importância durante a revolução cubana.


Além de que, a revolução após ter sido concretizada tornou-se um mito na história da América Latina e um exemplo a ser seguido aos países latino-americanos na luta pela "libertação nacional" contra o domínio do imperialismo estadunidense. Muitos jovens latino-americanos nos anos 60 e 70 que viviam em países de regimes ditatoriais se inspiraram na guerra de guerrilhas cubano, sem saber totalmente o que se passou e o que se passava em Cuba durante aquela época.


Os antecedentes


Desde 1930, Cuba vivia intensas lutas de classes provocado pela crise econômica mundial que afetou a indústria açucareira e, que teve consequência a queda do preço do açúcar. Geraldo Machado, o ditador naquela época, foi derrubado por uma greve geral, em 12 de agosto de 1933. Os protestos populares foram bastante violentos até a formação de um governo provisório com Carlos Manuel de Céspedes Quesada como presidente. No entanto, o governo provisório durou menos de um mês, Céspedes foi deposto pela mobilização dos estudantes universitários e um grupo de sargentos liderados por Fulgêncio Batista, que tomou o controle do exército.


Em meados dos anos 30, a situação em Cuba se normalizou, e Fulgêncio Batista adquiriu não apenas o comando do exército, mas também se elegeu presidente em 1940, com os votos diretos. Dois anos depois, entraram a fazer parte do governo forças políticas que antes eram inimigas, como os comunistas do PSP (Partido Socialista Popular), um deles, o stalinista Carlos Rafael Rodriguez, anos mais tarde, se tornaria o 3º homem da hierarquia cubana, logo após os irmãos Castro.


O ditador Fulgêncio Batista


Os anos 40 em Cuba ficaram marcados pela violência política e uma grande corrupção que afetaram a vida democrática em Cuba, especialmente no governo de Ramón Grau San Martín, aliado de Batista. A violência política se traduziu em uma guerra entre gangsters e segundo muitos historiadores, Fidel Castro estaria envolvido nessas atividades.


Carlos Prío Socarrás tornou-se presidente em 1948, com a missão de combater a corrupção e estabelecer a ordem social. O governo de Pría ficou marcado por estreitas relações com os Estados Unidos e de iniciar um tímido programa de reforma agrária para combater o "comunismo", mas não conseguiu cumprir as suas promessas e nem o seu mandato, pois foi deposto por um golpe militar realizado por Fulgêncio Batista em 10 de agosto de 1952. Iniciou-se aí a construção do mito de Fidel Castro Ruíz e outros mitos.


Primeiro mito:
A guerrilha como vanguarda na luta contra a ditadura de Batista.


Não foi a guerrilha quem iniciou a guerra contra a ditadura Batista, e sim os protestos populares de diversos setores da sociedade cubana, em especial os estudantes.


Fidel Castro, dois anos antes de assaltar o quartel de Moncada em 26 de julho de 1953, era apenas um personagem inexpressível na vida política em Cuba, que estava vinculada a figura carismática de Eduardo Chibás do Partido Ortodoxo, conhecido por suas idéias nacionalistas e moralizantes.


O fracassado assalto do quartel Moncada.


O assalto ao quartel de Moncada não foi o estopim na luta contra Batista como muitos acreditam, foi muito mais uma ação isolada do que propriamente uma ação organizada. Tanto que a ação fracassou e foi facilmente reprimida de forma sangrenta pelo exército de Batista, e seu líder Fidel Castro, foi preso juntamente com seus companheiros da Ilha de Pinos.


Fidel Castro foi salvo graças à interferência do arcebispo católico Monseñor Enrique Pérez Serantes, um dos bispos mais comprometidos com os problemas sociais em Cuba. Há uma versão de que o arcebispo de Havana, cumpriu ordens do Estado, em razão da esposa de Castro, ser filha de um político muito próximo a Batista.


Bispo de Havana salvou a pele de Fidel.


Os protestos populares no ano seguinte foram tão intensos que Batista deu anistia aos revoltosos. Castro cumpriu apenas um ano e meio de prisão, em vez de quinze anos como foi imposto, e antes de partir para o exílio no México, tentou liderar um movimento estudantil na Universidade de Havana contra Batista, mas teve pouco sucesso. No México, Fidel se aliou com diversos grupos de oposição para elaborar estratégias para a derrubada do governo de Fulgêncio Batista. Enquanto em Cuba, na província de Oriente, Frank País um dos mais destacados membro do diretório M-26 de julho, liderou um ataque que incendiou o quartel policial de Santiago de Cuba. Um ataque bem planejado e que teve mais sucesso e repercussão do que o assalto ao quartel de Moncada. Embora tivesse fracassado na tentativa de conquistar a cidade, causando a morte de três membros do M-26, o diretório praticamente não perdeu armas.


Essa ação antecipou a chegada do Iate Granma que partiu do México no dia 24 de novembro de 1956 no rio Tuxpan com 82 expedicionários, nas quais apenas 12 sobreviveram. A expedição foi um desastre porque além de ter sido arriscada a viagem de muitas pessoas no iate, o movimento quase foi comprometido por esse ato. A ação foi facilmente desarticulada pelas forças repressoras, especialmente após o fracasso da tomada de Santiago de Cuba. No entanto, enquanto em Santiago de Cuba o número de baixas foi pequeno, no Iate Granma, a maioria dos seus integrantes morreu além de ter perdido armamentos.


Iate Granma, símbolo da revolução.


Os doze foram salvos graças à organização do M-26 entre os camponeses e a guerra das milícias. A partir de então, começa a lenda e o mito da guerrilha, como a principal desencadeadora do processo revolucionário em Cuba e, em especial a figura de Fidel Castro. Desta forma, vários personagens que tiveram importância durante a revolução foram colocados em segundo plano e/ou desconsiderados, assim como as divergências entre os membros do diretório, especialmente em relação ao caudilhismo de Fidel Castro, as lutas operárias e camponesas e também de outras forças políticas. Desta forma, episódios importantes sobre o processo revolucionário como a entrada das mães de presos políticos em 1957, a greve geral de 9 de abril de 1958, o movimento estudantil e outros focos guerrilheiros, são colocados em segundo plano. Além disso, pouco é mencionado o fato de que o partido comunista cubano era aliado a Batista, e aderiu à revolução apenas em última hora que posteriormente ganharia força na contra-revolução stalinista de 1961, na qual Fidel pela primeira vez declarou em público que era "marxista-leninista".


Segundo Mito
A negação de diversas concepções dentro do M-26 de julho.


A histografia oficial aborda o M-26 como um movimento unido em torno da figura mística de Fidel Castro como se não houvesse diferenças entre as diversas lideranças como Frank País e René Latour. O M-26 é apresentado como um movimento homogêneo, mas ao contrário da versão oficial, era um movimento bastante heterogêneo, dentro do movimento existiam comunistas, anarquistas, socialistas anti-soviéticos e liberais radicais. O papel ideológico no M-16 era o que menos importava, pois todos tinham uma missão de combater a ditadura de Batista.


Frank País, um dos mais ativos revolucionários


As diferenças ideológicas foram colocadas de lado durante a luta contra Batista, no entanto, o conflito adquiriu mais força a partir da divisão no movimento 26 de julho entre a Sierra (a Sierra Maestra) e os Llanos (a cidade). Enquanto na Sierra era organizada pelo Exército Rebelde, em que Fidel Castro era o líder, os Llanos eram formados por milícias organizadas como uma direção coletiva chamada Diretório Nacional do movimento 26 de julho.


O objetivo do diretório do M-26, representados por Carlos Franqui, Armando Hart, Faustino Perez, Mario Llerena, Enrique Oltusky era de diminuir os impulsos caudilhistas de Fidel Castro. Todavia, a intenção do diretório de tentar moldar Fidel Castro a se tornar uma liderança popular, e não um caudilho foi em vão. Castro assim como Che Guevara, não se importavam muito com o diretório nacional, e logo após a morte de Frank Pais, assassinado pela polícia política da ditadura, René Latour, conhecido com o codinome Daniel, assumiu o diretório nacional e teve sérios enfrentamentos especialmente com Fidel Castro.


Dois episódios foram fundamentais para o fracasso de Daniel e o fim da oposição do diretório do M-26: a assinatura do pacto de Miami, em setembro de 1957 e o fracasso da greve geral em abril de 1958. Foi o inicio do fim para uma geração de democratas que acreditaram na revolução humanística em Cuba.


Terceiro Mito:
A anulação do papel dos trabalhadores urbano e rural e de outras forças políticas.


A classe operária cubana era umas reivindicativas na América Latina a ponto de ter colocado umas da melhores legislações trabalhistas no mundo, independentemente da alternância entre ditadura e democracia.


O sindicalismo em Cuba, assim como de muitos países latino-americanos, foi impulsionada por anarquistas que perderam a influência logo após a revolução bolchevique de 1917. No entanto, Cuba foi um dos países que mais desenvolveu não apenas o anarco-sindicalismo, mas também o movimento anarquista que influenciou muitos trabalhadores em greves-gerais.


O anarquismo em Cuba.


Os comunistas stalinistas só começaram a ter força política, a partir do primeiro governo de Fulgêncio Batista, e nesse período, Batista com o apoio dos comunistas concedeu alguns benefícios aos sindicatos, com a intenção de amortecer os conflitos sociais. Embora não tivesse a hegemonia, os comunistas, assim como outras correntes políticas, desempenharam o papel de controlar o movimento operário. Dessa forma, boa parte dos sindicatos aliada aos comunistas apoiou o golpe de Batista em 1952. No entanto, o período ditatorial de Batista não foi forte o suficiente para impedir as mobilizações dos trabalhadores. Houve greves na indústria açucareira, a principal indústria do país e mobilizações dos trabalhadores rurais, que ao contrário dos trabalhadores urbanos, viviam em regime de escravidão, em função do baixo índice de sindicalização.


Nos anos 50, as principais greves que tiveram importância na luta contra Batista foram: a greve dos trabalhadores bancários em 1955, organizada por José Maria de Oliveira, Reynol Gonzáles e Mariano Rodriguez; a greve geral de 1957, liderado por Frank Pais; e a greve geral de abril 1959, essa última deu inicio a consolidação do poder carismático de Fidel Castro. Todos elas não tiveram nenhum respaldo do PSP, o partido comunista cubano, pois eles eram aliados de Batista.


Além disso, deve ser destacado o papel dos anarquistas da Associação Libertária Cubana (ALC), que raramente é mencionada. A ALC participou na luta contra Batista, desde o primeiro governo e foi o primeiro grupo a alertar o perigo do autoritarismo de Fidel, três anos antes da consolidação da revolução.


Os camponeses foram fundamentais para o processo revolucionário, em razão de ser o setor mais desprotegido da sociedade cubana. Eram altamente explorados, especialmente no trabalho de cana-de-açúcar, e a maioria dos trabalhadores rurais não era sindicalizada. Todos os grupos políticos de oposição a Batista tinham como objetivo a reforma agrária para diminuir os conflitos sociais.


Quarto mito:
Cuba era um país pobre e um bordel dos Estados Unidos.


Cuba era a 5º nação do mundo de ingresso per capita na América Latina, o que existia era uma grande desonestidade administrativa, violência política entre diversos grupos e antes da revolução, a maior parte das empresas estava em mãos dos proprietários cubanos e não era um país que estava dominado pelos Estados Unidos.


Os Estados Unidos tinham atividades econômicas ilegais em Cuba que cresceram durante os anos 40 e principalmente nos anos 50, um período de grande crescimento econômico e industrial no país. Desta forma, criou a ilusão de que Cuba fosse o bordel dos ianques. De fato, existia grupos mafiosos aliados a Batista que tinham grande poder na ilha, mas o papel da máfia cubano-estadunidense era semelhante a Itália, ou seja, a sua influência era em decorrência da desmoralização das instituições.


Máfia cubano-estadunidense


Ao contrário da lenda que retrata como típica república bananeira, Cuba tinha índices sócio-econômicos semelhantes aos países mais ricos da América Latina como Argentina, Chile, Uruguai, Costa Rica e não aos países mais pobres como Haiti, Bolívia, Paraguai. No entanto, havia grandes desigualdades entre a cidade e o campo, e uma forte repressão contra os trabalhadores. Durante os governos de Batista, tanto na era democrática quanto na era ditatorial, os comunistas participaram do poder político.


Quinto mito:
A libertação nacional
Gravura da revolução cubana


A tese de libertação nacional é um dos maiores mitos criados pela "esquerda" latino-americana, que se auto-intitula como marxista, progressista ou coisas do gênero. Para começar o mito do nacionalismo progressista teve origem com a expansão do capitalismo das nações desenvolvidas para os continentes asiático, africano e os países da América Latina. Essa expansão capitalista foi chamada de imperialismo.


Os primeiros autores que mencionaram a expressão imperialismo foram Rosa Luxemburgo e Wladimir Ilich Lênin. Para Luxemburgo, o imperialismo era a consequência da expansão do capital, no entanto, Lênin fez uma análise do imperialismo absolutamente questionável.


Segundo Lênin, o imperialismo representava uma modificação do capitalismo em que ele denominou de "fase suprema do capitalismo", em razão da fusão entre o capital industrial e o bancário, resultando no capitalismo financeiro. Desta forma, o capitalismo concorrencial se transformou em um capitalismo monopolístico que passou a controlar o processo de produção.


Além disso, Lênin destacou que os países ricos imperialistas exploravam as populações dos países de economia atrasada, em que a classe operária dos países mais ricos se beneficiavam da exploração imperialista, através das reformas sociais e os salários mais altos, ou seja, por meio da transferência de renda, os salários mais altos do proletariado dos países avançados eram decorrentes do baixíssimo salário do proletariado dos países subdesenvolvidos.


Essa tese é completamente insensata em termos propriamente marxista, pois não se mede o nível de exploração em razão dos salários serem mais altos ou mais baixos, mas da referência à quantidade de mais-valor produzida em relação ao salário, ou seja, os trabalhadores dos países desenvolvidos são até mais explorados do que os países subdesenvolvidos, em razão da utilização mais massiva do uso da tecnologia nos locais de trabalho.


A superexploração dos trabalhadores subdesenvolvidos e a transferência de riqueza não são usadas para o aumento de salários dos trabalhadores, mas como sabiamente afirmou Rosa Luxemburgo é a própria decorrência do capital. O capital não tem pátria.


Os argumentos de Lênin foram feitos para sustentar a revolução bolchevique de 1917, que se transformou a Rússia no primeiro país de capitalismo estatal do mundo, pois foi a primeira revolução antiimperialista do mundo. Inicialmente era uma revolução proletária em que surgiram os sovietes, os conselhos operários, organizações horizontais nascidas no processo da frágil revolução burguesa de fevereiro de 1917. No entanto, um golpe de estado praticado pelos burocratas do partido bolchevique, em que ficou conhecido como Revolução de Outubro, deu fim ao processo de uma autêntica revolução socialista que estava em desenvolvimento. O partido bolchevique utilizou os sovietes para a conquista do poder estatal.


W. Lênin, o ideologo do bolchevismo.


O socialismo passou a ser confundido com estatismo e a luta de classes se transformou em luta entre países desenvolvidos contra países subdesenvolvidos. Essa deformação do marxismo, conhecida como "marxismo-leninismo" se ampliou em todas as partes do mundo, em razão do sucesso do partido bolchevique, que depois passou a ser chamado de partido comunista. O capitalismo de estado se expandiu graças às revoluções chinesa, cubana, vietnamita, entre outras e também a expansão do imperialismo soviético nos países do leste europeu após a segunda guerra mundial.


A estratégia dos PCs (partidos comunistas) nos países subdesenvolvidos era de apoiar uma suposta "burguesia nacional" progressista na luta contra os imperialismos. Nos países latino-americanos, o enfoque era a luta contra o imperialismo dos Estados Unidos. Desta forma, os governos populistas como de Vargas, Perón e Cárdenas foram classificados por boa parte dos "marxistas" latino-americanos como um período progressista. Isto é, o nacionalismo ocupou o lugar do socialismo que passaram a se tornar sinônimo, ou melhor, dizendo o primeiro passo de "transição ao socialismo".


Castro e Kruscev, as duas faces da burocracia


Durante os anos 60, essa estratégia anti-marxista foi por água a baixo, em decorrência das sucessivas ditaduras militares que se alastraram em quase todos os países latino-americanos. O imobilismo dos PCs ficou evidente e a juventude latino-americana inspirada na revolução cubana, tentou recriar a experiência cubana em formar diversos focos guerrilheiros para impulsionar a libertação nacional e consequentemente "implantar o socialismo".


No entanto, logo após ter concretizada a "revolução", Cuba tornou-se nada mais do que uma província satélite da União Soviética. O dominador não era o imperialismo ianque, mas o imperialismo soviético. Atualmente, são as redes hoteleiras estrangeiras que juntamente com o Estado controlam a economia.


O mito do "nacionalismo libertador" é a ideologia das "esquerdas tradicionais" que contraria por completo a noção de socialismo.


Sexto mito:
A revolução


Não houve a revolução em Cuba. O que realmente existiu foi uma luta contra a ditadura de Batista de diferentes grupos políticos que reuniam diversos segmentos da sociedade: liberais, católicos, socialistas, comunistas, anarquistas, que se rebelaram contra o regime ditatorial.


Para se ter uma ideia, Fidel assinou um pacto denominado Manifesto da Sierra Maestra, com diversas correntes políticas de realizar eleições livres, a partir da queda de Fulgêncio Batista. A resistência do ditador em não realizar uma abertura política para a transição democrática, fez com que essa luta adquirisse um caráter revolucionário.


Fidel e companheiros marcham em Havana.


A oposição a Batista foi tão intensa que até mesma algumas frações da burguesia apoiaram a derrocada do regime, que contou com o apoio até mesmo dos Estados Unidos, que suspenderam a venda de armas para o estado cubano, em razão dos protestos de muitos cubanos exilados. As manifestações sociais como o protesto das mães de presos políticos, a greve geral de 1958, o surgimentos de diversas frentes guerrilheiras como em Villas comandadas por Guillermo Menoyo, na qual se uniu o movimento estudantil, além das instituições cívicas e profissionais, a Igreja católica se uniram no protesto geral que resultou na queda da ditadura de Fulgencio Batista, e até mesmo o partido comunista que estava aliado a Batista, passou para a oposição. O ditador tentou um trunfo de tentar realizar novas eleições, mas já era tarde.


Os primeiros dias da revolução foram realizados diversos atos de apoio popular e uma festa generalizada que contagiou a nação. No entanto, a revolução não foi só festa. Durante o processo revolucionário três fatos merecem ser destacados para demonstrar de que houve mais uma contra-revolução do que uma revolução:


1) repressão às oposições que surgiram dentro do processo revolucionário e que não estavam de acordo com a "infiltração comunista" no país,


2) a violência indiscriminada contra qualquer cidadão que supostamente tivesse ligação ao regime de Batista,


3) o fortalecimento dos membros do partido comunista que usufruíram da revolução.


