FOCA BRASIL - Fundação Organizacional de Comunidades Autônomas

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Os limites das medidas públicas

Cultura Popular, Cultura de Elite, Cultura de Massa

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Os limites das medidas públicas

Muitas vezes, as políticas adotadas são ofuscadas pela influência de fatores culturais, étnicos e psicológicos
DAVID BROOKS – O Estado de São Paulo


Há aproximadamente um século, muitos suecos imigraram para os Estados Unidos. Eles prosperaram aqui. Apenas 6,7% dos americanos de origem sueca vivem na pobreza. Também há aproximadamente um século, muitos suecos decidiram ficar na Suécia. Eles também prosperaram lá.


Quando dois economistas calcularam a taxa de pobreza da Suécia em relação ao padrão americano, eles descobriram que apenas 6,7% dos suecos vivem na pobreza em seu próprio país. Em outras palavras, trata-se de dois grupos com passados parecidos vivendo em sistemas políticos totalmente diferentes, e os resultados de ambos os casos foram idênticos no combate à pobreza.


Um padrão parecido pode ser verificado na saúde pública. Em 1950, os suecos tinham uma expectativa de vida 2,6 anos superior à dos americanos. Nos 50 anos seguintes, Suécia e EUA seguiram políticas distintas. A Suécia ergueu um vasto Estado de bem-estar social, enquanto os EUA não o fizeram. O resultado? A diferença entre as expectativas de vida nos dois países permaneceu essencialmente a mesma.


Atualmente os suecos vivem em média 2,7 anos a mais do que os americanos.


Outra vez, são imensas as diferenças nas medidas públicas, mas os resultados são muito parecidos. Isso não equivale a dizer que a escolha entre diferentes conjuntos de medidas públicas é irrelevante. Mas é importante que as encaremos com realismo.


A influência da política e das medidas públicas costuma ser ofuscada pela influência da cultura, da etnia, da psicologia e de uma dúzia de outros fatores.


O mesmo fenômeno pode ser observado entre a população americana. Na semana passada, o Projeto Americano de Desenvolvimento Humano divulgou os resultados de sua pesquisa "Separados por um século", que aborda vários aspectos da vida nos EUA. Como seria de se esperar, a questão étnica está relacionada a grandes diferenças na qualidade de vida das pessoas. Em todo o país, 50% dos adultos de origem asiática possuem diploma universitário, porcentual comparável a 31% entre os brancos, 17% entre os americanos negros e 13% entre os hispânicos.


Qualidade de vida. Os americanos asiáticos têm expectativa de vida de 87 anos, enquanto a dos brancos é de 79 anos, e a dos negros, 73 anos. Estes americanos de origem asiática parecem prosperar mesmo em regiões menos favorecidas do país.


Seus níveis de renda e escolaridade são também muito mais altos do que aqueles observados nos demais grupos populacionais.


As características regionais também influenciam muito a qualidade de vida. Há certas regiões nas quais a confiança social é alta e onde a população de alta escolaridade se reúne, produzindo ciclos positivos, projetos culturais de qualidade e bons programas de capital social. Quando combinadas, a influência regional e a influência étnica produzem impressionantes diferenças entre os estilos de vida. O americano asiático médio de New Jersey vive 26 anos a mais do que o índio americano médio da Dakota do Sul, e a probabilidade de ele possuir um diploma do ensino superior é 11 vezes maior do que a deste último.


Quando tentamos compreender diferenças tão grandes na qualidade de vida de diferentes grupos sociais, ultrapassamos os limites estreitos dos incentivos econômicos e entramos no mundo sombrio do capital social. O que importa são as vivências históricas, as atitudes culturais, o modo de criar os filhos, os padrões de formação familiar, as expectativas em relação ao futuro, a ética no trabalho e a qualidade dos elos sociais.


Os pesquisadores tentaram excluir do cálculo a influência desses fatores abstratos e descobriram que a tarefa é quase impossível. A única coisa que podemos afirmar ao certo é que diferentes fatores psicológicos, culturais e sociais combinam-se de múltiplas maneiras para produzir diferentes pontos de vista. Como resultado dos distintos pontos de vista, o comportamento médio é diferente entre os grupos étnicos e geográficos, o que produz diferentes níveis de qualidade de vida.


Para os responsáveis pela elaboração de medidas públicas, é muito difícil empregar o dinheiro para alterar diretamente esses pontos de vista. Em seu livro What Money Can"t Buy (Aquilo que o dinheiro não compra), Susan E. Mayer, da Universidade de Chicago, calculou o que aconteceria se fosse possível dobrar a renda dos americanos mais pobres. Os resultados seriam de uma insignificância desapontadora. Dobrar a renda dos pais reduziria pouquíssimo a taxa de abandono escolar entre as crianças. O efeito na redução dos casos de gravidez na adolescência seria mínimo.


