FOCA BRASIL - Fundação Organizacional de Comunidades Autônomas

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Tecnologia da Informação

Quem é mais rico? O Brasil ou os EUA?

Leva cinquenta anos?

"O problema do Brasil é o Brasil"

Sou um fora da lei

ISTOÉ Entrevista

Alinhamento, balanceamento e desonestidade

Martelada

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Tecnologia da Informação

Quer ganhar mais? Seja um craque de TI


Só no último ano, vencimentos da área cresceram quase 11% em média. Em algumas especialidades, alta ultrapassa os 30%
Por James Della Valle
REPORTAGEM PUBLICADA NA REVISTA VEJA

TI

Carreira em TI: Bons salários dependem do empenho dos profissionais (Rich Yasick)


O acelerado avanço tecnológico nas últimas duas décadas trouxe inumeráveis vantagens para bilhões de pessoas e empresas em todo o mundo. É impossível não reconhecer os benefícios de controlar gastos no computador pessoal, pagar contas via internet confortavelmente sentado no sofá e usar o celular em trânsito para falar com alguém em (quase) qualquer parte do planeta. Por trás de todos esses serviços, há um exército que dá duro para garantir que os bits circulem corretamente de um lado para outro: são os profissionais de tecnologia da informação – ou simplesmente TI. E eles também têm se beneficiado com o vertiginoso avanço. Levantamento inédito feito pelo Catho Online, serviço que reúne ofertas de empregos e currículos, revela que, só no último ano, os salários de TI no Brasil cresceram em média 10,78% – 60% acima da inflação. Em algumas especialidades, como programação, a alta chega a impressionantes 38%.


O estudo ouviu 260.000 profissionais – pouco mais de um quinto das 1,2 milhão de pessoas que atuam na área no Brasil. Entram no cálculo funcionários de empresas com níveis variados de experiência e tempo de serviço, além de consultores. Foram rastreados os vencimentos de profissionais que atuam nas cinco regiões do país, divididos em 15 subáreas de TI, cada uma delas subdividida em níveis hierárquicos de gerência, coordenação e desenvolvimento (profissional júnior, pleno ou sênior). Dessa forma, foram consideradas 48 diferentes funções, o que revelou o bom momento: em 41 delas, a média salarial subiu no último ano. Confira no quadro a média salarial das 15 principais áreas de TI nas cinco regiões do Brasil, segundo dados coletados em janeiro.


"A tecnologia está presente em todos os setores da economia moderna. Isso vem colaborando para o crescimento dos salários e para a maior penetração das empresas em diversas regiões do país", afirma Sergio Sgobbi, diretor de educação e recursos humanos da Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom). O Brasil já pode ser considerada uma potência regional de TI. Em 2011, o mercado brasileiro de tecnologia da informação movimentou 11 bilhões de dólares, segundo dados da consultoria Frost & Sullivan, um crescimento de 11,5% em relação ao ano anterior. Com os números, o país já responde por metade do mercado de tecnologia da América Latina.


Os dados animadores da Catho corroboram outro estudo, que analisou a tendência dos vencimentos do setor até 2014. O levantamento – parceria entre a Brasscom e o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) – concluiu que os salários de entrada, pagos a quem começa na área, deverão receber um incremento de cerca de 18% até 2014. O estudo mostrou também que, em outubro de 2011, os novatos receberam 1.977 reais nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Sul e também no Distrito Federal – identificados como polos de tecnologia. O valor é 31,89% superior à média salarial brasileira, de 1.499 reais.


Sim, é um ótimo momento para quem já está na área e uma grande oportunidade para quem quer entrar nela. Apesar de tantos atrativos, o curioso é que, ao lado do aquecimento do mercado, o déficit de mão de obra é apontado como razão da elevação dos salários. Estima-se que haja 115.000 vagas não preenchidas à espera de profissionais qualificados. Até 2025, o número pode chegar a 500.000 postos de trabalho, segundo estimativas do Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados e Tecnologia da Informação do Estado de São Paulo (Sindpd). "As empresas estão percebendo a necessidade de remunerar melhor seus funcionários. Aquelas que não seguirem a tendência, serão obrigadas a aprender a operara sem eles", afirma Antonio Neto, presidente do Sindpd.


Profissionais em alta:

profissionais em alta

Os bons ventos que sopram na área de TI não levarão todos ss interessados ao mar da prosperidade. Se, por um lado, não há regulamentação profissional no setor – o que dispensa a necessidade de apresentação de um diploma –, por outro, as demandas a que são submetidos os profissionais mudam tão rapidamente quanto a tecnologia. Se há apenas dois anos os microprocessadores de dois núcleos (dual-core) desafiavam e encantavam os profissionais que atuam na área, atualmente o foco de atenção são os chips com quatro núcleos (quad-core), muito mais rápidos e potentes.


"O Brasil conta com bons profissionais no mercado", diz Shuji Shimada, diretor da People Consulting, empresa especializada em recrutamento na área de TI. "Contudo, num cenário de grandes mudanças e crescimento acelerado, cresce exponencialmente a exigência de atualização."


Na área de TI isso significa uma sólida formação técnica aliada à aquisição praticamente constante de certificados específicos. Eles atestam que um profissional domina determinada tecnologia e está apto a lidar com ela diariamente. É uma exigência do mercado e das empresas empregadoras. O caminho não é fácil, mas, como mostram os indicadores da área, é recompensador. "A tecnologia da informação é base para tudo, não há processo sem apoio tecnológico", diz Shimada.


OS SALÁRIOS DE TI NAS CINCO REGIÕES DO BRASIL (AS 11 PRIMEIRAS SÃO AS ÁREAS MAIS VALORIZADAS) - Por James Della Valle


TIA crescente informatização das mais diversas atividades transforma a tecnologia da informação – ou TI, no jargão profissional – em uma área cada vez mais relevante economicamente. A expansão levou à especialização e, atualmente, é possível encontrar várias subáreas de TI dedicadas a tarefas específicas – e que demandam profissionais com conhecimentos igualmente aprofundados. Confira a seguir as principais divisões do setor e os respectivos salários médios pagos a novatos e a profissionais que atingem o topo da carreira, segundo levantamento da Catho Online, site que reúne e tabula ofertas de empregos e currículos. Deve-se levar em conta que o valor dos vencimentos varia de acordo com o porte da empresa e sua localização geográfica – companhias do Sudeste costumam pagar mais.