Para o professor estadunidense Irving Louis Horowitz, especialista em militarismo cubano, a revolução cubana desde a sua origem é um regime militar, pois o caráter do sistema veio da guerra de guerrilhas. Os membros que lutaram nas guerrilhas não tinham uma formação classista, pois se trata de qualquer coisa menos de uma revolução proletária.


O jornalista e escritor cubano Carlos Franqui vai além desta analise de Horowitz, destacando que a revolução cubana foi o militarismo do exército rebelde da Sierra Maestra que triunfou e não o movimento civil 26 de julho. Segundo Franqui, que tinha sido diretor do Jornal Revolución no inicio da revolução, relatou que os fuzilamentos em massas dos apoiadores e também dos supostos colaboradores de Batista, tiveram o apoio de mais de 90% da população.


Carlos Franqui à direita no meio está junto a Fidel Castro; À esquerda, a imagem de Franqui desapareceu sob ordens de Fidel


Dois episódios ilustram perfeitamente como o militarismo e a intolerância acompanharam o processo revolucionário como esses dois casos, a renúncia de Huber Matos e a morte misteriosa de Camilo Cienfuegos. Matos um dos mais importantes líderes revolucionários e comandante na cidade de Camaguey, escreveu uma carta privada a Fidel denunciando a infiltração comunista dentro da revolução. Confrontado com essa "oposição", Castro viu nesse gesto um ato de traição, e ordenou sua prisão e ameaçou inclusive fuzilá-lo, mas teve a prudência de não criar um mártir dentro da oposição. Huber Matos ficou 20 anos na prisão até se exilar do país.


Huber Matos, importante personagem na revolução preso durante 20 anos.


Camilo Cienfuegos, o mais popular entre os revolucionários, teve a missão de prender Huber Mattos, no entanto morreu em razões misteriosas em um acidente aéreo. As fontes mais confiáveis indicam que a morte de Cienfuegos, fora planejada pelos irmãos Castro desconfiados da sua popularidade e o seu espírito de iniciativa que poderiam levar no futuro um confronto na disputa pelo poder.


Camilo Cienfuegos, morto misteriosamente.


Após ter completado o processo revolucionário, tanto o movimento estudantil e o movimento operário foram forçados a defender a nova classe dominante que se apresentava como "socialista". Ambos perderam a sua autonomia e tornaram-se porta-vozes do regime político. O episódio mais destacado do movimento estudantil durante o processo revolucionário foi a disputa eleitoral entre Rolando Cubelas, apoiado pelos irmãos Castro, e Pedro Boitel. As eleições indicavam que Boitel venceria em razão de sua grande popularidade, mas a cúpula partidária por meio de diversas artimanhas, elegeu Cubelas. Após a eleição de Cuberas, nas universidades, os burocratas do regime cobravam "a purificação ideológica" dos professores, que resultou na evasão de 80% do quadro docentes em 1960 e também dos estudantes, que resultou no fim da autonomia universitária.


Este fato contribuiu para que muitos estudantes e professores partissem para o exílio e para oposição clandestina, uma vez que boa parte do movimento estudantil, além de ser anti-batistiana era também anticomunista, pois muitos militavam na Agrupação Católica de Universidade. Pedro Boitel foi preso no mesmo ano e em 1972 acabou morrendo, em decorrência de uma greve de fome. Rolando Cubelas que tinha sido o vencedor nas eleições contra Boitel tornou-se mais tarde oposicionista e foi preso em 1966.


Pedro Boitel, assassinado pelo regime cubano.


O movimento sindical cubano, que era um dos mais ativos do mundo, teve o mesmo destino que o movimento estudantil. Como de costume, Fidel Castro pregou a unidade através de uma candidatura única para se contrapor ao perigo "contra-revolucionário" nos sindicatos. A Confederação de Trabalhadores Cubanos (CTC) encontrou resistência nas suas bases, mas foram incapazes de contrapor ao unitarismo. Foi a partir de então, que houve uma luta entre os unitaristas e os antiunitaristas, esses últimos classificados de contra-revolucionário.


David Salvador, dirigente operário do M-26 e integrante da direção do movimento e muito popular, teve a missão de tentar unificar o movimento sindical, mas acabou sendo afastado e em seguida preso em 1961. Este foi o destino de muitos sindicalistas que lutaram pela autonomia sindical, a prisão e/ou o exílio.


Revolução, governo, povo passaram a ser uma coisa só. Nesse caso, o papel dos sindicatos não era representar os interesses do trabalhador diante do estado empregador, mas transmitir ao povo a necessidade de agir conforme os propósitos da "revolução", ou seja, da cúpula partidária.


A mensagem de Fidel e dos burocratas eram bastante claras "Dentro da Revolução tudo; contra a Revolução nada". Isto é, não poderia surgir nenhuma organização autônoma fora aos desígnios do Partido.


Sétimo mito:
A democracia social e as conquistas sociais em Cuba.


Em relação aos países subdesenvolvidos, Cuba já apresentava um dos melhores índices socioeconômicos na América Latina. Em 1958, antes da revolução, Cuba ocupava a 22° posição de 122 países analisados, em matéria sanitária. A taxa de mortalidade já era uma das baixas do continente e a alfabetização, especialmente nos centros urbanos chegava em 80%, semelhante aos países mais ricos do continente como Chile e a Costa Rica.


As estatísticas em si não mostram totalmente a realidade cubana antes da revolução, pois havia grandes diferenças entre o campo e a cidade e, as pesquisas da época não apresentavam as múltiplas complexidades que existem nos dias de hoje, mas indicavam que a situação social de Cuba se aproximava mais dos países mediterrâneos ao dos co-irmãos latino-americanos. As conquistas sociais não são "milagres do castrismo".


Durante as décadas de 40 e 50, Cuba apresentou um grande crescimento econômico, assim como todos os demais países latino-americanos, que se beneficiaram com o desenvolvimento industrial do pós-guerra. A proximidade com os Estados Unidos e a degeneração política permitiu o crescimento de atividades ilegais na ilha que cada vez mais ganhava espaços.


Educação, um dos triunfos da burocracia partidária.


A histografia tradicional transfere todos os méritos das conquistas sociais à revolução. De fato, a saúde e a educação foram ampliados, especialmente nas áreas rurais onde estavam concentrados os maiores problemas sociais do país. O programa de reforma agrária estava presente em todos os grupos oposicionistas que lutavam contra Batista, mas apenas os guerrilheiros aparecem como os responsáveis diretos pelos sucessos da revolução.


A argumentação que Cuba é uma "democracia social" em razão dos bons índices sociais e os serviços gratuitos, independentemente da ditadura de partido único não se sustenta. O suposto "igualitarismo" da revolução não se traduz de fato na realidade, pois em Cuba, assim como outros países que adotaram o planejamento centralizado no século XX, existe uma nítida separação de classes onde a burocracia que é a burguesia estatal usufrui de privilégios que não estão a serviço da população.


Oitavo mito:
A maioria do exilados é composta por contra-revolucionários.


Essa é a maior propaganda do regime castrista para se manter no poder. Como será possível que mais de 1,5 milhão de pessoas exiladas no exterior em um país de apenas 11 milhões possam ser consideradas contra-revolucionárias? Los "gusanos" (os vermes), os exilados cubanos como são considerados pelo castrismo, se constituem em sua maioria por trabalhadores urbanos e rurais que foram traídos pela "revolução".


A primeira fase da revolução em 1959, a maior parte dos exilados foi composta pelas classes dominantes, no entanto, a partir da contra-revolução leninista, em 1961, e a consolidação do capitalismo estatal, a onda emigratória passou a ser composta majoritariamente por camponeses, operários, artistas, intelectuais, ou seja, o povo que apoiou e acabou se desiludindo com a "revolução".


A existência da máfia cubano-estadunidense perto da ilha, em Miami, como a Alpha 66, e outros grupos criminosos que perderam o controle do comércio e suas propriedades em Cuba e, que pressionam o congresso americano para legalizar o embargo, é composta na realidade apenas por uma minoria dos ricos exilados, e que não tem nada a ver com a maioria da população exilada.


Os balseros desiludidos com a "revolução".


Os Estados Unidos têm realizado ataques a Cuba, não por principio "humanístico ou democrático", mas por ter sido desafiado por um caudilho que se aproveitou dessa situação para solidificar o seu poder. Os grupos "contra-revolucionários" aproveitam muitas vezes do desencanto e do ódio dos recém exilados para realizar ataques à ilha que são atraídos para esses grupos, mas apenas é uma minoria. A maior parte dos grupos de oposição é composta por várias agremiações políticas que reúnem liberais, social-democratas, socialistas humanísticos e até mesmo os anarquistas, que já tiveram muita influência na classe trabalhadora.


A fragmentação dessas oposições é a principal razão para o sucesso e a popularidade de Fidel Castro. A tentativa desses grupos de restabelecer a democracia representativa multipartidária em Cuba é interpretada pela maior parte da população cubana na ilha como um mecanismo de instaurar o capitalismo privado, em razão de que boa parte dessas oposições serem compostas por grupos conservadores e liberais. Esse é o principal triunfo de Fidel, juntamente com o estúpido e criminoso embargo estadunidense.


A grande maioria dos exilados é composta por pessoas comuns, e o exílio dos cubanos geralmente não aparece na histografia moderna. Basta mencionar o exílio de escritores que inicialmente apoiaram a revolução como Carlos Franqui, Guillermo Cabrera Infante, Virgilio Piñera, Reinaldo Arenas, Roberto Valero, Heberto Padilla e entre tantos outros intelectuais, artistas que foram forçados a se exilar.


Os exilados cubanos são retratados como pessoas de caráter anti-social que não se adaptaram ao "modo de vida socialista" e possuem fascínio pelo capitalismo. Esta é a mais tragicômica conclusão que extraiem certos setores intelectuais que apóiam o castrismo.


É necessário sempre destacar que a primeira onda migratória foi da burguesia local e dos apoiadores de Fulgencio Batista ocorrido nos primeiros anos da revolução. A segunda onda migratória foi dos desiludidos com o processo revolucionário, que provinham dos setores médios que apoiaram a revolução, mas que se afastaram dela totalmente. E por fim, as migrações dos setores populares que aumentaram consideravelmente a partir dos anos 80 e 90, o episódio mais destacado é o êxodo do Porto de Mariel em 1980.


Os marielitos fogem de Cuba.


O êxodo de Mariel foi o episódio mais claro da demonstração da insatisfação popular contra o regime ditatorial. O movimento iniciou no dia 5 de abril de 1980, quando dez mil cubanos invadiram a embaixada do Peru, pedindo asilo diplomático com a intenção de sair do país. Diante deste fato, o governo cubano teve que atender o apelo popular e, abriu o Porto de Mariel para todos os cidadãos dispostos a abandonar o país. Entre 15 de abril e 31 de outubro de 1980, saíram de Cuba em torno de 125.000 pessoas, e a maioria delas se refugiaram na Flórida.


O episódio de Mariel e tantos outros episódios comprovam a falácia "contra-revolucionária" pregada pelos dirigentes cubanos ao retratar os exilados como "gusanos". A violência contra os marielitos foi tão intensa que até mesmo, uma das mais destacadas figuras da revolução, a dirigente cultural Haydée Santamaría, que participou do assalto do quartel Moncada, se suicidou, após assistir a fuga em massa dos compatriotas que não aguentavam mais a revolução.


Haydée Santamaría, histórica dirigente cubana, se suicidou após o êxodo de Mariel em 1980.


Nono mito:
O embargo estadunidense como causador dos males de Cuba.


O estúpido embargo praticado pelos Estados Unidos é a principal bandeira que Fidel e os burocratas do PCC utilizam para justificar a situação de pobreza da população cubana. Os dirigentes cubanos responsabilizam os Estados Unidos por ter prejudicado em bilhões de dólares a economia cubana. Boa parte que se autoproclamam de "esquerda" e que até não concordam com o autoritarismo do "comandante" caiu neste conto do vigário.


Os Estados Unidos, os eternos inimigos.


A origem do embargo estadunidense ocorreu em razão do processo de nacionalização de empresas e propriedade estadunidenses, que em muitos casos tinham participação de capital cubano, durante o período revolucionário entre 1959 até 1961. Além disso, Fidel Castro com o auxílio do seu irmão Raul, que pertencia ao partido comunista local, e deu sustentação a ditadura de Batista, iniciaram uma aproximação com a União Soviética para dar apoio militar e logístico à revolução. O PSP, partido comunista cubano, deu apoio à revolução somente quando ela já estava concretizada, e ganhou espaços no aparelho do estado, em detrimento aos diversos grupos revolucionários, que em boa parte eram antissoviéticos.


Propaganda contra o embargo estadunidense a Cuba.


A aproximação com a União Soviética e a falta de indenização das empresas estadunidenses motivaram o império a realizar o estúpido embargo contra Cuba. Indubitavelmente o embargo praticado pelos Estados Unidos é condenável e criminoso e que prejudicou a economia cubana; os ianques proibiram a qualquer empresa estrangeira que esteja associada ao Tio Sam de realizar negócios na ilha e, também realizou diversos atentados contra Fidel e a ilha. Isso existiu de fato, mas há o outro lado da moeda que os dirigentes cubanos e nem a "esquerda" latino-americana menciona.


Durante 30 anos, a União Soviética investiu em média por ano, 6 bilhões de dólares na ilha, e a maior parte da receita foi usada para fins militares, ao ponto de Cuba ter se transformado o terceiro exército do continente americano, atrás dos Estados Unidos e Brasil. Isso com uma população de apenas 10 milhões de habitantes. A justificativa como sempre era a defesa contra o imperialismo norte-americano.


O militarismo em Cuba é tão acentuado que 1 em cada 27 habitantes pertencem aos quadros militares do partido, que estão subdimensionadas nos comitês de defesa revolução, uma espécie de big brother local, ou seja, órgãos de espionagem sobre a população para combater qualquer prática oposicionista, ou como eles dizem "contra-revolucionária".


Para se ter uma ideia, Cuba recebeu apenas de subsídios da União Soviética, um valor cinco vezes maior do que o Plano Marshall, o plano econômico que recuperou as economias européias destruídas pela segunda guerra mundial. Além disso, a burocracia cubana, destinou parte do subsídio em aventuras bélicas na África (Angola, Moçambique, Etiópia), na América Latina (as guerrilhas), na Ásia, e que resultou na maioria dos casos em fracasso.


O CDR, orgão de espionagem do regime cubano.


A ideia simplista de que o imperialismo estadunidense é o responsável pela situação em Cuba, além de ser falsa, demonstra o total desproposito de setores que ainda apoiam o capitalismo de estado e a ditadura de partido único do caudilho Fidel Castro. Cuba tem relações comerciais com todos os países, a exceção dos Estados Unidos, e o embargo é amplamente contornado pelo comércio com todos esses países. Muitos produtos que chegam dos Estados Unidos a Cuba provêm de países terceiros que mantêm relações comerciais com o império e, atualmente os estadunidenses são os maiores fornecedores de alimento para a ilha. Outro fato que merece ser destacado é que Cuba pertence aos quadros da OMC (Organização Mundial do Comércio) e pode manter relações comerciais com qualquer país.


O embargo dos Estados Unidos já foi rejeitado pela maioria dos países. Das 192 nações, 184 votaram contra o embargo.


O regime cubano responsabiliza diretamente o embargo, para esconder as mazelas do capitalismo estatal, ou como diria Marx, o capitalismo comunal que não tem força para ser competitivo com as economias de capitalismo privado. A centralização da economia por meio do estado, a destruição de pequenas propriedades e a inibição da iniciativa individual, isso sem contar com os desastrosos planos econômicos, baseados no voluntarismo e nos trabalhos forçados são os principais responsáveis pela situação do país.


O embargo dos Estados Unidos contra Cuba, em vez de enfraquecer o poder de Fidel, fez apenas aumentar. Não é à toa que o caudilho por mais autoritário que seja, é amado como uma liderança carismática por boa parte da população da ilha. Caso o embargo não existisse, poucas pessoas apoiariam Cuba e Castro.


Décimo mito:
O socialismo


O mito dos mitos é a propaganda de que em Cuba existe ou existiu socialismo. Socialismo não existe e nunca existiu em lugar nenhum no mundo na sociedade moderna. O que existiu nos países ditos "socialistas reais" foi nada mais que um capitalismo de estado, em que a burocracia partidária dos partidos comunistas, de inspiração bolchevique, se converteu em uma burguesia de estado, mudando apenas a forma de capitalismo. Para os incautos estatistas nada melhor do que essa avaliação de Friederich Engels:


"Não se pense porém que as forças produtivas percam sua função de capital ao se transformarem em sociedades anônimas ou em propriedade do Estado. No que se refere às primeiras não é preciso que prove essa alternativa. Por seu lado, o Estado moderno é uma organização que a sociedade burguesa se associa para defender o regime capitalista contra os ataques quer dos trabalhadores, quer dos capitais isolados.


O Estado moderno, qualquer que seja sua forma, é uma máquina essencialmente capitalista, é o capitalista coletivo real. E quanto mais forças produtivas coloque sob sua tutela mais se transformará em capitalista coletivo ideal em capitalista coletivo real."
(Engels F. Anti-during)


Por meio desta análise Engels mostra que é impossível a utilização do Estado para alcançar o socialismo, pois como já dizia Marx, todo Estado é um aparelho de dominação de classe, independentemente do nome que lhe é dado burguês, liberal, socialista, operário ou coisas deste tipo.


Cuba apresenta todas as características de uma sociedade capitalista estatal, em que a burocracia tornou-se burguesia de estado.


1) Os meios de produção pertencem a uma classe minoritária dominada pela burocracia do partido comunista.


2) Os trabalhadores estão separados dos meios de produção, ou seja, existe trabalho assalariado, portanto há a produção de mais-valia, ou seja, o trabalhador produz excedente que é apropriada pela burocracia estatal que investe em indústria pesada e na indústria bélica e um forte aparelho de propaganda para enquadrar o trabalhador.


3) A propriedade jurídica é coletiva (estado), mas a propriedade real é privada. No capitalismo individual predomina a propriedade privada individual, no capitalismo de estado predomina uma propriedade de uma classe que a gera coletivamente através do estado por meio da burocracia.


4) A existência de um controle estatal sobre as forças produtivas dirigida por uma burocracia é uma relação de classe, portanto uma relação de dominação. "o estado é aparelho da classe dominante".


5) A estatização não elimina a lei do valor, lei que determina a sociedade capitalista. Enquanto no capitalismo privado, a lei do valor se aplica no mercado, no capitalismo de estado, a lei do valor se aplica no jogo de planos. Não é à toa que o capitalismo privado se denomina como economia de mercado, o capitalismo de estado é chamado de economia planificada.