Assim, quando nos envolvemos em debates políticos, é importante termos consciência do papel que as medidas públicas desempenham no contexto mais amplo das influências culturais e sociais. Políticas públicas ruins podem dizimar o tecido social, mas boas medidas públicas podem, no máximo, reforçar modestamente esse tecido.


Assim sendo, a primeira regra da elaboração de medidas deveria ser não promulgar medidas que destruam elos sociais. Se tomarmos tribos exilando-as de suas terras natais e transportando-as para lugares distantes e áridos, o resultado negativo será sentido por gerações. A segunda regra deve ser o estabelecimento de um nível básico de segurança. Se o governo for capaz de estabelecer um nível básico de segurança econômica e física, talvez as pessoas desenvolvam uma cultura empreendedora - se tivermos sorte. A terceira regra deve ser o uso das medidas para fortalecer os relacionamentos.


Finalmente, é melhor que todos nós passemos a tratar a política com mais calma. A maioria das propostas sobre as quais debatemos tão furiosamente tem como resultado mudanças marginais no nosso modo de vida, especialmente quando comparada às diferenças étnicas, regionais e sociais que fazemos tanta questão de ignorar. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL


David Brooks - É autor de livros sobre política americana e já foi correspondente no Oriente Médio e em Moscou


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Cultura Popular, Cultura de Elite, Cultura de Massa

Orlando Fedeli


Cultura de massa é, em nossos dias, conceito dos mais amplos, abrangendo, muitas vezes, toda e qualquer manifestação de atividades ditas populares. Do carnaval ao rock and roll, do jeans à coca-cola, das novelas da televisão às revistas em quadrinhos, tudo, hoje, pode ser inserido no cômodo e amplo conceito de cultura de massa.


Todavia, muitos dos que assim utilizam tal conceito ver-se-íam em dificuldades se indagados acerca de sua real abrangência.


Antes, porém, de estudar o que vem a ser cultura de massa, cabe perguntar: o que é cultura? O que é massa?


Povo e Massa


O Papa Pio XII, em sua célebre Radiomensagem de Natal de 1944, distinguiu magistralmente os dois conceitos.


O povo, ensina o Pontífice, é formado por indivíduos que se movem por princípios.


Ele é ativo, agindo conscientemente de acordo com determinadas ideias fundamentais, das quais decorrem posições definidas diante das diversas situações.


A massa, ao contrário, não passa de um amálgama de indivíduos que não se movem, mas são movidos por paixões. A massa é sempre, e necessariamente, passiva. Ela não age racionalmente e por sua conta, mas se alimenta de entusiasmos e ideias não estáveis. É sempre escrava das influências instáveis da maioria, das modas e dos caprichos que passam.


A massa é como a areia movida pelo vento, ou o rebanho nas mãos do pastor.


Movem-na apenas veleidades: o dinheiro, a facilidade, o luxo, o prazer, o prestígio.


Como animais que temem desgarrar-se do rebanho, os indivíduos que compõem a massa jamais discordam da maioria. Pergunte a um jovem se conhece determinado cantor da moda, e ele terá imensa vergonha em confessar sua eventual ignorância.


Em seguida, ele procurará conhecer tal cantor, decorar suas músicas (mesmo que na verdade não as aprecie), conhecer sua história. Somente então, sentir-se-á reconfortado, pois estará finalmente "como todo mundo".


A inserção na massa lhe impõe que se vista como os outros, que coma como os outros, que goste do que gostam os outros.


Ser, pensar, agir, estar sempre, obrigatoriamente, "como os outros" é amoldar-se inexoravelmente a esse implacável "deus" chamado "todo mundo". É renunciar à própria individualidade, trocando-a pelo amorfo e medíocre "eu coletivo" da multidão.


Inserir-se na massa é socializar a si mesmo.


A massa é, portanto, o povo degenerado.


Pode a massa ter cultura?


Cultura


Alguém definiu cultura, sob o prisma individual, como aquilo que permanece após ter-se esquecido tudo o que se aprendeu.


Transplantando tal conceito para o plano coletivo, poderíamos afirmar que cultura é o resíduo, imune à ação do tempo, dos conhecimentos - em sentido amplo - fundamentais dos povos. A cultura de determinada civilização vem a ser, portanto, o conjunto de seus valores e conhecimentos perenes.


Como se forma a cultura de um povo?


O termo cultura tem sua origem na agricultura, em razão da flagrante analogia entre as etapas do cultivo de um terreno e a formação da cultura humana.


Com efeito, a cultura de um terreno pressupõe sua limpeza de toda sujeira e ervas daninhas, a aragem e o cultivo dos vegetais desejados.


A plantação deverá obedecer determinadas regras. Será preciso plantar, antes de mais nada, coisas úteis, eis que uma cultura de ervas daninhas será uma falsa cultura.