1 - Administração de Banco de Dados
É o segmento que cuida de todas as informações eletrônicas armazenadas por uma empresa. No caso de instituições financeiras, por exemplo, esses dados incluem nomes de clientes e até valores de transações monetárias efetuadas por grandes corporações.
Salário médio para iniciante: 2.400 reais
Salário médio no topo da carreira: 8.200 reais

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2 - Administração de Redes
É o setor que mantém a empresa interconectada e também ligada ao resto do mundo. Responsável pelo acesso à rede local e à internet, exige de seus profissionais grande domínio técnico, pois são necessários conhecimentos avançados de software e também hardware.
Salário médio para iniciante: 1.660 reais
Salário médio no topo da carreira: 10.000

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3 - Arquitetura da Informação
É responsável por planejar a estrutura dos mais variados serviços na área de TI. Isso inclui projetar produtos tão diferentes quanto a infraestrutura de um banco de dados e a organização das informações que serão apresentadas por um site.
Salário médio para iniciante: 2.800 reais
Salário médio no topo da carreira: 10.500 reais

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4 - E-Commerce
É uma das divisões mais importantes de TI na atualidade. Envolve o desenvolvimento e manutenção de sistemas de comércio eletrônico, como os utilizados nos grandes sites de varejo, por exemplo.
Salário médio para iniciante: 2.900 reais
Salário médio no topo da carreira: 15.000 reais

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5 - Processamento de Dados
As atividades principais da área são controle do fluxo de informações e criação de programas que realizarão tarefas específicas das empresas. Por natureza, o setor exige do profissional conhecimentos superficiais de diversas áreas. Consequentemente, costuma oferecer salários menores do que os demais segmentos de TI.
Salário médio para iniciante: 1.300 reais
Salário médio no topo da carreira: 9.000 reais

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6 - Programação
Os profissionais da área são responsáveis por transformar códigos compreensíveis apenas por computadores em programas que podem ser utilizados por usuários que não tem qualquer conhecimento técnico. As diversas linguagens de programação existentes – como C, .NET e PHP – abrem as portas para muitas possibilidades de especialização.
Salário médio para iniciante: 1.600 reais
Salário médio no topo da carreira: 9.300 reais

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7 - Qualidade de Software
É o setor responsável por testar e aprovar os programas desenvolvidos por outras equipes e empresas. A tarefa é essencial para garantir a satisfação dos consumidores, que, na prática, lidarão diariamente com os programas.
Salário médio para iniciante: 1.500 reais
Salário médio no topo da carreira: 8.500 reais

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8 - Segurança da Informação
A proteção de dados é uma das vertentes mais importantes da tecnologia, uma vez que é responsável pela prevenção e combate a ataques criminosos. O especialista desse setor ganha destaque em grandes empresas de comércio eletrônico e instituições financeiras, por exemplo.
Salário médio para iniciante: 2.100 reais
Salário médio no topo da carreira: 9.000 reais

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9 - Sistemas
É a área responsável pelo planejamento, desenvolvimento e implantação de projetos de TI dentro de uma empresa. Seus profissionais também podem atuar como consultores em outras áreas, orientando os demais colaboradores a instalar e utilizar softwares.
Salário médio para iniciante: 2.000 reais
Salário médio no topo da carreira: 15.500 reais

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10 - Suporte Técnico em Informática
Indispensável para qualquer empresa, principalmente para aquelas que não têm a tecnologia como foco de negócios. Os profissionais dessa área devem resolver problemas cotidianos de seus clientes internos, como consertar computadores e garantir acesso de todos aos sistemas de uma determinada empresa.
Salário médio para iniciante: 1.300 reais
Salário médio no topo da carreira: 17.000 reais

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11 - Tecnologia da Informação (subárea)
É o “centro nervoso” de TI – e, por isso, empresta seu nome. A área engloba as divisões de informática, implantação de sistemas da informação, consultoria de sistemas da informação, planejamento, organização e controle administrativo.
Salário médio para iniciante: 1.800 reais
Salário médio no topo da carreira: 15.200 reais

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12 - Conteúdo Web
É a área responsável pela manutenção criação, inserção de conteúdo dentro de páginas da web. As funções também incluem a busca e implementação de ferramentas que possam enriquecer os sites com serviços úteis aos usuários.

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13 - Criação Web
É o setor responsável por lidar com a implementação de designs para sites. O profissional dessa área pode criar a identidade visual de uma página ou fazer a programação necessária para que ela se adeque ao pedido do cliente.

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14 - Negócios web
É responsável por fornecer insumos (informações) para tomada de decisões em projetos de comércio eletrônico. O profissional deve entender de tecnologia e negócios para mapear as necessidades específicas de clientes e oferecer soluções rentáveis.

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15 - Web Development
É responsável por lidar diretamente com o desenvolvimento técnico e visual das páginas da internet, incluindo a definição de linguagens e bancos de dados a serem utilizados nos projetos. O profissional também é responsável pela manutenção do site, o que envolve a verificação da capacidade do servidor e sua estabilidade.

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COMO CONQUISTAR O PRIMEIRO EMPREGO


O Senac de São Paulo estima que existam atualmente 100.000 vagas abertas na área de tecnologia da informação (TI) em todo o Brasil. É uma má notícia para a economia do país, que carece de profissionais competentes. Mas é uma grande oportunidade para jovens oriundos de cursos universitários e técnicos que aspiram a uma oportunidade. Para de fato abocanhar uma daquelas 100.000 vagas, alertam analistas e profissionais em atuação na área, é preciso investir na formação e no aprendizado contínuo.


"O ingresso na carreira é sempre difícil, pois as empresas exigem muitos conhecimentos e até experiência anterior dos candidatos", diz Elias Roma Neto, coordenador do curso de TI do Senac. "Mas é importante compreender que esse processo funciona como um filtro para reduzir esforços na seleção: só assim as companhias atraem os profissionais desejados."


Em geral, as companhias – grandes ou pequenas – exigem conhecimentos que estão além do transmitido pelas instituições de ensino. Nesse caso, o coordenador do Senac orienta os candidatos a focar em uma determinada área de TI, dominando habilidades específicas e estudando até particularidades do negócio da empresa que está na mira. "Sim, os candidatos precisam ver as exigências do possível empregador antes de fazer o teste de admissão", diz. "É o que fazem candidatos qualificados de qualquer área: estudam a empresa em que querem atuar." Nas situações em que experiência prévia é exigida, vale outra orientação. Demonstrar potencial na hora da entrevista pode substituir horas de voo.