6) As relações de produção e consequentemente as relações sociais em Cuba são as mesmas do que qualquer país capitalista privado.


7) A repressão e a "propaganda ideológica revolucionária" são elementos mais eficientes para reproduzir essa dominação. As prisões, os hospitais psiquiátricos e os trabalhos forçados são comuns. A superestimação do "inimigo externo" como é o caso do imperialismo é outro ingrediente nesse tipo de regime para justificar e legitimar a sua dominação.


8) Há um sistema monetário idêntico ao capitalismo privado, portanto existe inflação. Todos os produtos, mesmo os de bens de produção são transacionados em mercado, no entanto este é controlado pelo estado que restringe a livre iniciativa, destruindo qualquer possibilidade de associação de livres produtores como é a essência do socialismo. Em razão do controle estatal na economia, desenvolveu-se ao longo dos anos "o mercado negro" em razão do planejamento centralizado.


9) Neste regime reina a mais feroz ditadura do capital por meio do estado em sua expressão mais decadente que é camuflado pelos programas sociais como a reforma agrária e urbana, a promoção da educação, da saúde, do investimento em esporte e erradicação da miséria. Todos estes programas são típicos da sociedade burguesa. A erradicação da miséria, no entanto significa a socialização da pobreza, ou seja, um nivelamento social muito baixo. Os sindicatos são controlados pelo estado.


10) A ideia de que a burocracia (a vanguarda) enraízada no poder irá deixá-lo por livre e espontânea vontade dos seus dirigentes após ter cumprido a sua "fase educadora" após a luta contra o imperialismo é simplesmente inimaginável. Somente quem acredita em Papai Noel pode acreditar em tamanho absurdo.


Marx contra o capitalismo de estado em Cuba.


Marx por ele mesmo.


Para finalizar é importante consultar o filosofo alemão Karl Marx, em desmistificar este tipo de sociedade que ele nunca defendeu, e esclarecer que antes mesmo do surgimento do capitalismo estatal (comunal), Marx havia esboçado uma crítica no livro Manuscritos Econômicos e Filosóficos ao que ele classificou de "comunismo grosseiro". Eis os trechos.


O comunismo é a expressão positiva da eliminação da propriedade privada e, antes de tudo a propriedade privada universal. [...] O comunismo é: 1) na sua primeira configuração apenas a generalização e o comprimento da referida relação; como tal manifesta-se numa dupla configuração: o domínio material surge-lhe tão amplo que ele procura destruir tudo o que mostra incapaz de ser possuído por todos como propriedade privada; desejar eliminar o talento etc., pela força. A posse física imediata, aparece-lhe como única finalidade da vida e existência. O papel do trabalhador não é eliminado, mas estende-se a todos os homens; [...] semelhante comunismo – a medida que nega todas as instâncias a personalidade do homem – constitui apenas a expressão lógica da propriedade privada que esta é negativa. [...] O comunismo grosseiro é apenas o ponto culminante da inveja e do nivelamento com base no mínimo pré-concebido. Que a eliminação da propriedade privada só em pequena medida representa uma legítima apropriação, prova-se pela negação abstrata de todo o mundo do cultivo e da civilização, pelo retorno à antinatural [IV] simplicidade do individuo pobre e carente, que não só ultrapassou, mas nem sequer atingiu ainda a propriedade privada.


A comunidade é apenas a comunidade do trabalho e da igualdade do salário, que o capital comunal, a comunidade como capitalista universal recompensa. Os dois aspectos da relação se erguem a uma suposta universalidade; o trabalho como a condição em que cada um se encontra situado e o capital como a universidade e o poder reconhecidos da comunidade.


[Marx, Karl. Manuscritos Econômicos-Filosóficos. Ed. Martin Claret, ppg 135-136]


Através desses trechos, é possível mostrar que Marx, embora em seu tempo não pudesse prever o surgimento capitalismo de estado e a burocracia como classe social, colocou esboços do que seria o pseudocomunismo; o comunismo grosseiro, que não passa de uma comunidade do trabalho e da igualdade do trabalho em que o capital universal (o estado) recompensa e o papel do trabalhador não é eliminado, e que está de acordo com as teorias da burocracia.


Em Cuba, assim como qualquer sociedade capitalista, há a exaltação do trabalho alienado e, nesse caso, os trabalhadores escravizados pelo estado-patrão são praticamente obrigados a defender a "pátria socialista" e cumprir as metas que a burocracia lhes impõe. Um bom exemplo disso, foi o episódio das 10 milhões de toneladas de safra de cana-de-açúcar, nos fins dos anos 60, meta em que a burocracia estatal tentou impor aos trabalhadores, para dar um passo a industrialização e tirar a economia do caos. O resultado foi um fracasso generalizado que arruinou a economia cubana. A ideologia voluntarista encarnada na figura Ernesto Che Guevara, defensora do "homem novo" guiado apenas pela "consciência revolucionária" foi uma das tantas ideologias produzidas pela burocracia partidária cubana para esconder a dominação sobre os trabalhadores. O próprio Che é um personagem transformado em mito, chegando ao absurdo de gerar um fanatismo e uma adesão acrítica de seus seguidores que se consideram "de esquerda" que mal conhece a revolução cubana.


Che Guevara, personagem que se transformou em mito.


No inicio da revolução, Cuba era vista pelo mundo como farol de esperança da humanidade, em especial na América Latina, na luta contra o imperialismo estadunidense. O que se passou em Cuba durante os últimos cinqüenta anos foi a instauração de um regime ditatorial, igualmente aos que tiveram nos países do Leste Europeu subordinada à União Soviética e, um enorme vazio para os cubanos que tentaram realizar uma revolução humanística, mas que no fim colheu um fruto amargo que é difícil de engolir.


Referências Bibliográficas:
Livros e artigo
DOLGOFF, Sam. A revolução cubana. Madrid, Campo abierto, 1978
FRANQUI, Carlos. Retrato de Família com Fidel. São Paulo, Record, 1981
HILB, Claudia. Silêncio Cuba. São Paulo. Paz e Terra, 2010
MARX, Karl. Manuscritos Econômicos-Filosóficos. São Paulo, Martin Claret, 2001
MOTTA, Fernando C. Prestes. O que é burocracia?. São Paulo, Brasiliense, 1985
TEIXEIRA, Rafael S. O mito da autoridade infalível. Espaço acadêmico, 2009
TRAGTENBERG, Maurício. Reflexões sobre o socialismo. São Paulo, Moderna, 1986
Documentários
JIMENEZ, Leal Orlando. La otra Cuba. Madrid, RAI, 1985. (Excelente)
LÓPEZ Y GUERRA, Humberto. Cuba del humanismo al Comunismo. USA, 1989.


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Dom Ciccillo: Deputado do PT quer homenagear o maior grileiro de terras do mundo” com nome de Rodovia Federal no Paraná.

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Para o jornalista Igor Felippe, a homenagem de André Vargas (PT-PR) a Dom Ciccillo deixa lição: “A grilagem terras será recompensada.


Igor Felippe Santos, especial para o Viomundo
http://www.viomundo.com.br/denuncias/deputado-do-pt-homenageia-o-maior-grileiro-do-mundo.html
14 de março de 2013


O deputado federal André Vargas (PT-PR) apresentou em 2009 um projeto de lei (PL 6.167/09) para nomear o trecho da BR-277 entre as cidades de Paranaguá e Curitiba (PR) de Rodovia Cecílio do Rego Almeida.


Nesta quarta-feira, a homenagem foi aprovada, depois de parecer favorável de outro deputado do PT na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, José Mentor.


Por que uma homenagem dessas para um nome pouco conhecido?


Cecílio do Rego Almeida, que morreu aos 78 anos em 2008, foi presidente do Conselho de Administração do Grupo CR Almeida.


Almeida é paraense, mas mudou para o Paraná com 7 anos de idade.


O grande feito dele foi conquistar o título de maior grileiro do mundo, por concentrar fazendas que somadas são maiores que o estado da Paraíba.


Um homem só concentrou 6 milhões de hectares. Não, não é 6 MIL hectares, que já seria um baita latifúndio.


Em 2012, a subseção da justiça federal de Altamira, no Pará, recebeu os autos do processo sobre a grilagem.


O documento com 1.500 páginas, distribuídos em seis volumes, demonstra as irregularidades ou melhor, crimes de Cecílio do Rego Almeida para chegar ao topo do ranking dos grileiros.


A homenagem de André Vargas deixa uma lição: a grilagem terras será recompensada.


Abaixo, leia reportagem da Caros Amigos, de 2005 com perfil do homenageado.


MAIOR GRILEIRO DO MUNDO
Caros Amigos - Ano 09/2005 - Edição 102


Na década de 1990, o empreiteiro Cecílio do Rego Almeida grilou duas fazendas no Pará, uma de 1,2 milhão de hectares e outra de 4,77 milhões de hectares. Somadas, dão uma área maior que a do Estado da Paraíba. É uma longa história, mas este mês a Polícia Federal deverá invadir a maior delas a, fim de garantir uma liminar da Justiça que contesta os direitos do empresário. Ele pode recorrer ao Tribunal Regional Federal, mas enquanto isso não pode negociar a área, deve interromper qualquer atividade ou ocupação dentro dela e dispensar a polícia particular que mantém na fazenda. Aqui se conta quem é esse brasileiro cuja fortuna chega a 5 bilhões de dólares e que concedeu a Caros Amigos uma atordoante entrevista.


João de Barros, em Caros Amigos


Cecílio do Rego Almeida é um paraense corpulento, de 75 anos de idade, cabelos inteiramente brancos e voz tonitruante, que enriqueceu construindo obras públicas no Brasil e no exterior. Seus olhos, quando não estão ocultos sob os óculos escuros Armani, parecem dois canos de uma carabina dupla pronta para disparar sobre o interlocutor. Com patrimônio que ele mesmo estima em algo como 5 bilhões de dólares, Cecílio já apareceu na lista da revista Forbes entre os cem homens mais ricos do mundo. A empreiteira dele, a CR Almeida Engenharia e Construções, é o quarto maior grupo econômico privado do Brasil e a principal construtora -, com patrimônio de 3,274 bilhões de dólares, segundo a publicação Melhores e Maiores da revista Exame, do ano passado.


Dom Ciccillo, como é chamado pelos íntimos, tem gênio explosivo e teatral –e hoje é refém do temperamento que sempre cultivou. No passado comparava-se a uma bulldozer, a barulhenta máquina de terraplenagem usada na construção de estradas, cuja lâmina, enorme, derruba os obstáculos naturais de matas fechadas, transformando-as em trilhas.


Ah, mas não fossem os muitos filhos da puta, como ele classifica, que perpassaram seu caminho da família aos negócios -, a vida do empreiteiro Cecílio do Rego Almeida, o dom Ciccillo, estaria infinitamente melhor. Nesse instante, por exemplo, ele não estaria às turras com autoridades da República, como o Ministério Público Federal, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), a Fundação Nacional do Índio (Funai), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) nem com o Instituto de Terras do Estado do Pará, o Iterpa, por causa do megalatifúndio que alega possuir em Altamira, no Pará, maior do que o estado da Paraíba, razão de seu título de maior grileiro do mundo.


Dom Ciccillo se diz dono de duas áreas amazônicas que totalizam quase 6 milhões de hectares. Uma é a fazenda Xingu, de 1,2 milhão de hectares, formada a partir de 1997, pela compra de antigos seringais, ao longo do rio Xingu, que pertenciam ao espólio de uma certa família Moura. Segundo a Superintendência do INCRA, a área da fazenda Xingu se sobrepõe às reservas indígenas do povo araueté, no igarapé Ipixuna, paracanã, na reserva Apyterewa, e à Floresta Nacional do Xingu. Além disso, a descrição do perímetro de todos os seringais que compõem a fazenda – seringais Forte Veneza, Humaitá, Belo Horizonte, Mossoró e Caxinguba – não bate com as coordenadas geográficas contidas nas escrituras.


A outra, a fazenda Curuá, de 4,772 milhões de hectares, é uma vastidão quase intocada. Rica em biodiversidade, sua floresta nativa hospeda cerca de 350 espécies de árvores, 1.400 de vertebrados, quinhentas de peixes e uma quantidade não estimada de insetos não catalogados pela pesquisa científica. Pontilhada por dezenas de rios perenes, muitos deles navegáveis, a região é abundante em madeiras, nobres como o mogno e em reservas minerais como o ouro.


Ocupando mais da metade da vastidão florestal chamada Terra do Meio, a Curuá, também conhecida como Ceciliolândia em alusão ao suposto proprietário, abriga ainda três terras indígenas (das tribos xipaia, curuá e caiapó-baú-mecranoti), a Floresta Nacional de Altamira e dois assentamentos do INCRA (Nova Fronteira e Santa Júlia). Por lá vivem umas duzentas famílias de ribeirinhos e extrativistas, distantes horas de barco entre si, em situação de seno-abandono – quase todos analfabetos e sem certidão de nascimento.


Uma viagem de barco de Altamira até uma das bases instaladas pela administração da fazenda Curuá –na localidade de Entre Rios, onde os cursos dos rios Curuá e Iriri se encontram antes de desembocar no rio Xingu -, pode levar até dezoito dias no inverno (a época de chuvas) e pelo menos uma semana no verão. Um vôo de Minuano leva uma hora e meia.


A grilagem e os grileiros


O interesse de dom Ciccillo pela floresta surgiu em dezembro de 1994, quando ele deparou com um anúncio publicado no jornal o Estado de S. Paulo que oferecia, por 40 milhões de reais, a maior fazenda do mundo. Meses depois, três assessores de Cecílio foram à sede do Iterpa e manifestaram, diante de diretores da entidade, o desejo do patriarca de implantar na área um projeto de preservação ambiental auto-sustentável batizado de Floresta para Sempre.


Na ocasião, os assessores teriam sido alertados de que o Estado do Pará jamais fizera concessão de terras com aquelas dimensões a particulares. Mais: foram informados de que se tratava de patrimônio público, uma vez que não havia nos arquivos do órgão nenhum registro de título definitivo expedido pelo Estado para aquela localidade Cecílio nega ter sido avisado e atribui a versão a débeis mentais do Iterpa.


O certo é que no dia 13 de junho de 1995 Cecílio fechou o negócio. Em nome do filho Roberto Beltrão Almeida e da Rondou Projetos Ecológicos, do grupo CR Almeida, ele comprou de Umbelino de Oliveira, empresário já falecido, o controle acionário da Incenxil –Indústria, Comércio, Exportação e Navegação do Xingu Ltda. -, que, de acordo com documentos de procedência discutível, possuía o latifúndio como um ativo da empresa, formado pela junção de dez glebas contínuas, todas elas na margem esquerda do rio Iriri. Isso é o que está registrado no Cartório de Registro de Imóveis da Comarca de Altamira, o Cartório Moreira.


A história dessas dez glebas remonta a 1923. Na ocasião, o governo do Pará arrendou quatro delas, uns 30.000 hectares, a quatro comerciantes João Gomes da Silva, Francisco Aciolly Meirelles, Bento Mendes Leite e Anfrísio da Costa Nunes -, permitindo-lhes o extrativismo nos castanhais e seringais da área. Os quatro contratos eram idênticos. Rezavam que a concessão não podia ser repassada a terceiros, sob pena de rescisão imediata. E tinha de ser renovada anualmente; se não fosse, caducaria. Nenhum desses itens foi respeitado.


Ao contrário, no dia 9 de janeiro de 1984, o cartório Moreira, de Altamira, privatizou as terras públicas, transferindo as dez glebas 4 milhões de hectares aos herdeiros de um certo coronel Ernesto Acioly da Silva. Segundo atestou o cartório, a área teria sido adquirida, por meio de título hábil, da Diretoria de Obra, Terras e Viação do Estado. Título hábil? O governo do Pará jamais encontrou tal documento nos seus registros de concessão de terras. Tampouco os supostos possuidores do título hábil o apresentaram.


Em dezembro de 1993, a área mudou de dono. Umbelino de Oliveira, representando a empresa Incenxil, compareceu ao mesmo cartório Moreira e, diante da oficiala Eugênia Silva de Freitas, após à matrícula 6.411 a mesma que repassara as dez glebas aos herdeiros do coronel Aciolly -, um mapa, elaborado em 28 de março de 1993 pelo agrimensor Nilson Lameira de Souza, acrescendo mais 772.000 hectares de floresta aos 4 milhões de hectares, já registrados como propriedade particular. Para dar ao mapa idade mais antiga e legitimar as operações suspeitas realizadas no passado com a matrícula 6.411, a oficiala Eugênia lavrou a certidão como se o documento tivesse sido elaborado dez anos antes –28 de março de 1983.


Por causa dessa trajetória sinuosa e recorrente, de registrar indiscriminadamente terras do Estado sem consultar o órgão responsável pela política fundiária do Pará (que oficialmente legitima o registro cartorial), dona Eugênia está sendo processada por crime de falsidade ideológica Os advogados que a defendem foram contratados por Cecílio do Rego Almeida.


Floresta de papel


O primeiro processo (270/96) contra as pretensões de Cecílio na Amazônia foi ajuizado na comarca de Altamira, em agosto de 1996. Trata-se da ação ordinária de nulidade e cancelamento de matricula movida pelo Instituto de Terras do Pará (Iterpa) contra a empresa Incerixil. A ação pede o cancelamento de registro da fazenda Curuá em vista de haver restado provado, após estudos e levantamentos, realizados inclusive no próprio cartório, que jamais houve ato causal que originasse a propriedade privada em questão.


A ação está parada há quase dez anos. Durante todo esse tempo, o Tribunal de Justiça do Estado não decidiu se tem competência jurídica para julgar a questão ou se a remete à justiça Federal.


Em março de 2003, o Ministério Público Federal pediu à Justiça Federal em Santarém que cancelasse todos os títulos de terra e registros da fazenda Curuá e denunciou criminalmente os titulares da Incenxil e dois oficiais do cartório de Altamira, entre os quais dona Eugênia, por envolvimento em falsificação para a grilagem de terras da fazenda Curuá.


Por fim, no dia 14 de abril passado, o Ministério Público Federal, por meio dos procuradores Felício Pontes Júnior, Gustavo Nogami e Ubiratan Cazetta, ajuizou uma ação civil pública contra a Incenxil para evitar que, com a criação, em novembro, da Reserva Extrativista do Riozinho do Anfrísio, pelo presidente Lula, o Ibama seja obrigado a indenizar 736.000 hectares declarados de interesse social a detentores de títulos de terra abarcados pelo decreto – a Procuradoria da República constatou que metade da área coincide com trechos grilados da fazenda Curuá. Em vista da histórica fraude, escreveram os procuradores, a União poderá ser obrigada a desapropriar um imóvel que lhe pertence, ocasionando vultosos prejuízos para os cofres públicos.