Ademais, será necessário plantar em ordem, de maneira que, por exemplo, cada cereal esteja separado dos demais, a fim de que possa receber o tratamento que mais lhe convém.


Algo análogo se passa com a formação da cultura dos homens e dos povos.


Antes de mais nada, a boa cultura exige que se limpem as inteligências de todos os erros e falsas opiniões - ervas daninhas de nossas mentes - que comprometem tudo o que nelas venha a ser plantado.


Após, será preciso "arar" nossas inteligências, habituando-as a pensar. Pois apenas estudar não significa adquirir cultura: há analfabetos mais "cultos" do que muitos eruditos.


Finalmente será chegado o momento de "plantar", ordenadamente, verdades úteis em nossa mente.


Não basta, portanto, ao ser humano estudar, mas é preciso, antes de mais nada, selecionar aquilo que se estuda e se guarda, de modo a se conhecer coisas úteis.


Uma lista telefônica, por exemplo, está repleta de informações verdadeiras. Todavia, nenhuma utilidade traria seu estudo. Se olharmos em torno de nós, veremos com surpresa quantos há que dispersam seu tempo e inteligência com absolutas banalidades.


Além de ter por objeto coisas úteis, a formação cultural exige que se observe determinada ordem no estudo, a qual hierarquize nossos conhecimentos de forma lógica.


Assim, temos que, a cultura da enciclopédia - que posiciona os temas de acordo com sua "ordem" alfabética, e não sua importância ou encadeamento lógico - não pode ser considerada verdadeira cultura. Pois a enciclopédia, vasta e superficial, pode ser comparada com um oceano que uma formiga atravessaria com água pelas patas...


Visto o processo de formação cultural - que, mutatis mutandis, se aplica também à formação da cultura dos povos - cabe responder à indagação acerca da possibilidade de existência de uma cultura de massa.


É fácil perceber, tendo em vista o ensinamento de Pio XII, que a resposta somente pode ser negativa, na medida em que a massa, por definição passiva, não é capaz de cultivar - "limpar", "arar", "plantar" -, por si mesma, o que quer que seja.


A pseudocultura de massa não passa, na verdade, de um oceano de imposições ditadas pelos meios de comunicação, muitas vezes identicamente destinadas às mais díspares regiões e povos.


Não é por outro motivo que as massas, sejam da América, Europa ou Ásia, apreciam e produzem a mesma arte, vestem as mesmas roupas, gostam das mesmas comidas.


Não é por razão diversa que os estilos, as maneiras, as tradições, enfim, a cultura peculiar de cada povo vem dando lugar, em larga medida, a uma triste "standardização" universal.


Exatamente por não partir genuinamente dos povos, mas ser sempre uma imposição de cima para baixo, a pseudocultura se mostra indiferente e imune às profundas diferenças existentes, por exemplo, entre japoneses e italianos, ou entre norte-americanos e árabes: todos consomem os mesmos hambúrgueres e coca-colas...


Todos receberam a mesma falsa e estereotipada "cultura".


Cultura Popular


Algo totalmente diverso, porém, ocorre em relação ao povo. Este tem movimento próprio, guardando seus próprios princípios e movendo-se de acordo com eles. Ao povo é dado, portanto, formar sua própria cultura, reflexo evidente das ideias fundamentais que o movem.


Ao contrário da chamada "cultura" de massa, a cultura popular tem suas raízes nas tradições, nos princípios, nos costumes, no modo de ser daquele povo.


Desta forma, cada povo produz, por exemplo, uma arte peculiar, reflexo de suas específicas qualidades, necessariamente diversa das artes de outros povos. Assim, por exemplo, houve uma verdadeira arquitetura colonial brasileira - expressão de autêntica cultura de nosso povo -, muito diferente da arte de escultores de outros povos.


Cultura de Elite


Mas a verdadeira cultura popular não se esgota em si mesma.


Conforme ensina o mesmo Pio XII, o povo sempre produz uma elite, formada por aqueles que se destacam nos mais variados campos.


E essa elite, naturalmente, aperfeiçoará a cultura popular. Portanto, é a cultura popular a causa eficiente da verdadeira cultura de elite, a qual não lhe é oposta, mas prolongamento natural dela, como a flor é produto da raiz.


Raiz e flor não se repelem, amam-se. A flor é o "orgulho" da raiz, pois esta é mãe daquela.


Vivaldi, Handel e numerosos outros compositores clássicos foram buscar temas para suas músicas nas canções populares de seu tempo. Não fosse a boa poesia popular, a literatura não teria Os Lusíadas ou A Divina Comédia.


A pobre massa, por sua vez, não produz elite, nem cultura. Dela somente nasce destruição da verdadeira cultura.


Fonte:
Orlando Fedeli - "Cultura popular, cultura de elite, cultura de massa"
MONTFORT Associação Cultural


http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=politica&artigo=cultura&lang=bra
Online, 02/03/2010 às 20:41h


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