Ao lado da alta exigência por parte das empresas, a insuficiência na formação acadêmica é apontada – por analistas e candidatos – como um dos obstáculos mais duros a ser vencidos. Entre as principais reclamações dos alunos, estão a falta de foco das instituições de ensino, acusadas de oferecer apenas conhecimento básico. Ficam de fora saberes exigidos pelo mercado e que fazem grande diferença no currículo de qualquer um que queira ir longe. É o caso das certificações que atestam a proficiência dos estudantes em áreas como linguagens de programação, bancos de dados, sistemas de segurança e criação de projetos – os preços desses cursos variam entre 900 e 9.000 reais. São cifras proibitivas para muitos profissionais em início de carreira.


Danilo Bordini, de 33 anos, 15 deles dedicados a TI, passou por esse problema. Desbravou caminhos e atualmente é gerente de produto para soluções de datacenter e virtualização da Microsoft. Assim que se formou, ele estabeleceu uma estratégia: realizou dois cursos que lhe garantiram duas certificações. Depois, passou a estudar por conta própria, o que tornou o processo menos oneroso: comprava os livros e só pagava pela realização do exame, sempre feita por empresas credenciadas. "Ser autodidata é uma capacidade importante nessa carreira", diz Bordini. "Mas há uma recompensa: algumas empresas valorizam isso. Por isso, cresci no mercado". É fato: trabalhando há seis anos na gigante do software, já fez apresentações até para Steve Ballmer, atual CEO da Microsoft.


Curiosidade em altas doses e sede por atualização são indispensáveis no setor de tecnologia, que, como poucas áreas, muda em altíssima velocidade. Bordini aposta ainda que aspirantes a um lugar em TI devem acrescentar ao metiê técnico saberes provenientes de outras áreas. "Possuir conhecimentos de administração de empresas, comunicação e relacionamento pessoal são o alicerce de quem quer construir mais e mais alto", diz o executivo.


Confira a seguir como novatos e profissionais bem-sucedidos começaram na área:

Danilo Souza

Henrique Dergado

Marcelo Pivonar

Danilo Bortini

Rafael Souza

CONSULTORIA EM TI, UMA DESAFIADORA OPORTUNIDADE
Abrir empresa própria ou participar do quadro de uma grande companhia pode agregar conhecimentos e aumentar o valor de mercado de profissionais
Por James Della Valle


Consultoria de TI: profissionais devem manter uma boa rede de contatos (Thinkstock)


TI No terceiro trimestre de 2011, o mercado de tecnologia da informação (TI) cresceu 10% em relação ao mesmo período de 2010. É um avanço invejável, mas que fica tímido quando comparado a outra marca. A demanda por profissionais especializados subiu 60%, de acordo com a empresa de recrutamento e seleção Asap. Os números mostram que o setor está aquecido e comprovam a dificuldade que as companhias enfrentam para contratar mão de obra qualificada. É, por outro lado, um momento favorável a profissionais dispostos a investir na consultoria, já que o mercado procura pessoas dispostas a resolver tarefas específicas em prazos determinados – a especialidade dos consultores, que trabalham por empreitada. Pode ser também a chance de virar dono do próprio nariz.


De acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), estima-se que haja 1,2 milhão de profissionais de TI no país. A ideia de exercer a consultoria atrai muitos profissionais. Na prática, isso significa abandonar um cargo de TI em companhias tão distintas quanto supermercados, hospitais e grandes lojas, entre dezenas de outras, para passar a atender essas mesmas companhias como um prestador de serviço. Pode-se estar empregado em uma grande consultoria de TI ou abrir o próprio negócio.


"A consultoria atrai porque permite que os profissionais se desenvolvam de forma mais ampla. Com o tempo, e a diversificação dos projetos executados para diferentes clientes, eles passam a adquirir mais conhecimento e aumentam seu valor de mercado", diz Matilde Berna, diretora de transição de carreira da Right Management, especializada em reposicionamento profissional. Denis Del Bianco, diretor da TOTVS Consulting, corrobora a tese. "No nosso caso específico, cada projeto dura em média quatro meses. Nesse período, aprendemos com a cultura de outras empresas e lidamos com pessoas de diferentes especialidades. É enriquecedor do ponto de vista profissional."

Profissionais

Outra vantagem é a possibilidade de crescer "horizontalmente" na profissão. O termo pode soar estranho, mas pretende explicar uma situação corriqueira. Refere-se a profissionais que, à medida que evoluem na carreira, continuam atuando em áreas técnicas e projetos, em vez de serem obrigados a assumir posições de gerência, mais burocráticas. "Trabalhando em empresas cujo negócio principal não é TI, rapidamente os melhores profissionais são alçados a cargos de gerência", diz Thomas Gisler, executivo de serviços da CPM Braxis Capgemini, especialista na área de sistemas SAP (gestão empresarial). "A consultoria expande os horizontes: você sempre está fora, viajando e lidando com culturas empresariais diferentes." Quem optar pelo negócio próprio, é claro, terá de enfrentar de cara questões gerenciais.


Além das diversas opções disponíveis, a remuneração também é um atrativo na hora de partir para a independência. De acordo com a Catho Online, site que reúne e tabula ofertas de empregos e currículos, o ganho mensal médio de um consultor com graduação completa é de cerca de 5.000 reais, enquanto um programador ou analista de banco de dados, com o mesmo tempo de experiência profissional, recebe apenas metade desse valor. Com o tempo e a especialização, a consultoria pode render mais de 8.000 reais mensais aos profissionais reconhecidos.


Consultoria pode ser um boa escolha, mas nem de longe está livre de percalços. Intermitência de trabalho é um deles – minimizado em tempos de mercado aquecido –, já que os consultores trabalham por empreitada. Apesar dos eventuais riscos, Matilde Berna, da Right Management, aconselha a todos os profissionais de TI tentar a experiência. "O profissional ganha um olhar mais apurado do universo em que atua. Muitos acabam voltando para empresas tradicionais, mas, mesmo assim, com ganhos."


Seis passos para abrir sua própria consultoria:

Passo 1

Passo 2

Passo 3

Passo 4

Passo 5

Passo 6

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Quem é mais rico? O Brasil ou os EUA?


Carta recebida por Alexandre Garcia (comentarista da rede Globo) enviada por um amigo Americano. Segue a carta:


“Caros amigos brasileiros e “ricaços””


Vocês brasileiros pagam o dobro do que os americanos pagam pela água que consomem. Embora tenham água doce disponível, aproximadamente 25% da reserva mundial de água Doce está no Brasil.


Vocês brasileiros pagam 60% a mais nas tarifas de telefone e eletricidade. Embora 95% da produção de energia em seu país sejam hidroelétricas (mais barata e não poluente).


Enquanto nós, pobres americanos, somente podemos pagar pela energia altamente poluente, produzidas por usinas termelétricas à base de carvão e petróleo e as perigosas usinas Nucleares.