Para eles, o alastramento da corrupção perpetrada pela Incenxil nos registros públicos do Pará significa o desordenamento agrário, a violência no campo, a devastação ambiental e o sofrimento de milhões de pessoas que poderiam e deveriam usufruir uma reforma agrária profícua.


Em 12 de agosto passado, o juiz federal Fabiano Uerli ordenou que a empresa Incenxil interrompesse qualquer atividade ou ocupação na fazenda Curuᔠe que o imóvel permanecesse indisponível para venda ou troca, além de suspender qualquer pagamento de indenização por parte do Ibama. Na prática, a Ceciliolândia ficará intocada até o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal, caso a empresa recorra da decisão do juiz Fabiano.


O QG de Cecílio


É de um palacete amarelo de piso de granito e paredes revestidas de madeira, que ocupa uma quadra inteira da rua Vicente Machado, no bairro Batel, em Curitiba, onde a modernidade da tecnologia não ofusca a decoração clássica do interior, que dom Ciccillo toca seu império, como presidente do conselho de administração da holding capitaneada pela CR Almeida, o mega-grupo que controla uma penca de empreiteiras menores, as estradas do sistema Ecorodovias-Imigrantes (SP), Caminho do Mar (PR) e Ecosul (RS), a indústria de explosivos Britanite e a Rondou Projetos Ecológicos.


Dom Cicillo parece estar sempre à beira de um ataque de nervos. Não, ele não conhece a revista Caros Amigos, mas espera que ela não seja marxista, não de Karl Marx, mas de Groucho Marx, uma vez que ultimamente só jornalistas palhaços”o entrevistam. O repórter há de entender. Ele, um empreiteiro de obras fantásticas como a rodovia dos Imigrantes, que conquistou prêmios no estrangeiro pela preocupação ambiental do projeto, não se prestaria a perseguir ribeirinhos ou índios. Ademais, depois de cinqüenta anos construindo o Brasil, como uma pessoa com o patrimônio que ele possui poderia ter coragem de fazer grilagem? Para que uma pessoa assim faria uma coisa dessa?


E a sua trajetória pessoal, doutor Cecílio?


Ele apanha uma edição da extinta revista Manchete que o traz como um de dez personagens escolhidos pela publicação para compor a série Do Zero ao Infinito. No alto da página, em letras garrafais, aparece o nome Cecílio do Rego Almeida em vermelho, logo abaixo uma declaração dele: Eu joguei no desenvolvimento do Brasil. Cecílio relê a matéria saltando trechos. Está tudo aqui, minha infância, meus primeiros negócios, pode usar e abusar.


Em seguida, apanha livros e folhetos que revelam a pujança do grupo CR Almeida, do qual é o presidente do conselho de administração. Um livro enumera as principais obras da empreiteira rodovias, ferrovias, aeroportos, metrôs, hidrelétricas, terminais marítimos e até o Maracanã, inaugurado quando Cecílio tinha 20 anos de idade e não era nem engenheiro. Explicação: como comprou, em 1974, a construtora Cavalcanti Junqueira, que erguera o, estádio para a Copa do Mundo de 1950, ele achou por bem incorporá-lo ao portfólio de sua empresa.


O batismo profissional de Cecílio ocorreu em 1952, quando ainda estudava na Escola Federal de Engenharia, na rodovia Curitiba-Paranaguá. A obra era tocada pela Lysímaco da Costa, a maior empreiteira paranaense da época. Quando não estava estudando, e ele sempre foi um dos melhores alunos da classe, Cecílio não saía de lá. O que via não o satisfazia.


Por exemplo, fez as contas e percebeu que uma máquina substituiria quatrocentos homens e faria muito melhor uma valeta longitudinal. Ganhou pontos com a descoberta. Mais: para amortizar o preço da máquina, afinal comprada pela Lysímaco, instituiu o trabalho noturno. Outro ponto para Cecílio. No final de 1957, já formado e casado havia um ano, ele era um dos engenheiros mais bem pagos do Paraná. E economizava o máximo. Seu plano era construir um império.


No Natal desse mesmo ano, Cecílio rodou a baiana na empresa em que trabalhava. Ele queria ir para casa, passar a festa em família, mas os chefes, inexplicavelmente, adiaram sua saída por seis horas. Ele se revoltou, brigou feio e pediu demissão para não passar o vexame de ser posto para fora. Pensou em partir para a Bahia, por causa dos poços de petróleo descobertos pela Petrobras, mas a Lysímaco decidiu contratá-lo como sub-empreiteiro e ele, então, montou a Engenharia e Construções C R Almeida Ltda., em sociedade com o irmão Félix. Capital inicial: 2.500 cruzeiros. Cecílio dera o primeiro passo rumo à fortuna que almejava.


Montou o escritório na garagem da casa paterna e foi fazer bueiros de pedra. Pedras? Cecílio já sabia que era muito mais negócio fazê-los de concreto e investiu pesado na inovação. Passou a ser respeitado. Foi chamado para construir 8 quilômetros de uma estrada num charco. Criou um sistema de drenagem, deu certo e, com a bolada que faturou, passou a ganhar mercado. Para aumentar a participação em obras maiores, ele comprava empreiteiras concorrentes. Até que, em 1965, comprou a Lysímaco. Cecílio já era o maior empreiteiro do Paraná.


Marchas e contramarchas


Para as aspirações de Cecílio não podia haver coisa melhor do que o golpe de 1964. À fome dos militares por obras juntou-se a vontade de comer de Cecílio. Cedo, mão e luva perceberam afinidades que os aproximariam por longo tempo a ponto de o magnata falar do período com imenso carinho ainda hoje. O auge da união coincide com o tempo mais bravo da repressão política da ditadura, o do general Emílio Garrastazu Médici. A CR Almeida abocanhou no período 37 grandes obras do governo federal, entre as quais a Estrada de Ferro Central do Paraná, a pavimentação da rodovia Belém-Brasília, a Rodovia Rio-Santos, o terminal marítimo do porto de Sepetiba, entre outras.


É nesse período, aliás, que Cecílio começa a ganhar notoriedade nacional e a ser chamado de Dom Ciccillo.


Acostumado a pagar as comissões de praxe entenda-se propinas -, algo tido como absolutamente natural no ramo, Cecílio foi surpreendido pelo próprio Médici, que indicou (as eleições eram indiretas) o então deputado federal Haroldo Leon Peres, um amigo com o qual o ditador se divertia jogando biriba em Brasília, à sucessão de Paulo Pimentel no governo do Estado do Paraná. A posse se deu em 15 de março de 1971 para um mandato de cinco anos.


Tão logo assumiu o cargo, Peres chamou Cecílio para renegociar as comissões sobre as obras em andamento, acertadas no governo anterior. Cecílio disse que era impossível, mas o governador bateu o pé. Diante do impasse, Cecílio marcou o acerto para o Rio de janeiro. O fim de semana estava ensolarado e ambos resolveram passear a caráter na praia do Leme camisa aberta no peito, bermuda e chinelos. No bolso do empreiteiro, um pequeno retransmissor emitia a conversa para o outro lado da rua, onde era captada por receptores e gravadores de agentes do temido Serviço Nacional de Informações, o SNI. A fita foi parar no Conselho de Segurança Nacional, em Brasília. E Peres teve de renunciar ao cargo que exercia havia oito meses.


Fanfarronices e ameaças


Denúncias de fraudes, subornos, sonegação de impostos, remessa ilegal de dinheiro ao exterior, espionagem, grampos telefônicos, cárcere privado, grilagem de terras, agressões e ameaças de morte recheiam a biografia de dom Ciccillo. Com o tempo, sua fama de arquitetar vinganças e perseguir inimigos só aumentou. Para propagar a força econômica que detinha (e no início dos anos 1970 também o poder político), Cecílio apresentava-se à sociedade como um caçador de bisonte. Ao absorver a ideologia anticomunista dos militares, Cecílio passou a andar armado e a justificar o auto-apelido caçador de bisonte revelador da própria truculência.


Cecílio voltaria à cena nacional em março de 1974, por conta de um drama pessoal: seu filho César Beltrão de Almeida, de 12 anos, foi sequestrado no dia 25 e libertado 35 horas depois, após o pagamento do resgate exigido de 15 milhões de cruzeiros, equivalente hoje a 1,650 milhão de reais. Em Curitiba corre a versão de que Cecílio teria castigado dois dos doze criminosos envolvidos no crime: o mentor do sequestro foi jogado de um helicóptero em alto-mar. E outro detido, que cumpria pena no Presídio de Ahu, foi brindado com injeções diárias de hormônio feminino, afinou a voz, ganhou seios, perdeu pelos e virou mulher de malandro na cadeia.


Os anos 1970 e 1980 prodigalizaram de vez Cecílio como personagem de histórias aparentemente inverossímeis. Certa vez, temendo demorar para receber um dinheiro da Companhia Vale do Rio Doce, ele chegou à sede da empresa, no Rio de Janeiro, de pijama, empurrado numa cadeira de rodas por um homem vestido de enfermeiro. Num dos braços recebia soro. Dizendo-se à beira da morte porque sua empresa estava quebrando, sensibilizou o diretor financeiro da companhia, doutor Moretzsohn, a liberar rapidamente o pagamento.


Noutra ocasião, sentindo-se prejudicado numa licitação, Cecílio viajou a Belo Horizonte com um bando de seguranças e obrigou um rival, genro de um banqueiro mineiro, empreiteiro da falida Construtora de Estradas e Estruturas S.A. (Ceesa), que ganhara a concorrência pública, a engolir uma folha do contrato vencedor. De outra feita, quando soube que a esposa de um desafeto da Companhia Paranaense de Energia (Copel) traía o marido, gravou e distribuiu cópias de vídeo da mulher frequentando um motel com o amante.


Seu currículo, porém, não apresenta apenas vitórias. Em 1986, a justiça americana descobriu que o ex-coordenador da dívida externa brasileira e então vice presidente do Morgan Bank, o venezuelano naturalizado norte-americano Toni Gebauer, aplicara um golpe na praça, surrupiando de Cecílio ao menos 2 milhões de dólares. E, em 28 de julho de 1992, Cecílio deu muita sorte ao não embarcar no Learjet que usava, prefixo PT-LHU.


O avião saiu de Curitiba com destino ao Rio de Janeiro com seis pessoas a bordo. Caiu em Iguape, São Paulo. Ninguém sobreviveu. Nunca se soube a causa do acidente.


Outra encrenca feia armada por Cecílio data de 1994. Ao ser entrevistado em sua mansão curitibana, na verdade um forte fincado num bosque, ele prendeu o repórter Policarpo Júnior e a fotógrafa Marleth Silva, ambos da revista Veja. Se levantar daí, não sai mais da minha casa, ameaçou. Os jornalistas esperaram um descuido do sequestrador e ligaram para a sucursal de Brasília. Os dois só foram libertados três horas depois pela Policia Civil do Paraná.


Uma de suas mais recentes estripulias veio à tona no ano passado, durante as investigações da CPI do Banestado, quando se descobriu que, no dia 9 de abril de 1998, governo FHC, Cecílio remeteu ao Brasil, a partir de uma conta de doleiros do MTB Bank, de Nova York, 11 milhões de dólares. O dinheiro foi convertido em reais sem passar pelo Banco Central, o que constitui crime financeiro. Trata-se de uma das maiores operações financeiras realizadas por pessoa física no país.


Na verdade, Cecílio não passou um ano sequer livre de encrencas nos últimos trinta anos. São incontáveis as ações que move e responde nas diversas áreas do direito, em diferentes cidades do país. Só no Paraná, hoje, contam-se pelo menos 35 processos.


A ENTREVISTA


No dia 18 de abril passado, dom Cecílio seguinte entrevista a Caros Amigos:


Qual é a origem de Cecílio do Rego Almeida?


Eu tive um grande pai. Ele nasceu em 1891 e morreu em 1987: Raymundo Ramos da Costa Almeida. A história dele está neste livreco que eu te dou, feito pelo meu irmão Carlos do Rego Almeida. O livreto conta a história de uma família pobre, mas que sempre teve honra. Aqui você terá uma ideia de quem foi meu pai, um homem de simplicidade extrema, mas que me passou e a todos os seus filhos coisas sábias. Como, por exemplo: o homem só é um verdadeiro homem quando é leal e digno com sua família, leal e digno com seus amigos e leal e digno com os menos favorecidos. Eu considero esse pensamento profundo. Aqui, então, tem a história dele, de uma família que sai de Pernambuco para o Pará, no início do surto da borracha. Então, em vez de eu ficar lendo, é mais fácil o senhor extrair o que quiser daqui


O senhor é paraense?


Sou paraense, nascido em Óbidos. Vim com 2 anos para Curitiba. Éramos em sete irmãos três morreram. Um deles, que era um ano e oito meses mais velho do que eu, foi um dos maiores médicos de toda a história do Paraná, chamado Félix do Rego Almeida. Ele fez para mais de 40.000 operações e sempre na Santa Casa de Misericórdia Ele atendia de quarenta a cinquenta pessoas por dia.


Seu pai fazia o quê?


Meu pai foi carteiro. Minha mãe era dona de casa, aliás, ótima dona de casa Aqui, a fotografia de um amigo dele dos Correios, João Malta de Albuquerque Maranhão. Esse João veio antes, com onze filhos. Como era muito amigo do meu pai, escreveu uma carta para que saísse do Norte porque em cem anos a nossa família não teria a oportunidade que o Sul dava Então, viemos e ficamos hospedados na casa dele, em Curitiba. E hoje essa família é como se fosse minha família, e minha família é como se fosse a família Albuquerque Maranhão.


E como foi a sua trajetória pessoal?


Fui uma criança pobre que procurou estudar, e estudar à noite, que começou a trabalhar de uma forma que parecia que eu estava no século 16, porque eu fazia bueiros de pedra: fazia uma base, fazia dois muros de pedra que em cima também era coberto de pedras enormes. Naquela época, o tubo de concreto era muito caro. De Curitiba a Paranaguá tem uma série muito grande ainda de bueiros de pedra. Eu trabalhei muito. E percebi que ia levar uns trezentos anos para ser rico se continuasse a fazer bueiros de pedra. Então, passei a fazer de concreto. Saímos da Idade Média para o século 20. Foi aí que comprei betoneiras. Os operários, eu vinha buscá-los aqui no albergue noturno. Meu transporte era um caminhão Hércules diesel 1942, que eu mesmo guiava e servia pra tudo. Bem, em 1949 eu entrei na Escola de Engenharia, quando ela foi federalizada e virou pública. E entrei um ano atrasado porque antes o ensino era pago e não tinha condição de pagar todos ajudávamos em casa. Fiz o primeiro ano, o segundo, o terceiro. No terceiro, o professor de geologia era dono da maior empresa de engenharia do Paraná. Eu não colava, era um cê-dê-efe, cu-de-ferro. E geologia era matéria que os outros colavam. E o professor sabe quando é colado e quando não é. Duas pessoas não colavam: eu e o filho de um padeiro, Roberto Brandão. No fim do ano ou no começo do ano seguinte, esse professor me chamou para me entrevistar. Ele disse que tinha uma vaga, mas duas pessoas eu e o Roberto, que era meu amigo. Eu disse: Olha, professor, vamos fazer da seguinte maneira: chama o Roberto porque ele está mais na merda do que eu, então é merecedor disso, mas eu gostaria que o senhor guardasse uma vaga para mim também, no futuro. Para meu espanto, ele me chamou. Não fiz nada de errado, o Roberto é meu amigo até hoje. Estou há cinqüenta anos construindo no Brasil e tenho uma comenda por nunca ter sofrido penalidade ética alguma durante cinquenta anos.


Vamos seguir a linha do tempo. Como era tratar, durante o regime militar, essa questão de obras, que naquela época servia à propaganda oficial do governo, da Transamazônica, do lema País que vai pra frente? Gostaria que o senhor fizesse uma análise desse período.


Vou te responder: entendo que foi uma ditadura, mas a mais leve das ditaduras. Hoje existe uma ditadura do PT mais forte do que a dos militares. Se você pegar o primeiro marechal, o Castelo Branco, esse homem foi um grande estadista. De total probidade. Levou gênios para o seu governo, como o Roberto Campos, o Bulhões. Só esses dois nomes transformaram o Brasil. Peguei obras nesse governo Castelo Branco. Eram concorrências. O Costa e Silva durou muito pouco tempo. Em seguida entrou o Garrastazu Médici. Eu sei que foi um governo duro. Houve mortes houve um negócio lá no Norte do Brasil que eu condeno. Mataram o Herzog durante o regime militar, mas na época ficava tudo na base do ouvi dizer (que foram os militares). Igual ao que faz hoje esse relator da CPMI da Terra, que fica só na base do que ouve dizer, do que está nos jornais.


Bem, mas no Médici houve muita obra, trabalhamos muito. Ele tinha um grande ministro a quem chamavam de ladrão, o Andreazza. Um absurdo o que fizeram com esse homem. Ele morreu pobre, de câncer, e a família não tinha dinheiro para enterrá-lo. Fui um dos empreiteiros que deram dinheiro. Nunca houve a menor corrupção nossa com o Andreazza. Uma coisa fantástica: você ganhava dinheiro e obras e tudo sem ter de pagar corrupção.


Como se faz a cabeça do empreiteiro para aceitar o esquema do caixa 2, a corrupção, o financiamento de campanha? É na base do, se não der, não participa?


Depois da lei 8.666, e mesmo antes dela, havia a concorrência. São os atestados que a pessoa tem. Daí inventam tudo quanto é manobra para tirar esse, pôr aquele. É inventada a manobra. Quem criou isso muito foi o genro do Antônio Carlos Magalhães, que é meu inimigo, um grande filho da puta chamado César Mata Pires. Ele inventou a coisa mais fantástica. Inventou franchising de balcões de corrupção. Conseguiu trezentas emendas no Congresso Nacional para obras dele. E eu destruí essa boca dele, fui eu.


Como o senhor briga num caso desses?


Eu sabia que ele tinha um homem no exterior, o Raul Gigante. E contratei policiais aposentados da Scotland Yard que filmaram o homem dele viajando de helicóptero para a França, para a Suíça. No dia em que ele veio para o Brasil com a mulher, fui avisado que eles estavam nos bancos 2A e 2B da British Airways. A Polícia Federal foi avisada e prenderam o cara com uma vasta documentação. Fiz isso porque ele foi muito filho da puta comigo. Eu pedi concordata em 1998 por causa desse César Mata Pires, mancomunado com a Sônia Alves, uma jornalista do Jornal da Tarde, de São Paulo. Houve um acerto com a Receita Federal e sai nesse jornal: CR Almeida arromba os cofres públicos: 578 milhões de dólares.