E por falar em petróleo...


Vocês brasileiros pagam o dobro pela gasolina, que ainda por cima é de má qualidade, que acabam com os motores dos carros, misturas para beneficiar os usineiros de álcool. Não dá para entender, seu país é quase auto-suficiente em produção de petróleo (95% é produzido aí) e ainda assim tem preços tão elevados. Aqui nos EUA nós defendemos com unhas e dentes o preço do combustível que está estabilizado a vários anos US$ 0,30 ou seja R$ 0,90 Obs: gasolina pura, sem mistura.


E por falar em carro...


Vocês brasileiros pagam R$ 40 mil por um carro que nos EUA pagamos R$ 20 mil. Vocês dão de presente para seu governo R$ 20 mil para gastar não se sabe com que e nem aonde, já que os serviços públicos no Brasil são um lixo perto dos serviços prestados pelo setor público nos EUA. Na Flórida, caros brasileiros, nós somos muito pobres; o governo estadual cobra apenas 2% de imposto sobre o valor agregado (equivalente ao ICMS no Brasil), e mais 4% de imposto federal, o que dá um total de 6%.


No Brasil vocês são muito ricos, já que afinal concordam em pagar 18% só de ICMS.


E já que falamos de impostos...


Eu não entendo porque vocês alegam serem pobres, se, afinal, vocês não se importam em pagar, além desse absurdo ICMS, mais PIS, CONFINS, ISS, IPTU, IR, ITR e outras dezenas de impostos, taxas e contribuições, em geral, com efeito, cascata, de imposto sobre imposto, e ainda assim fazem festa em estádios de futebol e nas passarelas de Carnaval. Sinal de que não se incomodam com esse confisco maligno que o governo promove, lhes tirando 4 meses por ano de seu suado trabalho.


De acordo com estudos realizados, um brasileiro trabalha 4 meses por ano somente para pagar a carga tributária de impostos diretos e indiretos.


Nós americanos lembramos que somos extremamente pobres, tanto que o governo isenta de pagar imposto de renda todos que ganham menos de US$ 3 mil dólares por mês (equivalente a R$ 9.300,00), enquanto aí no Brasil os assalariados devem viver muito bem, pois pagam imposto de renda todos que ganham a partir de R$ 1.200,00. Além disso, vocês tem desconto retido na fonte, ou seja, ainda antecipam o imposto para o governo, sem saber se vão ter renda até o final do ano. Aqui nos EUA nós declaramos o imposto de renda apenas no final do ano, e caso tenhamos tido renda, ai sim recolhemos o valor devido aos cofres públicos. Essa certeza nos bons resultados futuros torna o Brasil um país insuperável.


Aí no Brasil vocês pagam escolas e livros para seus filhos, porque afinal, devem nadar em dinheiro, e aqui nos EUA, nós, pobres de país americano, como não temos toda essa fortuna, mandamos nossos filhos para as excelentes escolas públicas com livros gratuitos. Vocês, ricaços do Brasil, quando tomam no banco um empréstimo pessoal, pagam POR MÊS o que nos pobres americanos pagamos POR ANO.


E por falar em pagamentos...


Caro amigo brasileiro, quando você me contou que pagou R$ 2,500.00 pelo seguro de seu carro, ai sim eu confirmei a minha tese: vocês são podres de rico!!!!!!!!


Nós nunca poderíamos pagar tudo isso por um simples seguro de automóvel. Por meu carro grande e luxuoso, eu pago US$ 345,00. Quando você me disse que também paga R$ 1.700,00 de IPVA pelo seu carro, não tive mais dúvidas. Nós pagamos apenas US$ 15,00 de licenciamento anual, não importando qual tipo de veiculo seja. Afinal, quem é rico e quem é pobre?


Aí no Brasil 20% da população economicamente ativa não trabalha. Aqui, não podemos nos dar ao luxo de sustentar além de 4% da população que esta desempregada.


Não é mais rico quem pode sustentar mais gente que não trabalha ???


Comentários Alexandre Garcia:
Caro leitor, estou sem argumentos para contestar este ianque. Afinal, a moda nacional brasileira é a aparência. Cada vez mais vamos nos convencendo de que não é preciso ser, basta parecer ser. E, afinal, gastando muito, a gente aparenta ser rico. Realmente é difícil comparar esta grande nação chamada EUA que desde o seu descobrimento teve uma colonização de povoamento, com nosso país que foi colônia de exploração por mais de 300 anos, com nossas riquezas sendo enviadas para Portugal. E hoje ainda sofremos com essa exploração, só que dos próprios governantes que pilham e enviam nossas riquezas para suas contas bancárias em paraísos fiscais. E não fazemos nada para promover uma mudança radical de atitudes, conceitos e afirmação de nossa dignidade. Precisamos sair deste comodismo que estamos vivendo ou o sonho do País do futuro será apenas um ideal na boca dos demagogos que estão no poder.


Comentários Internautas:
“Não se trata de sermos um país rico, mas sim de uma República de BANANAS!!!!!!!!!!!!!!” Esta mensagem deve chegar ao máximo de pessoas para sensibilizar e conscientizar este povo brasileiro que aceita tudo que o governo dita, sem contestar.


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Leva cinquenta anos?

(Ponto de vista: Cláudio de Moura Castro).


"Produzir tecnologia custa caro, começando com investimentos em educação e pesquisa por várias décadas. Quando dá certo, o valor do que foi gasto é ínfimo, comparado com o das vendas geradas"


De onde seria a orquestra tão afinada? Pensamos que só podia ser da cidade de São Paulo, pois do interior não sairiam tantos violinistas. Mas o mestre-de-cerimônias desfez nosso desdém pelo interior. Era de Tatuí, onde em 1951 foi criada uma escola de música para crianças e jovens. Manejada com tenacidade e competência, é hoje a maior da América Latina. Foi merecido o convite da Embraer para tocar na solenidade em que foi apresentado ao presidente da República o seu novo jato, o EMB 190.


Coincidência ou não, havia um paralelismo entre a Embraer e a Orquestra de Tatuí. Ambas foram o fruto de um longo ciclo de maturação. A Embraer começa com o projeto de Casimiro Montenegro, desembocando na criação do ITA, em 1950. Fazer aviões, em vez de importá-los, era o seu sonho. Mais adiante, Ozires Silva materializa o sonho, criando a Embraer, hoje privatizada e sob a batuta de Maurício Botelho.


Suponhamos que o ITA não houvesse formado tantos líderes da indústria eletrônica, informática e bélica. Seu único impacto teria sido a criação da Embraer. Poderíamos perguntar se as vendas de aviões financiariam o orçamento que a nação nele investiu. Fazendo cálculos aproximados, encontramos que o ITA de hoje poderia ser financiado por 88 anos só com o valor líquido das exportações de 2000.


Lá pela década de 50, as fundações Ford e Rockefeller começaram a enviar aos Estados Unidos brasileiros para pós-graduação em ciências agrárias. Capes e CNPq dão continuidade ao programa. Em 1973, as primeiras levas de graduados permitiram criar a Embrapa, para pesquisar e desenvolver novas sementes e técnicas agropecuárias. Grande parte do sucesso da nossa agricultura não teria sido possível sem a Embrapa. Citemos apenas a pesquisa de tropicalização da soja, antes inviável em baixas latitudes.


Suponhamos que a Embrapa não houvesse revolucionado o agribusiness, ficando apenas na soja. A última colheita valeu 30 bilhões de dólares. Por quanto tempo tal montante financiaria a Embrapa? Como seu orçamento anual é de 278 milhões de dólares, haveria recursos para que operasse por 109 anos.


Mas por que levaram cinquenta anos para dar frutos? Estamos falando do ciclo produtivo da tecnologia, não da produção. Para abrir uma fábrica de semicondutores na Costa Rica, a Intel não precisou de mais que alguns meses, pois é apenas fabricação. O Brasil e muitos outros países também sabem fabricar.


O ciclo que começa na ciência e tecnologia, acabando na venda do produto, corresponde ao maior desafio de todos. Pouquíssimos países com o nível de renda do Brasil conseguem produzir ciência. Ainda menos países dão a volta por cima da tecnologia. É o mais difícil.


É o patamar de cima do desenvolvimento. É onde se separam os que sabem apenas fazer dos pouquíssimos que sabem inovar e fazer o que ainda não foi feito. Nesse patamar, tudo é árduo. E, como vimos nos exemplos (poderíamos também citar a Petrobrás), o ciclo leva cinquenta anos. Além disso, é caro.


A continuidade é vital, pois basta um só tropeço para morrer na praia, como aconteceu muitas vezes. Por exemplo, na área nuclear, gastamos muito, mas houve descontinuidades. É grande o número de empresas e iniciativas que falharam por um tropeço momentâneo ou porque a sociedade não entendeu sua vulnerabilidade. A própria Embraer já esteve por um triz. A Embrapa sofre hoje com incertezas orçamentárias e com a infiltração sindical nos quadros administrativos. Como dizia Zeferino Vaz, quando a política entra pela porta, a ciência sai pela janela.


As lições do sucesso da Embrapa e da Embraer são claras. Produzir tecnologia custa caro, começando com investimentos em educação e pesquisa por várias décadas. A descontinuidade é fatal. Não obstante, é um caminho diferente e melhor do que a repetição da rotina ou a compra da tecnologia desenvolvida alhures. Quando dá certo, o valor do que foi gasto é ínfimo, comparado com o das vendas geradas. A tecnologia separa os melhores do resto da tropa, obrigada a viver com as migalhas deixadas por quem domina a sua geração.


Cláudio de Moura Castro é economista (Ex - Diretor da CAPES)


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"O problema do Brasil é o Brasil"

J.R. Guzzo.


"O ATUAL GOVERNO BRASILEIRO NÃO TEM NENHUM TIPO DE PROBLEMA COM A OPOSIÇÃO, no Congresso, nos estados ou em qualquer outro lugar; como todo mundo sabe há muito tempo, não existe oposição no Brasil. Não tem, obviamente, dificuldades com a situação econômica internacional. Em vez de fatores que poderiam estar bloqueando o desempenho da economia brasileira, o que se verifica lá fora é justamente o contrário: uma combinação de condições e circunstâncias que só nos tem ajudado e que, na verdade, responde diretamente pela maior parte do crescimento do PIB registrado no último ano.


O governo brasileiro não tem de fazer frente no momento a nenhuma sucessão de catástrofes naturais, nem teve de fazê-lo no passado próximo (ou remoto); não gasta 1 real com terremotos, erupção de vulcões, praga de gafanhotos ou peste negra, e nem, como deveria, com as secas ocasionais e as enchentes de todos os anos. Não há por aqui sinais de guerra civil, movimentos de insurreição nas ruas, brigas étnicas, de religião ou de língua. Não há problemas de escassez, sejam eles de alimentos, petróleo, minérios, água, energia. Não há, enfim, nada daquilo que em geral faz o ato de governar um desafio para o qual se exigem os talentos de um estadista de primeira classe.


O único problema sério do Brasil é o Brasil mesmo - ou melhor, a maneira pela qual o poder público foi se desorganizando, ao longo dos anos, até chegar ao estado de degeneração maligna em que vive hoje. E daí que vem, de uma forma ou de outra, a maior parte das dificuldades que o país encontra para produzir, criar riquezas, crescer, empregar gente, gerar renda, investir, poupar, distribuir os benefícios da prosperidade - e, naturalmente, os problemas que derivam disso tudo.


Na sua última edição, EXAME publicou uma reportagem de capa com uma exposição detalhada e objetiva da situação de insanidade que o Estado foi criando, cumulativamente, para a economia brasileira com a construção, passo a passo, de um sistema fiscal suicida, regulamentos que bloqueiam a produção, normas burocráticas incompreensíveis, e assim por diante. Criam-se e são mantidas disposições que negam ao Brasil condições elementares de competitividade. Produzir torna-se uma tarefa cada vez mais cara. O trabalho não é recompensado. A inação imposta pela desordem administrativa retarda, encarece ou simplesmente impede o desenvolvimento da infraestrutura - e, quanto mais carente ela é, maiores são as barreiras para a operação eficaz da economia. A máquina pública, em grande parte, fugiu ao controle dos governantes. Mais que tudo, talvez, essa anarquia é um insulto à inteligência. Ela se instalou e sobrevive sob a responsabilidade do governo - mas, perversamente, os resultados que gera não são os que o governo quer. Na maior parte das vezes, aliás, esses resultados são justamente o contrário dos que o governo gostaria de obter.


A reportagem mencionada acima contém, no fundo, um programa de governo - se conseguisse resolver metade das questões ali expostas, não mais que isso, a administração da presidente Dilma Rousseff entraria para a história como a autora de uma verdadeira revolução na lógica e na eficiência do aparelho público no Brasil. Faria muito mais, só aí, que a soma de todos os projetos estratégicos, planos estruturantes e bulas ideológicas atualmente à disposição de seu governo. Mas quem conseguiria chegar lá? A mera enumeração das aberrações impostas pelo Estado à economia nacional é um atestado de quanto o Palácio do Planalto, suas dezenas de ministérios e o restante do governo são impotentes diante de uma máquina burocrática que toma as decisões reais, não obedece nem presta contas a ninguém e torna-se a cada dia mais desvinculada dos seus chefes, do público que a sustenta e dos interesses do país.