Dias antes, houve uma fiscalização da Receita, que me multou em 178 milhões de dólares. Era tão cretina a multa que, no primeiro requerimento administrativo ao próprio filho da puta que era da Receita Federal, baixaram 100 milhões de dólares. Isso foi de 1993 para 1994. Eu tinha ido para a China, nós montamos negócio na China, depois descemos para a África do Sul, porque minha mulher queria conhecer uma reserva de lá. Tive a notícia em Joanesburgo e, quando cheguei no Brasil, dei ordens para o presidente da empresa: Peça concordata amanhã cedo. Senão, nós quebramos.


Eu sabia que ia quebrar. E agora, há pouco tempo, desses 178 milhões sobram 2 milhões que nós estamos brigando no Conselho de Contribuintes. Não é o fim do mundo? Não pode ficar parado, tem que sair pra briga, tem que sair pra quebrar as pernas. Esse é o jogo.


E quando muda o governante muda o jogo?


Muda e não muda.


Vamos continuar, então, passeando pelos governos, estávamos no governo Figueiredo


Bom, eu quero elogiar os governos da revolução. Agora, sou altamente conceituado no meio empresarial de empreiteiros do Brasil. Minha palavra vale, meu nome é respeitado, nunca houve um caso de entregar alguém. O único caso que houve foi o desse vagabundo, desse genro do Antônio Carlos Magalhães. No governo Collor fui investigado pela CPI dos Empreiteiros, inventada pelo Jarbas Passarinho, tenho documento disso.


E o que se fala do governo Collor aconteceu mesmo?


Aconteceu. E o mais digno deles era o PC Farias, um homem que tinha palavra. O resto era merda.


Muitos falavam em nome do presidente Collor para se beneficiar?


Alguns apareciam, como esse Edemar Cid Ferreira, esse ladrão do Banco Santos. Ele era ladrão lá atrás. E outros. Tem o episódio de um merda que chegou lá bonito, arrumado, e veio cobrar um percentual de um dinheiro que estava recebendo no governo Collor de obra que tinha sido feita no governo anterior. E o cara queria um percentual alto. Eu estava armado, revólver. Porque eu tinha briga com esse César Mata Pires. Daí o cara disse: Estou aqui, não sei se você recebeu a fatura. Eu disse: Sim, recebemos. Não, é que eu tenho um percentual: Aí eu disse: Tenho só uma pergunta a lhe fazer: o senhor comeu merda hoje, não foi?”O cara era maior que eu. Como?”O senhor, estou perguntando, comeu merda hoje, merda, cocô?”O cara não sabia o que fazer. E eu: Está me achando com cara de que, seu filho da puta! Você vem ao meu apartamento me dizer uma merda dessa, seu cretino!”Não, o PC, não sei que Bem, o cara percebeu que eu estava armado e afinou.


Quem era o sujeito?


Morreu já. Era um baiano que tinha uma companhia de transporte coletivo em Salvador. Eu liguei e o PC disse: Não, o cara é meu amigo. Eu disse: Mas esse filho da puta, na minha frente, e eu com a mão no revólver, esse filho de uma puta quer esse percentual. E o PC disse: Não foi isso que eu disse a ele. Eu disse: Quanto?”O PC disse: A metade.


Normalmente, quanto é a comissão?


Esse César Mata Pires paga qualquer comissão. Porque ele rouba, né? Ele foi contratado para fazer o rebaixamento da calha do rio Tietê e não fez. Ele mentiu na topografia. Deu uma enchente e morreram catorze pessoas. Ele topa qualquer negócio. É um porco. Das empreiteiras, é o que destoa, ele destoa dos outros. Porque, se você pegar a Camargo Correa, o Sebastião Camargo é um cara fantástico, meu amigo, eu ia lá pedir conselho para ele, é bem mais velho do que eu; o pessoal da Andrade Gutierrez, corretíssimo; CBPO, pessoal de primeiro mundo em São Paulo; o Lacombe, que já morreu, era corretíssimo. Todos honram o que falam.


Normalmente, quanto é a bola?


Não, isso eu não vou dizer.


E no governo do PT houve alguma mudança?


Não sei se existe porque eles não fizeram nada. Dois anos de governo sem nada, nada foi feito. Então não posso falar. E dessas obras futuras nem posso dizer porque nem saíram os editais. Mas acho que, com as parcerias público-privadas, a corrupção em obras no Brasil virou a página. Porque, na PPP, você é que entra com o dinheiro. O governo dá a concessão. Veja a nossa obra na Imigrantes. Ela consumiu 400 milhões de dólares, sem um único centavo do governo zero. O trabalho principal foi o ambiente, uma coisa fantástica. Recebeu prêmios no estrangeiro. Você constrói para ser o dono, então isso vai sanar esse aspecto. Vai estimular a competição entre as empreiteiras.


E não vai acirrar o ânimo entre vocês?


Não. Vai ter para todos. E você não estará fazendo obras para o governo, mas para você mesmo. Você vai ter a concessão por vinte, 25 anos, vai fazer o melhor tipo de obra com o menor custo ao longo do tempo, não é isso? Senão, você perde dinheiro. Porque daí o panaca que passa de carro paga o pedágio. Também tem casos em que a gente paga uma taxa ao governo.


Com as terras do Pará o senhor faria parceria?


Eu tenho 75 anos de idade. Faz dez anos que comprei essa merda lá no Pará. Você acha que uma pessoa que construiu estradas, ferrovias, barragens, túneis, portos, aeroportos pode pensar em querer fazer uma grilagem na terra em que nasceu? Isso, qualquer cabeça sã não aceita, é impossível que venha a ser acusado de perseguir ribeirinhos ou índios. Só uma montagem feita pelo procurador da República do Pará, chamado Felício Ponte, que há dez anos não faz outra coisa a não ser perseguir a nossa empresa. Esse Felício Ponte se julga um vice-rei da Amazônia. Vou entrar com representação contra ele na Procuradoria da República e, também, vou processá-lo. Não é possível que um país como o Brasil, em plena democracia, tenha medo ou do partido dominante ou da promotoria pública. Eu não tenho.


Então, vamos esclarecer de uma vez por todas, doutor Cecílio. Quando, como e por que o senhor adquiriu as terras no Pará?


Em dezembro de 1994, classificado em jornal de circulação nacional que anunciava a venda dessas terras no Pará. Interessei-me. Seria uma oportunidade de enfrentar um novo desafio. Fui ao então governador do Pará, Almir Gabriel, que fora senador junto com meu irmão Henrique. Queria informações sobre as terras, especialmente as anunciadas no jornal, que eram de propriedade da empresa Indústria, Comércio, Exportação e Navegação do Xingu Ltda. Incenxil. A resposta levou à conclusão de que o Instituto de Terras do Pará (Iterpa) não era organizado o suficiente para dar informações precisas. Fui, então, apresentado ao dono da Incenxil o senhor Umbelino de Oliveira, que havia mais de trinta anos explorava as terras de forma não predatória, com extrativismo de látex, castanha, tendo sido o maior produtor do Estado do Pará durante muito tempo. Mostrei meus planos a ele e ele me disse que venderia a empresa até mais barato, pelo fato de ser um projeto inovador, que não destruiria a floresta de onde ele tinha tirado seu sustento. A compra foi feita em Belém no dia 13 de junho de 1995.


Mas por que diabo o senhor comprou essas terras no Pará, porque estavam em oferta?


Não. Se você pegar o mapa, eu nasci em Óbidos, o meridiano que passa por Óbidos passa por essas terras. Essas terras são no Pará. Eu não ia fazer uma fundação. Eu ia fazer um instituto com o nome da minha mãe para desenvolver esse projeto ao longo de duas gerações. Meu sonho era buscar o que havia de melhor de seringueiras na Ásia, que foi roubado do Brasil em 1930, mais ou menos. Esse seringueiro que se fodeu, que mataram, o Chico Mendes, era um líder mesmo, viu? Eu ia abrir essas terras aos seringueiros, dando a eles o que há de melhor em matéria de sementes, mudas. Tendo funcionários da Embrapa e aqui do Paraná da Emater, aposentados, homens de mais de 50 anos de idade que quisessem aceitar esse desafio de mudar uma região e melhorar a vida desses seres humanos. Isso é o meu sonho. Há outros. Você sabe que o jacaré é um bicho muito valioso. Claro que você não pode matar o jacaré hoje. Mas o jacaré de criatório você pode. E é a coisa mais simples do mundo fazer um criatório de jacaré. A mesma coisa, a tartaruga fluvial. Pensava também em um sócio japonês para criatório de peixes amazônicos, peixes de 2 metros, 300 quilos, desviando com dutos a água do rio para a criação. Claro, eu preciso energia, preciso a tecnologia dos japoneses em matéria do empacotamento do peixe congelado. Vá somando essas coisas. Eu ouvi que foram presos na Amazônia uns franceses que chegaram de balão eles fizeram errado, coitados. Eles desciam na copa das árvores com uns sapatos parecidos com essas raquetes de tênis para colher microrganismos e roubavam, também, claro, toda uma sabedoria indígena de cura com ervas, Vem aí o biodiesel. E você tem o dendê, que dá muito bem lá.


Por quanto o senhor comprou essas terras?


Paguei o equivalente a 6 milhões de dólares. O tamanho da área que comprei é de 4 milhões, 772.000 hectares. Segundo o artigo 188 da Constituição, o senhor teria que ter uma autorização de compra pelo Congresso Nacional. Não tinha nada A propriedade é anterior à Constituição. Depois que existia essa propriedade é que vieram com esse papo. Mas e o direito adquirido, de antes? Teria que passar pelo Congresso Nacional? Isso apareceu numa Constituição, não sei se de 64 ou 88, e a propriedade é de antes. Pode perguntar para qualquer advogado, que não precisa passar pelo Congresso. Isso é uma besteira, é coisa de comunista burro. Daí, um débil mental chamado Paraguaçu Éleris, que era diretor do Iterpa, e o outro, o presidente, que era o Barata, vieram dizer que me avisaram. Mentira Eles não avisaram merda alguma E, mesmo que tivessem avisado, eu não ia acreditar nos débeis mentais. O Iterpa foi fundado em 1975, teve vinte anos para regularizar a parte fundiária do Estado. Faltava um mês para completar os vinte anos e eles não tinham feito absolutamente nada Então, por que é que eu iria perguntar ao Iterpa se podia possuir a área?. Simplesmente não fui. Oito meses depois que as terras eram minhas, procurei o Iterpa já com um pré-projeto para fazer uma parceria com o governo do Pará. Eu queria que o povo do Pará participasse também, via governo. Com a regra lógica de que o dono era eu. Eu não ia ficar subordinado a funcionário público.


Como seria a parceria?


Faria uma parceria, eles teriam 5 por cento. Porque, se eu tivesse o governo do Pará como parceria, eu teria poder de polícia via meu parceiro. Isso era importantíssimo, ter poder de polícia isso é meu. Uma vez feita a parceria com o governo do Pará, eu traria a Universidade do Maranhão, a Universidade do Pará, a Universidade do Amazonas, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Instituto Goeldi, que faz parte do governo do Pará. Aqueles armazéns no porto de Belém, que os ingleses fizeram, que subiu a areia e não existe mais o porto lá, esses armazéns pertenciam ao Ministério dos Transportes. Eu queria ficar com eles para fazer uma Escola de Ecologia. E mais tarde pretendia fazer um negócio de turismo para hotel. Abrir novos cursos. Pra ajudar. Entrava o governo do Pará. Foi aí que o Iterpa entrou com uma ação de anulação de nossa matrícula, esse Felício Pontes com o próprio Lamarão do Iterpa, que falou de mim e eu processei e está para ser preso ele que não fale mais um pio de mim, que ele vai ser preso, deixou de ser réu primário. Porque foi a maneira que encontrei de calar a boca desses filhos da puta. Tem também um merda de um jornalzinho de lá chamado jornal Pessoal. Esse eu também processei. Tá no bico pra ser preso. Ele já foi processado por um desembargador e foi condenado, então não é mais réu primário.


Legalmente, o senhor ainda não é dono da terra.


Besteira. Eu sou dono da terra. Estão grilando a minha terra. Mas eu estou na moita, não adianta brigar agora, não é hora. Você tem que esperar. Depois é que veio esse troço da matrícula, que esses filhos da puta agora querem anular dessa maneira, a mais cretina possível.


O que se alega para anular?


Não alega nada, eu posso dar a ação para você ver, é uma merda.


Como o senhor toma conta de uma área do tamanho da Bélgica?


Duas vezes a Bélgica. Já havia brigas na estrada BR-163. Invadiram. Eu sei como vou fazer no futuro. Não vou brigar com invasores, mas vou fazer parceria com os caras que estão na minha terra. Eu não vou brigar porque vou conseguir a expulsão deles da terra. Agora, não, mas no futuro.


O senhor está trabalhando na moita?


Estou quieto com relação às invasões. Mas é gente que está fazendo plantações. O cara não está derrubando madeira. Mas já teve gente lá para derrubar madeira. E esse é ladrão.


Como o senhor vai fazer com essa turma?


Ah, esse não entra, esse tem medo. Eu consegui expulsar o maior ladrão de madeira do Pará, ele agora vai derrubar madeira no Peru. Esse cara sumiu. Ele entrava com um grupo com trator, motosserra. Nós apreendíamos tudo.


Como?


Entrávamos em juízo, o juiz determinava que o secretário de Segurança providenciasse para que a Polícia Militar e a Polícia Civil fossem ao local para a apreensão, levassem fiscais do Ibama, que só eles têm poder sobre crime ambiental. Só que os caras do Ibama são mancomunados com os madeireiros, e os caras do Ibama ficavam putos mas iam, era uma ordem judicial. Ah, mas precisa de avião Eu punha avião. Daí tiravam os caras de lá e a madeira que eles cortavam ficava lá. Eu consegui deixar a madeira num fiel depositário lá em Altamira. Daí, um ministro da época, do Meio Ambiente, chamado José Carlos Carvalho, fez um farol, desceu lá vestido de Rambo, com exército, para apreender a madeira que eu havia apreendido, e doou para uma ONG. Foi um chucho.


O que é chucho?


Chucho é marmelada, sacanagem.


Como a área do senhor é muito grande, como sabe exatamente onde eles vão atacar?


Nós temos guias. Se vierem de barco, em geral vêm de barco.…O rio Curuá se junta ao Iriri numa ponta que é a Entre Rios, que é como se chama esse lugar onde tem pista de pouso, tem casas, tem gente nossa, tem rádio para comunicar Altamira, Altamira comunica Belém para, em seguida, desencadear a ação. Então, nós compramos ali 4 milhões e 772.000 hectares e compramos mais uma posse de não sei quantos anos de uma família chamada Moura, de 1 milhão e 200.000 hectares. São, então, duas áreas: uma é a fazenda Curuá e a outra, que era da família Moura, fazenda Xingu.


Mas a acusação é de que a compra da Curuá foi registrada num cartório cuja funcionária teria sido processada por corrupção ou coisa do gênero.


Não foi. Tem ainda um processo. Não conseguiram comprovar. Ela está lá. Ela é de Altamira. É uma mulher que sofre de elefantíase, as pernas deste tamanho, tem dezesseis filhos adotivos, tem filhos formados, e é de uma bondade incomensurável. Dona Eugênia. Essa mulher é que querem pintar disso e eu pus advogados para defendê-la.


Não seria nenhuma troca de favor entre o senhor e ela?


Não, porque esses documentos foram feitos lá por 1984. Eu comprei a empresa que era a dona da matrícula, não tem nada a ver com dona Eugênia.


E esses 1,2 milhão de hectares?


Isso é fora, é uma outra área no rio Xingu, eu te mostro no mapa.


Se existe um vice-rei no Pará, o rei seria o senhor?


É a primeira vez que ouço isso. Isso foi inventado por você.


Rei do Pará, rei da Amazônia?


Nunca vi isso escrito em jornal, em revista. O que existia é que eu tinha uma terra tão grande que se chamava Ceciliolândia foi coisa desse filha da puta do Roberto Guita.


Por que o senhor sempre surge na imprensa como a pessoa que é o maior grileiro do mundo?


Tudo iniciou com o Roberto Civita. Eu estava entrando num novo negócio no Brasil, que é transmissão de dados de bancos, de grandes companhias. Aí, eu aluguei seis transponders, que servem para captar e enviar mensagens via satélite. O aluguel era de 23 milhões e 900.000 dólares por ano, quase 2 milhões de dólares por mês. E ele me atacou, pensando que eu ia entrar em televisão a cabo.


Como o senhor sabe que foi isso?


Ah, como é que eu sei? Claro que eu sei. Eu consigo saber as coisas. Ontem, nós não estávamos na CPMI e eu já sabia dessa nova ação contra as minhas terras? Como é que esse palhaço desse relator do PT (deputado João Alfredo, PT-CE), ele foi filho da puta, começou a me irritar. Por que eu engrossei com ele? Não aceitei fatos em jornais. Porque isso é prato requentado. São notícias requentadas. Você põe uma em cima da outra e são todas iguais, em todos os jornais, em todas as revistas.


Toda vez que o filho da puta do Felício Pontes quer alguma coisa, o Carlos Mendes, redator de O Liberal, aperta um botão e nós temos no Brasil inteiro essas notícias. São essas pessoas. E um outro jornalista, um cretino que eu mandei para lá e ficou com raiva do nosso grupo. Agora, como eu posso chamar um cara que trabalhou comigo e, depois, para ganhar 150.000 dólares que vai ser pedida a quebra do sigilo bancário dele e ele, ó, vai para o espaço.


Quem é?


É o Tarcísio Feitosa, um merda que trabalha na Comissão Pastoral da Terra, um caboclinho, que agora está bonito lá, de caminhonete. Acho que também é do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e de outra merda lá.


Como grande proprietário rural, o que o senhor acha do MST e da UDR e como vê o futuro no campo?


Isso não é problema meu, é problema do Lula. Mas você acha que esse monte de menos favorecidos, analfabetos têm capacidade de fazer uma agricultura? Capacidade para criar umas galinhas, um porco, isso eles têm. É só ver a fazenda que o governo comprou, a fazenda Itamarati, do Olacyr de Moraes, ficaram com a metade. Eles roubavam os equipamentos da fazenda. E se foderam lá. Totalmente. E ainda queriam a outra metade do Olacyr!


Isso é negócio do Pedro Stedile, do Rainha, de tirar dinheiro de miserável. Quem tinha razão nisso era aquele coronel Neves (Neves está preso em Curitiba, acusado de tráfico de armas e formação de milícias para a UDR). Não sou favorável à tortura, à violência, acho um absurdo um sujeito entrar numa casa essa história é complicada porque o MST invadiu, mas tudo bem com criança, com mulher de camisola, seminua, como se pode fazer uma coisa dessa? Acho isso uma coisa brutal. Se ele realmente fez isso, eu quero que ele se foda. Agora, o contrário também é verdadeiro. Por que esse merda desse Rainha tem direito de entrar na propriedade alheia, do sujeito que comprou, pagou? Claro que tem que se formar uma reação, que é a UDR. Claro. E eu até acho a UDR muito frouxa. Se eu fosse ruralista, essa merda não estaria assim.