O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com seus 85% de popularidade, não conseguiu nada contra ela. Quis encarar o bicho, foi ignorado e desistiu de qualquer valentia."


Publicada em 18/03/2011 pela Revista Exame.


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Sou um fora da lei
Fui multado por pagar escola para os meus funcionários.


Descobrir mais um desses absurdos que só servem para atrasar a vida das pessoas que tocam este país: investir em educação é contra a lei. Vocês não acreditam? Minha empresa, a Geremia, tem 25 anos e fabrica equipamentos para extração de petróleo, um ramo que exige tecnologia de ponta e muita pesquisa. Disputamos cada pedacinho do mercado com países fortes, como os Estados Unidos e o Canadá. Só dá para ser competitivo se eu tiver pessoas qualificadas trabalhando comigo. Com essa preocupação criei, em 1988, um programa que custeia a educação em todos os níveis para qualquer funcionário, seja ele um varredor ou um técnico.


Em 1996 um fiscal do INSS visitou a empresa e entendeu que educação é salário indireto. Exigiu o recolhimento da contribuição social sobre os valores que pagamos aos estabelecimentos de ensino frequentados por nossos funcionários, acrescidos de juros de mora e multa pelo não recolhimento ao INSS. Tinha que pagar 26.000 reais à Previdência por promover a educação dos meus funcionários? Eu acho que não. Por isso recorri à Justiça. Não é pelo valor, é porque acho essa tributação um atentado. Fiquei revoltado. Vou continuar não recolhendo um centavo ao INSS, mesmo que eu seja multado 1.000 vezes.


O Estado brasileiro está falido. Mais da metade das crianças que iniciam a 1ª série não conclui o ciclo básico. A Constituição diz que educação é direito do cidadão e dever do Estado. E quem é o Estado? Somos todos nós. Se a União não tem recursos e eu tenho, eu acho que devo pagar a escola dos meus funcionários. Tudo bem, não estou cobrando nada do Estado. Mas também não aceito que o Estado me penalize por fazer o que ele não faz. Se a moda pega, empresas que proporcionam cada vez mais benefícios vão recuar.


Não temos mais tempo a perder. As leis retrógradas, ultrapassadas e em total descompasso com a realidade devem ser revogadas. A legislação e a mentalidade dos nossos homens públicos devem adequar-se aos novos tempos. Por favor, deixem quem está fazendo alguma coisa trabalhar em paz. Vão cobrar de quem desvia dinheiro, de quem sonega impostos, de quem rouba a Previdência, de quem contrata mão de obra fria, sem registro algum.


Sou filho de família pobre, de pequenos agricultores, e não tive muito estudo.


Completei o 1º grau aos 22 anos e, com dinheiro ganho no meu primeiro emprego, numa indústria de Bento Gonçalves, na serra gaúcha, paguei uma escola técnica de eletromecânica. Cheguei a fazer vestibular e entrar na faculdade, mas nunca terminei o curso de Engenharia Mecânica por falta de tempo. Eu precisava fazer minha empresa crescer. Até hoje me emociono quando vejo alguém se formar. Quis fazer com meus empregados o que gostaria que tivessem feito comigo. A cada ano cresce o valor que invisto em educação porque muitos funcionários já estão chegando à Universidade.


O fiscal do INSS acredita que estou sujeito a ações judiciais. Segundo ele, algum empregado que não receba os valores para educação poderá reclamar uma equiparação salarial com o colega que recebe. Nunca, desde que existe o programa, um funcionário meu entrou na Justiça. Todos sabem que estudar é uma opção daqueles que têm vontade de crescer. E quem tem esse sonho pode realizá-lo porque a empresa oferece essa oportunidade. O empregado pode estudar o que quiser, mesmo que seja Filosofia, que não teria qualquer aproveitamento prático na Geremia. No mínimo, ele trabalhará mais feliz.


Meu sonho de consumo sempre foi uma Mercedes-Benz. Adiei sua realização várias vezes porque, como cidadão consciente do meu dever social, quis usar meu dinheiro para fazer alguma coisa pelos meus 280 empregados. Com os valores que gastei no ano passado na educação deles, eu poderia ter comprado duas Mercedes. Teria mandado dinheiro para fora do país e não estaria me incomodando com leis absurdas.


Mas não consigo fazer isso. Sou um teimoso.


No momento em que o modelo de Estado que faz tudo está sendo questionado, cabe uma outra pergunta. Quem vai fazer no seu lugar? Até agora, tem sido a iniciativa privada. Não conheço, felizmente, muitas empresas que tenham recebido o tratamento que a Geremia recebeu da Previdência por fazer o que é dever do Estado. As que foram punidas preferiram se calar e, simplesmente, abandonar seus programas educacionais. Com esse alerta temo desestimular os que ainda não pagam os estudos de seus funcionários. Não é o meu objetivo. Eu, pelo menos, continuarei ousando ser empresário, a despeito de eventuais crises, e não vou parar de investir no meu patrimônio mais precioso: as pessoas. Eu sou mesmo teimoso.


*Silvino Geremia é empresário em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul Publicado na Revista Exame – 1996


A lei e os fora-da-lei
A indignação do empresário Silvino Geremia é justa, mas a Previdência não deve fazer assistência social


Tenho repetido exaustivamente que a Previdência Social é um seguro social. Parece óbvio, mas no Brasil a lógica cedeu lugar por décadas à crença de que a Previdência Social é quem deve incentivar atividades essenciais ao desenvolvimento do país.


Culturalmente, aceitamos que ela exerça essa função e sequer questionamos se as fontes são suficientes para cobrir tanta responsabilidade. Foi preciso todo o sistema estar à beira de um colapso para que essa distorção ficasse explícita.


Dentro da doutrina universal, a função de incentivar a expansão de áreas como educação, saúde, abastecimento, habitação e tantas outras não deve ser através de desconto da Previdência Social. No entanto, vejo sempre ser atribuída a ela parte dessa responsabilidade. Assim, compreendo que o empresário gaúcho Silvino Geremia, que recentemente defendeu, na seção Opinião de EXAME, que o incentivo à educação não é salário, fique indignado diante da obrigatoriedade de sua empresa recolher ao INSS a contribuição social sobre os valores pagos aos estabelecimentos de ensino frequentados por seus funcionários.