Estaria como?


Ah, estaria resolvido. O Roberto Requião fazia os sem-teto entrar nas minhas propriedades, cercava lá com tratores, arrebentava a luz e entrava na minha propriedade. Arrebentava a luz, arrebentava a água, fazia um fosso em torno das casas. Eu tinha centenas ou milhares de casas aqui em Curitiba. Vendi tudo.


Mas como o senhor acha que poderia ser resolvido o conflito?


Só na força. Não tem outra maneira: só na força! A propriedade é minha, não entra (exaltado, dá um tapa no vidro da mesa).


Entra algum vagabundo na sua casa?


O pior é que de vez em quando entra.


E o que você faz?


Vou para o banheiro onde eles colocam a mim e a minha família, enquanto rapelam a casa.


Chama a polícia…?


Chamo a polícia.

No meu caso eu tenho granadas. Tenho aqui em Curitiba e tenho em Morretes. Granadas.


Como o senhor agiria no meu caso?


Eu faria exatamente como você fez. Se eu estivesse com minha família, meus filhos pequenos, eu tirava meu relógio, tome o relógio, só não quero que façam nada com a minha mulher. O melhor banheiro que tenho para vocês me prenderem é aquele, tome a chave, me prendam lá. Você não foi covarde, foi inteligente. Deve ter sido preto esse filho da puta que entrou, né?


Não. Um mulato e dois brancos.


Brancos… deviam estar cheirados. Muito bem. Eu tenho uma propriedade, uma fazenda, vamos dizer, porque eu vi um palhaço do Paraná. Porra, com uma indústria lá dentro, o melhor em matéria de plantei, de gado. Você acha que eu vou deixar vagabundo entrar e fazer churrasco com o meu gado?…Milícias? Não. Eu faria treinamento para os meus operários, com calibre 12. Treinava os meus funcionários a se defenderem. Que direito tem esse filho da puta, esse maluco do Pedro Stedile? Ele não quer a reforma agrária, ele quer a revolução. Ele quer alcançar o poder, esse idiota. Você acha que isso é uma coisa de coitadinho? Faça um somatório de tudo o que produziram todos esses assentamentos: uma merda.
Há assentamentos que são exemplo de reforma agrária, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Mas veja, esse ponto de vista é o inverso. Hoje, quantos assentamentos deram certo? Quantos? Cinco, seis. Por que eles não imitaram esses cinco, seis, para os outros? Hoje, o sem-terra é dono de botequim, é dono de loja, tem automóvel. É isso que está havendo: muita corrupção. Venda de lotes já pegaram mil vezes. Mas como o pessoal do MST é rico, e só tem comuna no INCRA, que acha que tem que tirar dos ricos para dar para os pobres.…Os caras estão brincando. Eu defenderia a minha terra.


Para defender suas terras lá no Pará, o senhor precisaria de um pelotão?


Não, não, uns trinta homens armados com rifles da policia.


Para cuidar da Bélgica inteira?


Não, da Bélgica inteira, não, dos focos. Prendia os tratores, prendia o equipamento. Algemas, mandava sacos de algemas.


Com polícia particular?


Eu, não, quem faria isso seria a polícia, o Estado.


Porque o senhor tem facilidade de chamar?


Não, eu não tenho a facilidade. É uma ordem judicial, porra.


Um momento, acho que estou me expressando mal, desculpe. Quero dizer o seguinte: o senhor tem uma área de terra do tamanho de duas Bélgicas, como o senhor falou. O senhor tem tantas entradas nessa fronteira


Agora, nessa nova terra, na fazenda Xingu, esse Bida, que matou a freira americana, já tinha desmatado 6.000 hectares. Depois desse assassinato ele voltou lá, se escondeu lá.


Nas suas terras?


Não, lá perto. Nessa CPMI eu fui chamado por causa de um artigo do Carlos Mendes. Dizia: ah, prendemos, despejamos agricultores, pequenos posseiros, coitadinhos. Não! Pegamos posseiros, porra, tinham devastado 6.000 hectares de floresta para plantar sementes para boi, para capim (pega o mapa). Essa é uma área, a de 4 milhões e 772.000, e essa é a do Xingu (de 1,2 milhão de hectares). Foi por aqui, assim, que eles, eles querem formar tudo isso aqui como parque roubando a mim.


O senhor acha que um dia suas terras podem voltar a ser da União?


Paguem, ora. Eu ia procurar receber o valor potencial, que eu venho com isso há dez anos. Não é só a terra em si, é o valor que está acima da terra.


Mas normalmente a desapropriação é feita.


Não, você está enganado. Isso é só pra bobo.


Como seria feito então?


Em alguns casos têm que pagar o que está acima da terra, em matéria de vegetação. E pra quê o governo federal vai gastar dinheiro? Por que ele não deixa o particular fazendo o novo plano? Porque é um monte de comuna burro, que acha que só o governo.…Não, esses putos querem, como tem o negócio do ouro, do índio e dos diamantes, eles querem se refestelar no roubo, na corrupção, na sacanagem. O Ibama, o INCRA e a Funai. Estão criando terreiros para eles.


O senhor ataca todos os órgãos federais.


Não, eu ataco as pessoas, algumas pessoas desses órgãos federais. E do Estado do Pará, esses idiotas do Iterpa que não fazem nada, só estão comendo.


Como o senhor vê a questão indígena?


Nas minhas terras restam 120 e poucos, entre curuás, xipaias. O chefe da tribo xipaia, que não tinha tribo nem porra nenhuma, Manuel Xipaia, tem RG do Piauí. Ele nasceu na cidade. Fez grupo escolar na cidade onde nasceu. E lá no Pará ele se pinta: Manuel Xipaia, chefe da tribo. Levou até alguns vagabundos de Altamira para lá, pôs lá, não tem nada a ver com índio. Daí apareceu uma puta, só pode ser uma puta, de uma antropóloga comunista, querendo tirar 300.000 hectares para oito, doze pessoas. Quer dizer, é um absurdo você ser tapeado pelo Manuel Xipaia! Se eles fizerem uma lei, eu não posso fazer nada. Eu vou ser desapropriado, vou receber uma gaita e não posso fazer absolutamente nada. Mas nas coxas? Porque tem que ter uma regra de antropologia, o cemitério, não sei o que. Mas os caras não fazem nada disso.


E o que o senhor acha do programa Arpa (Áreas Protegidas da Amazônia) e como as ONGs atuam lá na sua região?


O projeto Arpa é capitaneado pela multinacional WWF, com dinheiro do Banco Mundial, da norte-americana Moore Foundation, do Banco de Cooperação da Amazônia e uma contrapartida do Ministério do Meio Ambiente. Ele pretende criar unidades de conservação na Amazônia. Para isso, desenvolve um lobby no Ministério do Meio Ambiente e no Ibama e conta com o aval de entidades como o ISA (Instituto Socioambiental da Amazônia) e outras ONGs nacionais menos conhecidas, que vivem da doação de recursos públicos. No fundo, eles querem fazer o governo brasileiro aceitar 240 milhões de dólares em doações, a serem feitas até 2012, sob a condição de criar as unidades, engessando 500.000 quilômetros quadrados da floresta amazônica e retirando da sociedade brasileira o direito de decidir qual a melhor forma de ocupar e explorar esse território, Os processos no Ibama para a criação dessas unidades de conservação não têm critérios técnicos, não levam em conta a realidade local, sem consultas públicas e debate amplo. Alguns técnicos e representantes de ONGs internacionais se reúnem lá em Brasília se debruçam sobre mapas e imagens de satélite e desenham as áreas a serem protegidas. Depois usam entidades como a Comissão Pastoral da Terra e associações de trabalhadores rurais como massa de manobra para tentar demonstrar que, para coibir a ocupação de terras públicas e atos de violência contra os moradores tradicionais, devem ser criadas unidades de conservação e reservas extrativistas. Mal sabem que áreas indígenas e florestas nacionais têm sido palco da devastação sob a falsa e tíbia proteção da Funai e do Ibama. São essas entidades que financiam e fomentam a criação e expansão de terras indígenas, que se unem às áreas de conservação, formando um imenso território contínuo. No futuro, com apoio internacional, terão condições de promover a autonomia desse território. Não sou contra reservas indígenas, áreas de conservação. Mas questiono os critérios empregados irracionais e antinacionais. Recentemente, saiu na imprensa, o senhor Paschoal Lamy, presidente da Organização Mundial do Comércio, propôs a internacionalização da gestão dos recursos naturais que pertencem aos brasileiros, tratando o nosso território como bem público mundial. Agora, foi nomeado presidente do Banco Mundial o senhor Paul Wolfowitz, um dos falcões do presidente Bush e mentor da guerra do Iraque sob falsa alegação de que aquele país estaria desenvolvendo armas de destruição em massa. Wolfowitz será o responsável pela cobrança dos resultados dos programas que o Banco Mundial financia, e nosso governo, por ter se comprometido com o programa Arpa, estará sujeito à tutela internacional de nossos recursos naturais. Então, nós somos o ladrão de carteira.


O senhor?


Eu não, essas merdas dessas ONGs brasileiras. São ladrões de carteira, punguistas, como é?, trombadinhas. Essas ONGs são trombadinhas. Essas que deram a madeira. Tiraram um dinheirinho, 150.000 dólares para o Tarcísio comprar uma caminhonete bonita. Fizeram tudo, menos proteger o menos favorecido. O menos favorecido são eles mesmos. Essas ONGs, ONG da água! Isso aí é tudo negócio e têm vergonha de falar. Aqui no Paraná quiseram me fazer de vítima de uma ONG de um chileno vagabundo acho que é da Amigos da Água, coisa assim junto com um advogado polonês, um puto, vagabundo, Antonieck, coisa assim. Por que uma ONG querendo entrar na minha propriedade, que é um negócio lindo pra caralho, com portão, com guarda, não entra. Eu sou da ONG.”Não entra, dá o fora, não deixamos entrar vagabundo aqui na propriedade, dá o fora! Esse pedaço meu é pequeno. Tem 1.000 metros por 800 e pouco num parque estadual, que faz parte de um parque nacional na Mata Atlântica. E isso foi o governador Álvaro Dias, ele fez isso. A Mata Atlântica no Paraná é altamente conservada. Mas o meu lote estava fora porque tinha sido serraria naquele local, há 120 anos atrás, e depois foi para criar boi. E eu comprei da família. E esses palhaços não entendem nada de nada. Do outro lado do rio, mais para a frente, tinha umas casas que em 1920 tinham sido construídas e hoje estão num bagaço. Eu entrei na prefeitura para restaurar as casas, fiz um negócio lindo numa das casas, a do meu encarregado, com madeira de pinho-de-riga, e esses palhaços queriam que eu desmanchasse a casa. Mas caíram na cagada de querer explorar 160 proprietários pobres, caras que têm seu lugarzinho lá com três mesinhas pra comer seu churrasco. Na hora que eu vi que estava com mais 159 palhaços, eu disse, porra, quero ser o último a desmanchar a casa lá. Acabou-se. Porque eles quiseram roubar demais. Pensei: ficar na mão de gente assim? Eu ia mandar queimar a casa desse filho da puta. Desse, eu ia mandar queimar a casa, do chileno.


Mas o senhor ia mandar queimar?


Sem gente dentro. Lógico, porra, que que há?


Pela ação deles, a sua reação seria essa?


Minha reação seria essa. Eu fiz chegar no ouvido dele. Que ele se cuidasse. Porque eu não ia engolir merda nenhuma de um chileno filho da puta e podre como ele. O nome dele eu não lembro. É Amigos da Água, aqui do Paraná. Então, a forma de reagir é essa.


Estamos no fim.…Mais duas perguntinhas. Analise o governo Lula.


Eu só posso analisar da seguinte maneira. Minha mulher votou no Lula e eu também. Interessante foi o seguinte. Eu votei aqui no Paraná, ela foi para São Paulo, votou no Lula, tomou um avião para os Estados Unidos. A filha dela estava estudando lá. Ela tem 52 anos. Infelizmente não tenho nenhum filho com ela, devia ter, o filho nós perdemos, eu queria, tenho certeza que seria formidável ter um filho com ela. Bem, eu vim para casa, estava em casa e pedi para botarem frutas, queijinho, bolacha, pus assim no lado da minha cama. E 5 e pouco da tarde ia aparecer o Lula, ele já ganhou, eu quero ver esse homem, conhecer a alma desse homem. Gravei tudo em videocassete. E notei uma coisa interessantíssima, a de que ele era um companheiro fora do comum. Que ele tinha uma vontade doentia de fazer bem para o Brasil. Que ele falava como coração. Que ele respeitava a mulher dele. Você já notou como ele respeita aquela mulher? Não que ela mande nele, não. É o respeito do macho, que ela é agradável, mãe dos filhos dele. Fez promessas, achei meio difícil ele cumprir tudo aquilo que ele disse que ia fazer. Mas só esse milagre de ele levantar nossas exportações de 63 bilhões de dólares para 118 bilhões!
Agora, tem erros incomensuráveis por causa dessa merda desse partido dele. A Marina Silva foi uma péssima escolha. Pegou uma indiazinha totalmente analfabeta e doente. E essa merda de governador que perdeu o governo do Rio Grande do Sul, um bicha, que é veado, o Olívio Dutra. Tem coisa mais ridícula do que aquele José Graziano, um que era da Fome, um barbudinho, nervoso, perdeu até o cheque que aquela nossa modelo deu para ele, de 50.000 reais, Gisele Bündchen.
Pôr o Rosseto no Incra? Um comuna! Na Embrapa também cometeu esse erro. A Embrapa é um organismo fantástico, que atravessou governos. Ele mudou regras para botar uns caras do PT.


E os acertos, além das exportações?


Economia grau dez. Agricultura grau dez. Porque o que ele tem protegido o agrobusiness no Brasil é uma coisa fantástica. Graças a isso, o Brasil está exportando o que está exportando. Criação de empregos por causa do tipo da política do Ministério da Fazenda, comandado com mão de ferro pelo Palocci. Veja o progresso que nós estamos tendo. Milhões de empregos que o Lula já criou, e todo mundo debochava do Lula. Milhões de carteiras assinadas. A indústria crescendo, a exportação de automóveis no Paraná, em São Paulo, só não cresceu no Rio Grande do Sul porque esse animal bigodudo do Olívio Dutra não permitiu, que é o maior crime que se podia fazer contra o povo do Rio Grande do Sul.


Para terminar, o senhor já apareceu entre os cem homens mais ricos do planeta, segundo a revista Porões. Como o senhor vê a pobreza no país?


Eu vou fazer a pergunta ao contrário: você quer que eu divida o meu?


Cria algum constrangimento a sua riqueza diante de tanta pobreza?


Nenhum. Nenhum. Zero. Eu só não passei fome. Vivi na merda total anos e anos. Trabalhava das 6 da tarde à 1 da madrugada. Estudava com atestado de pobreza. Não tinha roupa boa para sair. E não precisei invadir nada nem chorar pitanga pra ninguém. Lutei para conseguir o que consegui. Claro que sou um favorecido de Deus por ter esse tamanho, a força que tenho, sou eugenicamente são graças aos meus pais. Não tenho pena nenhuma. Nenhuma. É zero a pena que eu tenho. Agora, se um homem entra no meu trabalho e for vesgo, eu mando consertar”seus olhos. Se tiver lábio leporino, eu mando arrumar. Se tiver o nariz arrebentado, eu mando restaurar o nariz no melhor restaurador de nariz que tenha. Seja quem for, do primeiro ao último escalão. O operário que trabalhou na minha casa aqui em Curitiba, que quebraram o nariz dele, fala português errado, vai ser nomeado chefe lá de Morretes para morar nessa casa linda que eu te falei. Ele estava cuidando dos cavalos. Então, todos têm a oportunidade de crescer. Qualquer coisa que um filho da puta de um chefe faça mal a um subordinado, eu ponho o chefe na rua. Agora, por que é que eu vou ter dó de vagabundo na rua? Por que o filho da puta foi ter seis filhos? Por que não fodeu de camisinha, com a tabela ou não gozou fora? Que culpa eu tenho disso? Gerações de seis, oito filhos, vivendo nessa merda que nós vivemos. De 1970 para cá aumentaram 90 milhões de brasileiros, por causa dessa merda da Igreja Católica que eu faço parte. Por que isso? Não se pode ter filhos à bangu, sem controle.


O senhor é pelo controle da natalidade?


É lógico. Planejamento familiar. Eu sei que passo por grosso. Eu penso assim. Não tenho o menor constrangimento. Zero. Nada.


É lógico. Planejamento familiar. Eu sei que passo por grosso. Eu penso assim. Não tenho o menor constrangimento. Zero. Nada.


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"Dom Ciccillo" e o fim do mundo

Tudo indica que isso que estamos vivendo não é a realidade
ELIANE BRUM

eliane

Quando o sol nasceu com a indiferença de sempre em 22 de dezembro, perguntei a um insistente apocalíptico das minhas relações como ele explicava que o mundo não havia acabado, tal qual ele havia repetido durante o ano inteiro como um mantra. Ele me desferiu um olhar de pena e respondeu, altivo: "E você achou que o mundo acabaria em fogo e fumaça"?


Achei a resposta um tanto 171, mas os primeiros meses deste ano começam a me assombrar. E se ele tinha razão, o mundo acabou, e eu agora me encontro numa espécie de realidade paralela? O primeiro sinal apareceu dias depois do apocalipse que parecia não ter acontecido, quando José Sarney (PMDB) defendeu, numa entrevista publicada na Folha de S. Paulo de 31 de dezembro, que ex-presidente deveria ser proibido de disputar eleição. "Acho que deveríamos ter uma legislação que não permitisse a nenhum ex-presidente da República, deixando o governo, que voltasse a qualquer cargo eletivo", afirmou o homem que chegou à Câmara dos Deputados em 1955. Depois de deixar a presidência da República, em 1990, foram três mandatos como senador e mais de duas décadas ininterruptas no Congresso. Agora, em vias de aposentamento, defendia que para os outros deveria ser proibido. Estranho, muito estranho, desconfiei. O ano virou, e a realidade continuou ainda mais fantástica do que o habitual. Fantástica demais para ser confiável.


Uma série de acontecimentos tem me feito duvidar da realidade. E, na quarta-feira da semana passada, 13 de março, simplesmente parei de acreditar. Nesta data, a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei 6167, de 2009, batizando de "Rodovia Cecílio do Rego Almeida" o trecho da BR-277 localizado entre as cidades de Paranaguá e Curitiba, um dos principais da região sul do país. Ao ler a notícia, puxei da memória: "Cecílio do Rego Almeida, conhecido desde a ditadura militar como 'Dom Ciccillo'? Aquele que foi chamado pela imprensa de 'o maior grileiro do mundo'"? Não, claro que não.


Procurei o nome do autor do projeto: deputado André Vargas, atual vice-presidente da Câmara. Não, tive certeza que não. Como um deputado do PT, partido apoiado por boa parte dos movimentos sociais da Amazônia (hoje com bem menos afinco que na década passada), faria uma homenagem póstuma ao homem acusado de grilar uma área quase equivalente à soma dos territórios da Bélgica e da Holanda, na Terra do Meio, no Pará? Um reconhecimento público ao homem que se apossou de terras públicas, terras indígenas e até de assentamentos do Incra? Impossível, eu já concluía, quando vi no Twitter uma manifestação do deputado José Mentor, também do PT, anunciando, aparentemente com orgulho, que havia sido o relator do projeto, aprovado nessa última comissão.


Senti aquela vertigem cada vez mais familiar, sem saber se acreditava na lógica, que me dizia ser impossível, ou no que tentam me fazer acreditar que é a realidade. Entrei no site da Câmara e lá estava o projeto, aprovado em três comissões (a de Educação, a de Viação e Transportes e a CCJC). Fui conferir a justificativa do autor, deputado André Vargas: "A denominação que se pretende conferir ao trecho citado é uma justa homenagem ao Sr. Cecílio do Rego Almeida, empresário fundador e presidente do Conselho de Administração do Grupo CR Almeida, que reúne mais de 30 empresas e atua nas áreas de construção pesada, concessão de rodovias e logística de transporte, química e explosivos". E, ao final: "Seu trabalho foi perseverante em seu objetivo, e agora, após a sua morte (...), este benemérito cidadão poderá receber a merecida homenagem".


Me parecia evidente que eu estava sofrendo de alucinações. "Dom Ciccillo" seria homenageado por sua "perseverança"? Qual "perseverança"? Com certeza não a de se se apropriar de cerca de 6 milhões de hectares de floresta amazônica, num reino apelidado como "Ceciliolândia". Merecida homenagem a "Dom Ciccillo"? O mesmo homem que, numa entrevista à revista Caros Amigos, chamou Marina Silva, então ministra do Meio Ambiente, de "uma indiazinha totalmente analfabeta e doente"?


Assim como definiu o ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra como "um bicha, que é veado"? E se referiu a Chico Mendes como "esse seringueiro que se fodeu"? (Os leitores me perdoem a deselegância, mas as frases são do homenageado e, portanto, se justificam no contexto.) Na mesma entrevista, de 2005, "Dom Ciccillo" assim se refere à ditadura militar, que muitas grandes obras concedeu à sua empreiteira – e também ao partido do autor do projeto de lei, que agora faz a ele uma homenagem póstuma: "Entendo que foi uma ditadura, mas a mais leve das ditaduras. Hoje existe uma ditadura no PT mais forte que a dos militares".


Não é óbvio, evidente, claríssimo que o projeto de lei não é real? Eu estou com a página da Câmara aberta diante de mim, mas só pode ser uma conspiração. A página verdadeira deve ter sido substituída por esta, falsa. Não acreditei nem por um minuto. "Dom Ciccillo", homenageado pelos serviços prestados ao Brasil? Fiquei imaginando a cara de Raimundo Belmiro e muitos outros da Terra do Meio, que testemunharam a atuação de "Dom Ciccillo" na Amazônia, ao tomar conhecimento de que essa piada circulava no país como coisa séria. Quem seria o néscio que acreditaria numa coisa dessas? Eu é que não. E acreditei ainda menos quando li na Gazeta do Povo, do Paraná, que, por coincidência, a rodovia batizada com o nome de "Dom Ciccillo" é a mesma em que uma das empresas da CR Almeida administra o pedágio. Não, é claro que isso não está acontecendo.


Já não tinha acreditado no que me garantiam ser a realidade quando o Incra destinou um lote de terra à mulher do homem que será julgado pelo assassinato de José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo. Para quem não lembra, os dois líderes extrativistas foram mortos numa tocaia, em maio de 2011, em Nova Ipixuna, no Pará. Tiveram pulmões e corações perfurados, e uma orelha de José Cláudio foi arrancada para comprovar a execução. O julgamento de José Rodrigues Moreira, acusado como mandante, e dos dois supostos executores do crime está marcado para 3 de abril. Mas no início de março foi divulgado que o Incra havia concedido um lote de terra à mulher de Moreira, a mesma área da qual ele tentou expulsar três famílias e só não conseguiu por causa da resistência de José Cláudio e Maria. Em resumo: o homem acusado de ordenar um duplo homicídio ganhou do Estado a concessão da terra que motivou o conflito. Uma espécie de prêmio.


Alguém acredita que o Incra cometeria uma barbaridade dessas? Eu nunca acreditei. E, como já não acreditava, também não levei a sério quando o Incra afirmou ao Ministério Público Federal que a concessão do lote foi um "equívoco" – e que a área seria retomada pela via jurídica.


Minha resistência em acreditar numa realidade que parece ficção de quinta categoria já havia sido testada antes, quando o deputado Marco Feliciano (PSC), pastor evangélico de sua própria igreja, a "Catedral do Avivamento", se tornou presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Marco Feliciano? Eu só conhecia um. Este, entre outros barbarismos, havia afirmado o seguinte: "Os africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé". E ainda diria: "O reto não foi feito para ser penetrado". Logo, não poderia ser este Marco Feliciano o presidente de uma comissão destinada a zelar pelos direitos de, entre outras minorias, negros e homossexuais. Portanto, é óbvio que eu não podia acreditar. E não acreditei.


Se fosse do tipo crédulo, como tantos por aí, eu acreditaria não só que o deputado Marco Feliciano é presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, mas também que o senador Blairo Maggi (PR), ruralista que chegou a ganhar o "Motosserra de Ouro", troféu do Greenpeace destinado a quem mais colabora com a devastação, é o presidente da Comissão de Meio Ambiente do Senado. Teria de acreditar inclusive que o deputado João Magalhães (PMDB), que responde a três inquéritos no STF (peculato, tráfico de influência e crime contra o sistema financeiro), é o presidente da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara. E teria de acreditar até mesmo que Renan Calheiros (PMDB), que em 2007 renunciou à presidência do Senado por suspeita de corrupção, é hoje de novo o presidente do Senado.


Quem acredita nisso? Eu não.


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Conheça os efeitos da internet na cognição humana segundo especialistas

Giordano Tronco, para o TechTudo


O modo como lidamos com a informação na Internet e com a possibilidade de acesso rápido a diversos conteúdos influencia o modo do homem pensar. Mais do que isso, muda o nosso funcionamento biológico padrão. Seguindo o curso natural da evolução, nossos cérebros estão nos preparando para funcionarmos como ciborgues.


Não é papo de ficção científica: as mudanças que a tecnologia causa no funcionamento da mente e do corpo humano são estudadas a sério por pesquisadores de áreas como antropologia e psiquiatria. Alguns acham que a Internet nos faz pensar mais rápido e de modo não-linear; outros, mais pessimistas, dizem que a tecnologia está nos tornando viciados em estímulos e incapazes de processar grandes blocos de informação, e recomendam mais calma.

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Conectividade com Internet influencia modo de pensar do homem (Foto: Reprodução)


Leitura está mais rápida, mas menos profunda


Há uma boa chance de que você não passe muitos minutos nesta página. A maior parte das pessoas utiliza como padrão de leitura na Internet o "scanning" – ato de passar os olhos pelo texto em busca de palavras-chave interessantes – e não a leitura linear, como habitualmente fazemos com livros e revistas. Antes um macete para ler textos longos em pouco tempo, o scanning agora é prática corriqueira para várias pessoas, tanto online quanto offline. Acostumamo-nos a "escanear" qualquer texto por conta da overdose de informações a que somos expostos na Internet. Quem nunca se pegou com dezenas de abas do navegador abertas ao mesmo tempo, cada uma com um conteúdo diferente?


O escritor Nicholas Carr, conselheiro editorial da Enciclopédia Britânica e autor de A Geração Superficial, livro que estuda os impactos da Internet no comportamento humano, diz que estamos nos programando biologicamente para esse novo jeito de consumir conteúdo. Baseado em pesquisas científicas que comprovam a plasticidade do cérebro em idade adulta, Carr defende que a Internet altera o nosso modo de pensar, de aprender e até de lembrar. "À medida que passamos mais tempo navegando, muitos de nós estão desenvolvendo circuitos neurais feitos para aumentos repentinos de atenção direcionada", diz o especialista, na obra.


Estamos mais ágeis, mas também absorvemos menos profundamente o que aprendemos. Se por um lado conseguimos fazer o nosso foco de atenção pular facilmente entre vários assuntos, por outro perdemos a capacidade de ler grandes textos. Carr conta sobre um entrevistado que diz ter perdido a capacidade de leitura linear, o que tornava a leitura de livros – ou mesmo publicações de blogs com mais de quatro parágrafos – um sacrifício.


O próprio Carr explica como seu cérebro passou a operar: "Independentemente de eu estar online ou não, minha mente agora busca absorver informação do mesmo modo que a internet a distribui: num fluxo veloz de partículas."


Em oposição ao scanning, um grupo de acadêmicos e intelectuais ingleses criou o movimento slow reading (literalmente "leitura lenta"), que prega uma leitura mais atenta dos textos impressos, deixando de lado a informação adquirida na internet. É algo interessante na teoria, mas, nos dias de hoje, bem difícil de ser posto em prática.


Eu, ciborgue?

smartphoneQual a definição de um ciborgue? Um robô humanoide, uma mistura de ser humano com androide? Para a antropóloga Amber Case, somos todos ciborgues, e nossa parte robótica não está num braço mecânico ou numa visão infravermelha, mas sim nos nossos celulares.


Os smartphones funcionam como uma extensão da memória: dentro deles, guardamos contatos de amigos e a agenda com os nossos compromissos, além de termos acesso instantâneo a boa parte do conhecimento humano com um aparelho com boa conexão à Internet. A inteligência potencial de uma pessoa com um smartphone é diferente da inteligência da mesma pessoa sem ele. Não é exagero comparar a perda de um celular com a perda de uma parte do cérebro para a autora.


Os smartphones nos dão ainda outro superpoder: a capacidade de dobrar tempo e espaço e entrar em contato com qualquer pessoa a qualquer momento. É possível ligar para um amigo a qualquer instante. Se ele não atender, é possível deixar uma mensagem ou um recado na sua página do Facebook. "Não é que estejamos conectados a todo mundo o tempo todo, mas podemos nos conectar com qualquer um a qualquer momento", explica Case em uma palestra disponível no site TED.


Um smartphone cria facilidades incríveis, mas também situações desconfortáveis: ao carregá-lo no bolso você está levando consigo uma sala repleta de amigos, parentes, colegas e eventuais chatos que você não gostaria de conviver, mas que têm acesso a você a qualquer hora. Com tantos estímulos permanentes é difícil parar, relaxar e refletir.


A perda da capacidade de autorreflexão das pessoas é uma das principais preocupações da antropóloga: "elas não desaceleram, não param, já que estão sempre rodeadas por estas pessoas na sala competindo pela sua atenção".


Vício em Internet


A Internet pode ativar em algumas pessoas as mesmas áreas do cérebro que certas drogas. O Facebook, por exemplo, tem um grande potencial viciante: cada nova mensagem recebida tem o potencial de liberar substâncias no cérebro que causam prazer. Por isso tantas pessoas sentem urgência em acessar suas redes sociais a cada minuto.


Mas calma! Sentir prazer em navegar na Internet não faz de ninguém um viciado. Segundo o psiquiatra e coordenador do Grupo de Estudos sobre Adições Tecnológicas, Daniel Spritzer, a adição ocorre somente quando o comportamento causa prejuízo ao indivíduo.


O especialista lista os componentes que caracterizam o transtorno:
1) uso intenso da Internet, geralmente associado à perda da noção de tempo ou mesmo negligência de atividades importantes;
2) necessidade de utilizar a Internet por um número cada vez maior de horas;
3) abstinência, irritabilidade, tensão e até mesmo sintomas depressivos quando o acesso à rede não é possível
4) prejuízo em áreas importante da vida (acadêmico, profissional, social, familiar, financeiro ou legal).


Causa ou consequência?


Apesar de pesquisar o "lado negro" da tecnologia, Spritzer não considera o impacto da Internet na mente humana como invariavelmente negativo. "Acho importante pensar que a nossa memória não precisa funcionar do mesmo jeito ao longo dos tempos", opina.


O psiquiatra acredita que a velocidade e imediatismo da Internet são derivadas do modo de vida atual, e não o contrário. Em outras palavras, com ou sem a Internet o mundo nos forçaria a adquirir conteúdo o mais rápido possível: "Neste sentido, a tendência de ir atrás do conhecimento de uma maneira mais exploratória que profunda parece ser uma decorrência da quantidade cada vez maior de informações necessárias para a vida contemporânea."


Culpa da Internet ou da vida contemporânea, é inegável que nossos hábitos mudaram. Estamos muito mais seletivos com a informação que consumimos: chegar ao final de um texto longo pode representar um grande número de atividades que tiveram que ser postas de lado. Se a informação não parece interessante numa primeira análise, já a descartamos e seguimos para a próxima. Se você chegou até aqui, parabéns!


Estudo revela que vício de celular é contagioso

por Aline Ferreira, para o TechTudo


Pesquisadores da Universidade de Michigan fizeram um estudo com o objetivo de analisar os padrões comportamentais relacionados ao uso dos aparelhos celulares. Os cientistas observaram anonimamente grupos de estudantes e concluíram que as pessoas são mais propensas a usar o smartphone quando alguém a sua volta faz o mesmo.

estudoDurante o estudo, os pesquisadores analisaram os alunos durante um período de até 20 minutos e documentaram o uso dos celulares em intervalos de 10 segundos. Os resultados mostraram ainda que, durante o período em que foram observados, os estudantes passaram 24% do tempo utilizando o celular. Além disso, de todas as vezes que o aparelho foi usado, 39,5% destes momentos ocorreu após o usuário perceber que seu amigo o usou.


O pesquisador-chefe Daniel Kruger acredita que tal comportamento está relacionado à inclusão social. Segundo ele, se duas pessoas estiverem reunidas e, em determinado momento, uma decide verificar suas mensagens nas redes sociais, por exemplo, a outra pessoa se sentirá excluída e provavelmente procurará se conectar as suas redes sociais também.






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Os agricultores padecem por falta de conhecimentos úteis, enquanto os educadores "fecham os olhos" e "lavam as mãos"

Polan Lacki


Na América Latina existem louváveis exemplos de dedicação, mística e altruísmo de educadores com excelente desempenho, apesar dos seus baixos salários e das suas adversas condições de trabalho. A eles manifesto respeito, admiração e reconhecimento.


Está circulando no âmbito da educação e da agricultura uma proposta diferente em matéria de desenvolvimento agrícola e rural. Esta sugere substituir o Estado paternalista por um Estado educador, que ofereça aos produtores rurais uma educação tão emancipadora que eles simplesmente não necessitem do paternalismo governamental. A proposta parte das seguintes premissas:


1. Os agricultores com maiores dificuldades e problemas econômicos são coincidentemente os mais ineficientes, seja como produtores rurais, como administradores das suas propriedades, como compradores dos insumos ou como comercializadores das suas colheitas; e


2. Eles são ineficientes não necessariamente porque lhes faltem políticas agrícolas, créditos ou subsídios, grandes investimentos, tecnologias sofisticadas ou garantias oficiais de comercialização, mas sim porque eles não sabem desempenhar-se com a eficiência e o profissionalismo que requer a agricultura moderna e altamente competitiva do mundo globalizado.


Nos sites que respaldam a proposta http://www.polanlacki.com.br e http://www.polanlacki.com.br/agrobr


--está demonstrado que é exatamente nessa debilidade (na falta de novos conhecimentos, habilidades, atitudes e valores) onde reside a principal causa geradora dos problemas dos agricultores.
--está indicado que essa debilidade é conseqüência direta da má qualidade do nosso sistema de educação rural (escolas fundamentais rurais, faculdades de ciências agrárias, escolas agrotécnicas e serviços de extensão rural).
--estão identificadas e descritas as medidas, muitas delas simples e de baixo custo, que o referido sistema de educação rural poderia e deveria adotar para corrigir as suas inadequações e debilidades.
--está demonstrado que a adoção da maioria de tais medidas corretivas está ao alcance dos próprios diretores das escolas, professores e extensionistas; em muitos casos sem necessidade de contar com decisões políticas de alto nível ou com recursos adicionais àqueles que as instituições de educação já possuem. Em resumo, é uma proposta que, ao simplificar e viabilizar a solução dos problemas da educação rural, simplifica e viabiliza a solução dos problemas dos agricultores.


A educação rural deve ensinar aquilo que os seus "clientes" necessitam aprender


Apesar de todos os antecedentes descritos no parágrafo anterior, o mencionado sistema continua ignorando os malefícios que a má qualidade da educação está produzindo no desempenho dos agricultores e da agricultura; e está subestimando a necessidade de realizar uma urgente transformação curricular e pedagógica. As referidas instituições educativas continuam atuando como se não tivessem nada a ver com os danos que a inadequada educação está produzindo na vida dos habitantes rurais, como por exemplo: a baixíssima produtividade da mão-de-obra, a falta de rentabilidade na agricultura, o desemprego e o sub-emprego, a pobreza e o êxodo rural. Quando são requeridos a promover as mudanças necessárias, os educadores geralmente adotam posições defensivas, afirmando que não podem corrigir as ineficiências e debilidades, próprias e das suas respectivas instituições, porque faltam decisões políticas, alocações orçamentárias adicionais, melhores instalações, computadores com acesso à Internet, melhores salários, etc. No entanto, ao analisar tais justificativas, com objetividade e sem "emocionalismos", é fácil constatar que a falta dessas ajudas externas não necessariamente está impedindo que eles mesmos corrijam e melhorem aquilo que pode ser corrigido e melhorado sem receber apoios adicionais. Na América Latina, temos muitos exemplos nos quais os governos aumentaram as dotações orçamentárias e melhoraram os salários dos educadores, mas a qualidade da educação simplesmente não melhorou. Em muitos casos, o não atendimento a tais reivindicações é utilizado pelos sindicatos dos professores--sempre muito politizados e "ideologizados"-- como escusa para ocultar a sua falta de vontade e/ou de capacidade para corrigir e melhorar aquilo que pode ser corrigido e melhorado, mesmo sem receber ajudas externas.


Quem deve deflagrar o processo dessa educação emancipadora?