A atitude do empresário em anunciar publicamente que manterá sua prática, ainda que muitas vezes seja multado, é digna de respeito. A lei, ao disciplinar a matéria, o fez supostamente com razões fundadas. Pode, é claro, ter ficado superada pelo tempo. A CLT, em sintonia com a convenção 95 da OIT, da qual o Brasil é membro, admite composição variável para o salário, respeitando o limite mínimo de 30% em dinheiro e o restante nas mais variadas formas de utilidades e serviços colocados à disposição do trabalhador.


A lei permite o pagamento em outras modalidades que não em dinheiro. Casos bem conhecidos são o vale-refeição, o vale-transporte, a moradia, mas também são aceitos vestuário, cesta básica e outros. Algumas dessas formas a lei isentou de contribuição previdenciária, outras não. Se todas ficassem isentas, a Previdência poderia enfrentar problemas financeiros maiores que os que já encontra.


Também sinto indignação como administrador público ao saber que os governos e os legisladores conduziram o sistema sem definir os recursos necessários à sua manutenção. Prova disso é que as leis foram elaboradas no sentido de criar e conceder benefícios, mas não estabeleceram adequadamente quem pagaria a conta.


As entidades filantrópicas, por exemplo, estão isentas de contribuição, mas os seus 600.000 funcionários têm direito aos benefícios previdenciários. Há ainda os clubes de futebol, que contribuem desde 1993 com apenas 5% da renda dos jogos. Vários clubes estão sem contribuir há 3 anos porque não realizam jogos - ainda que a principal fonte de renda dos clubes, atualmente, esteja vinculada ao patrocínio e aos direitos de transmissão por TV.


A Previdência Social existe para atender à pessoa que perde a capacidade de trabalho por doença, invalidez, morte ou idade avançada. Até essa regra elementar é ignorada no caso do Brasil, onde a aposentadoria é encarada como renda adicional: as pessoas acham normal se aposentar na faixa dos 40 aos 50 anos e voltam a trabalhar. Não seria correto trabalhar mais e se aposentar melhor?


As distorções são inúmeras. No sistema brasileiro, introduziu-se o conceito de tempo de serviço com todas as vantagens fictícias, principalmente nos regimes especiais. No setor público é comum as pessoas se aposentarem aos 40 anos; em alguns casos, até a partir dos 37 anos.
A Previdência Social é um seguro social profundamente injusto. Aqueles que a custeiam não são os que se aposentam cedo, por tempo de serviço, e com renda mais alta. O ônus recai sobre os que se aposentam mais tarde, por idade, e ganham menos. Será que essa injustiça também não indigna nossa sociedade?


A grande maioria dos trabalhadores rurais não contribuiu com a Previdência, mas tem seus direitos assegurados constitucionalmente. Trata-se de um custo que está sendo assumido pelo contribuinte que pagou para se aposentar em faixa mais elevada, o que não consegue.


Os absurdos que cercam a Previdência hoje são legais, mas mesmo alterando a legislação é necessário ocorrer também uma reforma de valores, baseada na realidade e na justiça. São elogiáveis atitudes como as do empresário Silvino Geremia - tanto a de custear educação para seus funcionários quanto a de denunciar uma situação que lhe parece absurda. Acredito, entretanto, que a insurreição do empresário, ou sua justa indignação, uma vez acolhidos por ele os esclarecimentos aqui apresentados, possa servir como valioso instrumento para disseminar a compreensão sobre onde devem realmente incidir os benefícios sociais da isenção. Se generalizado o entendimento de que a Previdência deve arcar com todos esses ônus, estou certo de que ela se extinguiria.


Reinhold Stephanes, 57 anos, foi ministro da Previdência.


Um imposto a menos

Kei Marcos Tanaami, da EXAME


Ontem - Um empresário conclui que sua empresa só será mais competitiva se o nível de educação de seus empregados for aumentado (alguma novidade?). Ele decide custear o ensino de seu pessoal. Vem um fiscal do INSS e tasca-lhe uma multa. Por quê? Porque os gastos com a educação de funcionários eram considerados remuneração indireta pela lei. E, como tal, deveriam ser somados ao salário de cada um para efeito de cálculo da contribuição social devida ao INSS. Essa foi a situação vivida pelo empresário Silvino Geremia, de São Leopoldo, Rio Grande do Sul. Ele a denunciou num artigo escrito para EXAME, publicado como Opinião da edição de 25 de setembro de 1996 com o título "Sou um fora-da-lei". Para Geremia, a situação era um absurdo num país que exibe enorme deficiência no campo da educação. "Essa tributação é um atentado", dizia. "Vou continuar não recolhendo nem um centavo ao INSS, nem que seja multado mil vezes".


Hoje - Não precisou. Silvino Geremia não é mais um fora-da-lei. De acordo com a Lei nº 9528, de 10 de dezembro de 1.997, os valores despendidos com a instrução dos funcionários não são mais levados em conta para o cálculo da contribuição social. "Essa nova lei representa uma das maiores obras sociais do governo", diz Geremia. "É um marco na história do país." Para ter acesso à isenção, no entanto, a empresa deve estender o benefício a todos os empregados, indistintamente. "Deixamos de desestimular os empresários a investir em algo tão importante como a educação", diz o ministro da Previdência, Reinhold Stephanes. "O artigo de Silvino Geremia foi a gota dágua para que se procedesse à mudança." Valeu, Geremia.


Silvino Geremia é o empresário mais lembrado pelos leopoldenses.


Silvino GeremiaO Diretor de Mercado e Desenvolvimento da HIGRA, Silvino Geremia, ganhou o Prêmio Jornal VS de Profissionais. O reconhecimento, promovido por um dos principais veículos de comunicação da região do Vale do Sinos, foi feito por meio de votação espontânea junto à comunidade e destacou 14 áreas. Geremia foi o mais lembrado pelos leopoldenses como empresário. ‘’Fiquei realmente surpreso e muito orgulhoso quando soube. Estou ainda emocionado e agradecido a todos os que votaram em mim. Muito obrigado’’, diz ele.


Contudo, entre tantos que o admiram e conhecem sua luta para melhorar São Leopoldo, poucos são os que sabem que, na verdade, sua cidade natal é outra. Foi apenas aos 12 anos que Geremia conheceu São Leopoldo, quando ajudava o pai a vender frutas. Natural de Farroupilha, o encantamento com o município foi imediato e, à época, talvez nem ele imaginasse que no futuro era aqui que se destacaria como profissional e viveria com a família. Hoje, aos 75 anos, quem com ele convive pode compartilhar um pouco de seu entusiasmo e entender o porque foi reconhecido perante a comunidade leopoldense. Sem dúvida, ainda carrega a simplicidade do vendedor de frutas e o ânimo contagiante de quem sabe o esforço que lhe foi exigido para ocupar a posição em que hoje se encontra.