A iniciativa em prol de uma educação emancipadora deve ser externa ao sistema. Ela deve partir das pessoas que estão sofrendo e pagando as conseqüências das "disfuncionalidades" e inadequações do sistema de educação rural. Os próprios agricultores (e os demais integrantes das cadeias agroalimentares que também estão sendo severamente afetados pela má qualidade da educação rural) deverão organizar-se para PRESSIONAR e EXIGIR que o mencionado sistema seja adequado às suas necessidades; pois se não o fizer, as suas reivindicações simplesmente continuarão sendo ignoradas, tal como vem ocorrendo até o presente. Se os referidos afetados elaborarem uma clara e sólida fundamentação das suas demandas e reivindicarem a adoção de medidas que realmente estejam ao alcance dos próprios educadores, estes não terão argumentos nem motivos para deixar de atendê-las. Os protestos que historicamente os produtores rurais fizeram em frente ao Banco do Brasil, a partir de agora deverão fazê-los em frente às instituições de educação agrícola, formal e não formal, pois é lá que estão as causas dos seus problemas e, conseqüentemente, lá deverão ser formuladas as soluções correspondentes. Tais protestos deverão perdurar até que:


---os diretores e professores das faculdades de pedagogia e/ou educação reconheçam que a baixa qualidade da educação oferecida pelas escolas fundamentais rurais, e também pelas urbanas, se deve principalmente à inadequada formação dos professores delas egressos.
---os diretores e professores das faculdades de ciências agrárias e escolas agrotécnicas reconheçam que a principal causa do desemprego dos seus egressos e também do modesto impacto de mudança dos serviços de extensão rural é a inadequada e excessivamente teórica formação dos profissionais e técnicos que elas estão diplomando.
---os diretores e professores das escolas fundamentais rurais reconheçam que a repetência e a deserção/evasão escolar e também a pobreza imperante nas zonas rurais se devem, em boa medida, à inadequação e irrelevância de muitos dos seus conteúdos curriculares.
---os diretores e extensionistas dos serviços estatais de extensão rural reconheçam que a falta de rentabilidade na agricultura e a pobreza rural se devem, em boa medida, a que esses serviços--por debilidades técnicas, inadequações metodológicas e entraves burocráticos--não estão sendo capazes de difundir, rápida e massivamente, tecnologias de fácil adoção e de baixo custo, através das quais os próprios agricultores poderiam solucionar muitos dos seus problemas, sem necessidade de ajudas paternalistas.


No entanto, adotar a atitude de reconhecer essa "mea culpa" não é suficiente; os educadores devem reconhecer e atuar no sentido de corrigir e/ou eliminar aquelas muitas distorções que estão ao seu alcance. Em resumo, os diretores, os professores e os extensionistas devem abandonar a cômoda atitude de queixar-se, de apresentar justificativas pouco consistentes, de atribuir a culpa a terceiros e continuar esperando que os outros resolvam os principais problemas da educação rural; porque muitos desses problemas são gerados dentro das unidades educativas e, conseqüentemente, deverão ser solucionados dentro das mesmas, pelos próprios educadores e não necessariamente por agentes externos.


As medidas que os próprios educadores poderiam adotar para corrigir as inadequações do sistema de educação rural estão descritas nos textos alojados na seção "Artigos" do site http://www.polanlacki.com.br


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Golpes da internet


Diariamente minha caixa de e-mail recebe no mínimo três mensagens tipo SPAM. Nada mais é do que email programado para conseguir seus dados, principalmente os sigilosos que permitem a quem enviou ter acesso a sua conta bancária e outros dados que lhe coloquem em situação de vulnerabilidade. O objetivo é lhe roubar.


Apesar de toda experiência que podemos ter há sempre um mais sutil que nos pega desprevenido e basta clicarmos onde eles mandam que o programa executável já inicia a instalação em seu computador e em seguida a captura de dados particulares. Veja este da Vivo.

vivo

A curiosidade do receptor é a principal aliada dos bandidos internautas. Neste exemplo da Vivo se você observar o remetente é VIVO, entretanto se passar o mouse sobre a palavra VIVO, vai aparecer tsm@btu.flash.tv.br, não tem nada a ver com a Vivo. A armadilha está onde eles mandam clicar, no caso em www.vivofototorpedo.com/Torpedo-numero.99xx3458.JPG.


Em caso de bancos o preferido é o Itaú. Veja os exemplos a seguir:

itau itau itau itau itau

Para o caso do Itaú podemos verificar:
1 – Para o mesmo Banco, foram 5 (cinco) remetentes diferentes: chemetal@chemetall.com.br, ItauServices2011, itau.com@draculazin.ddns.us, seguranca@infomail.com.br, estoque.cabos@dimensional.com.br. O último é um absurdo: estoque.cabos – o que isto tem a ver com o Itaú?
2 –iToken é comum a maioria, isso quer dizer que os golpistas conhecem o sistema do Banco.
3 – A maioria apresenta a logomarca do Banco, entretanto alguns tem modelos diferentes, o que reforça a questão do primeiro item, 5 remetentes diferentes.
Este, ainda do Itaú, deu uma estudada em todos os tipos de contas, vejam:

itau itau

Uma das coisas a observar nesses e-mails de golpe são os termos usados. Neste caso temos o “recadastro” e “dessincronização”, termos que com certeza o banco não usaria.
Uma das armadilhas é quando você recebe mensagem do Banco onde tem conta. No afã de evitar qualquer transtorno você é levado a efetivar os procedimentos recomendados. Banco do Brasil e CEF estão constantemente avisando que não remetem e-mail para clientes. A caixa de email do Banco do Brasil é na sua própria conta, o mesmo se dá para a Caixa Econômica.
Avisos de cobrança também não faltam. Para quem tem débito na praça e enxerga primeiramente os 30% de desconto já se arrisca a clicar onde o golpista espera.

itau

A ACEB até existe, porém logo na sua página oficial aparece um aviso sobre emails falsos que circulam em seu nome.
Para quem está precisando de dinheiro os emails abaixo são uma armadilha e tanto.

itau itau

O próximo você se depara com uma compra que não fez e com um aviso de pagamento de apenas três dias e armadilhas para clicar em vários lugares.

mercado livre mercado livre

Para quem vai usar o cartão de crédito e recebe esse aviso é um risco grande clicar em atualizar dados. Uma observação é quanto o remetente “draculazin.ddns.us” é o mesmo do Banco Itaú. Lá é ITAÚ S.A itau.com@draculazin.ddns.us e aqui VISA visa.com.br@draculazin.ddns.us.

visa

Por Deus que não vou cair nessa armadilha, mesmo sendo do escritório de advocacia de Rafael “Pordeus” e única oportunidade.

escritorio de advocacia

Além destes, tem muito mais circulando por aí. É preciso ter cuidado e não cair nesses golpes, pois os transtornos são grandes além da possibilidade de deixar cada um de nós sem dinheiro na conta ou com o cartão de crédito estourado.


No encerramento deste artigo recebi e-mail da Multiplus falando da confiança de seus dados e dos e-mails fraudulentos em seu nome e em nome de empresas parceiras, como a TAM. Reforça que a Multiplus nunca solicita dados pessoais por e-mail.


A TAM também mandou este e-mail:

tam tam

Jorge Furtado
@focabrasil


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AYR ALISKI - Agência Estado

19 de janeiro de 2011


BRASÍLIA - O Brasil terminou o ano de 2010 com um total de 202,94 milhões de telefones celulares, o que representa um crescimento de 16,66% em relação a 2009.


Os dados foram divulgados hoje pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). O último balanço, divulgado em novembro, indicava que o País tinha 197,53 milhões de linhas ativas.


Os números de hoje comprovam que a "teledensidade" avança cada vez mais. Em novembro, havia uma média de 101,96 celulares para cada grupo de cem habitantes.


Em dezembro, o índice saltou para 104,68 celulares. São 16 os Estados que efetivamente têm mais de um celular por habitante: Amapá, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Mato-Grosso do Sul, Mato-Grosso, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rondônia, Santa Catarina, São Paulo e Tocantins. A área de registro "71", da região de Salvador (BA), é a que lidera o ranking de densidade, com 155,51 celulares para cada cem habitantes.


Durante todo o ano passado, o País colocou em operação um total de 28.984.665 novos celulares. É o maior número absoluto de novas habilitações nos últimos 11 anos, ou seja, desde o ano 2000. Somente em dezembro, ocorreram 5.410.047 novas habilitações, o que representa um crescimento de 2,74% em relação a novembro.


Do total de telefones móveis em operação, uma parcela de 82,34% era formada por pré-pagos em dezembro, ou seja, 167.097.347 celulares. Os pós-pagos respondiam pela parcela restante, de 17,66%.


A Anatel divulgou também o cenário de divisão de mercado entre as operadoras. A Vivo ficou em primeiro lugar, com 29,71% de participação; seguida pela Claro, com 25,44%; e com a TIM na terceira posição, com 25,14%. Depois aparecem Oi (19,35%), CTBC (0,3%), Sercomtel (0,04%) e Unicel (0,01%).


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Desafios à Humanidade

Frei Betto


As recentes manifestações, contrárias à política protecionista da OMC, confirmam que o mundo unipolar, hegemonizado pelo poderio econômico, militar e ideológico dos EUA, representa séria ameaça ao futuro da humanidade. Somos 6,3 bilhões de pessoas no planeta, das quais, segundo a ONU, 4 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza, com renda /per capita/ mensal inferior a US$ 60.


O fenômeno da globalização é, de fato, globocolonização, a imposição do modelo de sociedade anglo-saxônico aos países do mundo. Toda essa assimetria é agravada pelo crescente desequilíbrio ambiental e pela equivocada busca da paz através da imposição das armas, e não da promoção da justiça, como sugeriu o profeta Isaias oito séculos antes de Cristo.


Os desafios que se colocam hoje para a humanidade podem ser resumidos em oito pontos:


1) Redução imediata da fome, da pobreza e da desigualdade social. Essas são as verdadeiras “armas de destruição em massa”, que sacrificam, segundo a FAO, ao menos 24 mil vidas por dia. Entre os fatores de morte precoce, a fome supera as enfermidades (câncer, Aids etc.); os acidentes de trânsito e de trabalho; a violência (guerras, terrorismo, assassinatos). No entanto, o planeta produz alimentos suficientes para 11 bilhões de bocas. O problema, pois, não é excesso de bocas nem falta de alimentos, mas de justiça, sobretudo de partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano.


2) Respeito à soberania e à autodeterminação dos povos. Os organismos multilaterais devem evitar sua manipulação por parte das grandes potências. Atrás de tratados supostamente voltados ao intercâmbio entre nações escondem-se mecanismos cruéis de neocolonialismo. Ninguém é capaz de imaginar uma base cubana nas costas da Califórnia, o que certamente provocaria grande alarde da mídia. Porém, há uma base americana nas costas de Cuba, Guantánamo, sem que isso cause reação indignada da mídia internacional. Uma nação como Porto Rico permanece, desde 1898, sob tutela americana. Bases militares dos EUA espalham-se pelo mundo, numa flagrante ingerência à segurança interna dos países hospedeiros e vizinhos.


3) Fortalecimento da cidadania e da democracia. O conjunto da população tem o direito de se organizar por grupo de interesses, para defender e reivindicar seus direitos. A cidadania deve se basear no pleno reconhecimento da dignidade de cada ser humano, independentemente de sua condição sexual, étnica, religiosa e social. Urge assegurar a todos alimentação, saúde e educação; trabalho, cultura e lazer; moradia e o direito à felicidade.
A democracia alcançará sua plenitude quando equacionar liberdade política com justiça social, de modo que todos tenham renda suficiente que lhes garanta qualidade de vida e plenas condições de desenvolvimento humano.


4) Proteção do meio ambiente. O planeta está às vésperas de esgotar seu potencial energético, há grande ameaça à sua biodiversidade, as condições climáticas alteram-se de ano para ano. Sem um novo paradigma de relação entre o ser humano e a natureza, a progressiva degradação ambiental poderá aumentar os casos de enfermidades decorrentes do desequilíbrio ecológico, prejudicando as fontes de produção de água potável e de alimentação.


5) Respeito ao pluralismo religioso, à diversidade de modelos políticos, e fim das discriminações sexuais e étnicas. A intolerância religiosa poderá multiplicar as reações típicas de atitudes fundamentalistas. Daí a importância de favorecer o diálogo inter-religioso. Os modelos de organização política de nossas sociedades devem respeitar as idiossincrasias de cada povo. Os novos papéis sexuais precisam ser encarados com respeito, e as diferenças étnicas como fator de enriquecimento da convivência humana.


6) Solidariedade entre as nações. Somos todos passageiros dessa nave espacial chamada planeta Terra. Os recursos são limitados e devem ser distribuídos com justiça e utilizados com parcimônia. Para tanto, é preciso erradicar a competição, a opressão e o colonialismo, que tanto prejudicam a convivência entre as nações. O quanto antes é urgente fortalecer nas novas gerações a consciência de que somos uma só família humana, e a singularidade de cada povo não deve constituir fator de preconceito, discriminação, agressão ou imposição de modelos estranhos à sua história e índole.


7) Superar a economia da carência, que afeta hoje 2/3 da humanidade, obrigados a sobreviver em condições sub-humanas, e a economia da abastança, que propicia a uns poucos países uma apropriação indevida e exagerada de riquezas e recursos que, em princípio, pertencem ao conjunto da humanidade. A economia da suficiência deve assegurar a cada pessoa e a cada povo condições dignas de vida e plena realização de seu potencial humano.


8) Fortalecer a cultura que identifica a natureza sagrada de cada pessoa, sua dignidade irredutível e seu direito inalienável a uma vida feliz. Cada um de nós é o centro do Universo, e o dom da vida é o valor supremo a ser preservado, aperfeiçoado e exaltado, de modo evitar toda banalização da existência, bem como os fatores que contribuem para ameaçá-la, destruí-la e desvalorizá-la. Seremos verdadeiramente humanos quando a felicidade ultrapassar as condições materiais de vida e atingir sua vocação à transcendência, elevando o espírito humano aos voos da infinitude, ora prenunciados na arte, na mística religiosa e, sobretudo, no amor.


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Cronobiologia.
Você é matutino ou vespertino?

Mariana Domakoski


Horários biológicos diferentes interferem no desempenho ao longo do dia: algumas pessoas são mais dispostas pela manhã, outras à noite. Conheça seu cronotipo e melhore a qualidade de vida.


Você se sente sonolento no trabalho ou tem dificuldades para dormir à noite? Já experimentou algum tipo de confusão mental e dores de cabeça sem explicação? Se a resposta foi sim, talvez você esteja contrariando seu relógio biológico e suas necessidades fisiológicas. Mais do que preferência ou preguiça, essas variações são genéticas, determinadas pelos chamados genes-relógio.


Os especialistas ainda não identificaram quais são esses genes nem como são transmitidos. O estudo da cronobiologia, intensificado na década de 1960 e trazido ao Brasil 20 anos depois, mostrou que as necessidades das pessoas são diferentes, apesar dos padrões de horários da sociedade. “Em geral, a espécie humana é diurna e reserva a noite para o descanso. Mas isso não quer dizer que a rotina sirva para todos”, explica Claudia Moreno, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e integrante do Grupo Multidisciplinar de Desenvolvimento e Ritmos Biológicos da instituição.


Variações do corpo e da rotina


Ao longo do dia, o corpo passa por variações na produção hormonal, temperatura e no funcionamento dos órgãos. “O organismo não é constante. No fim da tarde, a temperatura corporal chega a 37 graus C. Quando dormimos, ela cai abaixo de 36 graus C. Saber disso é importante para poder fazer diagnósticos corretamente, usar melhor os medicamentos e realizar certas atividades”, conta o coordenador do laboratório de cronobiologia humana da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Fernando Mazzilli Louzada, que também é professor do Departamento de Fisiologia. “À noite a produção de melatonina no corpo aumenta, causando alterações que levam a pessoa a dormir, na atividade cerebral, do fígado e dos rins.”


Cronotipos. Veja em qual tipo você se encaixa:


- Matutino: prefere acordar cedo e fica sonolento passado seu horário de dormir, por volta das 21 horas. Atinge o horário de pico da temperatura corporal (entre 17 e 18 horas), no qual apresenta melhor desempenho em atividades esportivas e intelectuais.


- Vespertino: atinge o melhor desempenho por volta das 19 ou 20 horas. Prefere dormir tarde e tem dificuldades para acordar pela manhã. Devido à rotina, tende a dormir menos do que precisa e, por isso, cochila mais durante o dia.
Para compensar as horas de sono perdidas, acorda mais tarde nos fins de semana.


- Intermediário: seu horário de pico de temperatura está entre o horário do matutino e do vespertino. É mais flexível a mudanças.


- Extremos: não conseguem se adaptar aos horários. As extremamente matutinas se deitam por volta das 20 horas e acordam de madrugada, e as extremamente vespertinas, não conseguem dormir antes das 6 da manhã. Se os hábitos provocam problemas de saúde ou atrapalham a rotina, são considerados síndromes: da fase adiantada ou da fase atrasada de sono.


Fonte: Claudia Moreno, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP e uma das integrantes do Grupo Multidisciplinar de Desenvolvimento e Ritmos Biológicos da instituição.


Pessoas que trabalham à noite podem se adaptar ao horário de trabalho após três ou quatro semanas. O problema é quando a rotina é quebrada. “No dia de folga, esse funcionário quer conviver com a família, interagir”, explica Louzada.


Adaptação não é imediata


A professora Claudia Moreno afirma que o corpo tem uma plasticidade, para se adaptar à mudança de horários, mas ela não é imediata. “Não acontece se a pessoa está dessincronizada, acordando e dormindo sempre em horários diferentes.” Além das consequências a curto prazo, como sonolência e dificuldade para dormir, a falta de adaptação traz prejuízos a longo prazo. “A falta de sono vira um fator de risco: aumentam as chances de desenvolver doenças cardiovasculares, problemas psíquicos, especialmente a depressão, gastrointestinais e distúrbios de sono. No caso de mulheres, pode diminuir as chances de engravidar e aumentar o risco de aborto espontâneo”, explica.


Para descobrir o cronotipo, é preciso prestar atenção aos hábitos e reações do corpo. “Se não há problemas de saúde, doenças, a pessoa não precisa procurar um médico. Basta respeitar as necessidades, perceber que o sono é uma delas e tentar mudar a rotina fisiológica”, afirma Claudia.


Qual é seu cronotipo?


Descubra se você é matutino, vespertino ou intermediário. Responda o questionário elaborado pelo Grupo Multidisciplinar de Desenvolvimento e Ritmos Biológicos (GMDRB) da Universidade de São Paulo (USP) pelo site www.crono.icb.usp.br/cronotipo


Fonte:
http://www.gazetadopovo.com.br


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