Assim, passado mais de meio século após conhecer e admirar São Leopoldo, hoje Silvino Geremia leva o nome da cidade que adotou para todos os cantos do mundo por meio da HIGRA, empresa referência mundial no segmento de bombas anfíbias e aeradores submersos com base no bairro Arroio da Manteiga.


Conheça um pouco mais sobre ele.


Entrevista/Silvino Geremia

“Mesmo eu sendo de origem humilde e de outra cultura, que é a italiana, sempre fui muito bem recebido pela comunidade de São Leopoldo.”


Com que idade e por que veio para São Leopoldo?
Quando eu tinha 12 anos conheci São Leopoldo vendendo frutas com meu saudoso pai. Eu achava São Leopoldo uma cidade linda e muito industrializada, com muitas chances de crescer profissionalmente. Meu sonho era morar aqui. E o desejo se tornou realidade! Eu queria fazer um curso técnico em mecânica ou em eletricidade e aqui existia um colégio que tinha os dois cursos integrados, a Escola Técnica Estadual Frederico Guilherme Schmidt. Foi então que, com 25 anos, me mudei para São Leopoldo e consegui entrar no colégio.


Como começou sua vida profissional? Conte um pouco de sua trajetória até hoje, como Diretor de Mercado e Desenvolvimento da HIGRA.
Eu já havia trabalhado em uma fábrica de bombas em Bento Gonçalves e em outras duas em Esteio e me destaquei nas três, rapidamente cresci dentro delas Foi então que convidei meu irmão, Ivo Geremia, que também tinha trabalhado na mesma fábrica em Bento Gonçalves, para montarmos uma microempresa em Esteio: a Irmãos Geremia Ltda., mais tarde conhecida como Bombas Geremia. Um ano depois, nos mudamos para São Leopoldo para aproveitar a criação do Distrito Industrial. A empresa teve um crescimento rápido, mas o maior crescimento ocorreu quando entramos no mercado do petróleo, junto à Petrobras, e no mercado internacional, junto aos principais países produtores de petróleo. Vinte e cinco anos depois, em função do grande sucesso, um grupo adquiriu 100% das cotas da Irmão Geremia. Foi então que, no dia 30 de outubro de 2000, a Higra Industrial Ltda. foi criada, junto com meus dois filhos: Alexsandro e Lisiane.Também faz parte do quadro social da Higra o ex-gerente industrial da Bombas Geremia, Dilceu Elias de Moura, que tinha ocupado o cargo durante 20 anos.


Em dez anos de HIGRA, qual a avaliação?
Muito boa. A empresa está completando uma década com um forte crescimento, que é de mais de 30% ao ano, e estamos com um projeto já aprovado no BNDES para triplicar a produção nos próximos três anos.


O senhor esperava ter seu nome citado entre os três empresários mais lembrados pela comunidade leopoldense?
Com certeza não, fiquei realmente surpreso e muito orgulhoso quando soube. Ainda mais por ser um prêmio dado por um veiculo de comunicação da seriedade do VS e ainda mais na forma como foi, uma eleição democrática com a votação dos leitores do jornal. Quero aproveitar para agradecer a todos os leitores que votaram em mim. Este é um prêmio que, acima de tudo, exige muita responsabilidade para cada vez trabalharmos mais, tanto na empresa, quanto para o desenvolvimento sustentável da comunidade.


Há tantos anos no mercado, qual a importância de ter este reconhecimento em sua cidade?
Sinceramente eu tenho dificuldades em definir a importância. Como eu disse, não esperava, e acho que a ficha ainda não caiu completamente. Estou ainda emocionado e agradecido a todos os que votaram em mim. Mesmo eu sendo de origem humilde e de outra cultura, que é a italiana, sempre fui muito bem recebido pela comunidade de São Leopoldo.


O senhor disse, à reportagem do Jornal VS, que gostaria de ter cursado uma universidade. Acha que não ter uma formação influenciou, de alguma forma, em sua ascensão como empresário?
Eu sempre achei que não adianta ter dois ou mais cursos superiores, ou ter tirado notas máximas, se ficarmos sentados sobre elas. As coisas não caem do céu para ninguém. O que temos que fazer é ir à luta e nunca baixar a guarda. Lógico, se tivesse tido mais formação, talvez tivesse sido melhor, mas como não tive este privilégio, procurei me superar trabalhando mais.


Na sua avaliação, quais as características fundamentais para um empresário ter sucesso?
Primeiramente muito trabalho e procurar trabalhar com pessoas motivadas e ambiciosas, que querem crescer. Deve-se eliminar do quadro funcional pessoas gananciosas, que só visam o interesse próprio. Devemos procurar nos aconselhar sempre com aqueles que tiveram sucesso no que fizeram, procurar trabalhar na relação ganha- ganha: ganha a empresa, ganha o fornecedor, ganha o trabalhador e ganha o cliente. E isto é possível se tivermos a noção que todos têm importância no processo e que o principal é sempre o cliente. Outro ponto muito importante é saber que o patrimônio maior numa empresa não são os prédios e as maquinas, e sim as pessoas que trabalham nela e a marca da empresa. É essa que detém o mercado, onde devemos dirigir a maior atenção e investimento.


Entre tantas conquistas profissionais, ainda há algo para realizar?
Quando eu olho para trás, vejo que muito já realizei e, felizmente, sempre com muito sucesso, porque sou focado naquilo que faço. Porém, quando olho para frente, parece que não fiz nada e tenho ainda muito para fazer. Os negócios nas empresas são muito dinâmicos e, o que hoje serve, amanhã não serve mais. Então, se não nos mantivermos constantemente atualizados, mesmo com muita experiência, vamos naufragar.


Em tempos onde os grandes empresários poucos se envolvem com causas que não são suas, o senhor procura apoiar as causas da cidade, como o Instituto São Leopoldo 2024 e o Clube Esportivo Aimoré. Por que este envolvimento?
Primeiramente nós temos que ter a noção de que é na comunidade que nossa empresa esta inserida, é nela que nós e nossos funcionários vivemos com nossas famílias. Se a comunidade estiver bem, a empresa tem mais possibilidade de se dar bem. Outro ponto é fazer uma política de boa vizinhança. Devemos fazer com que as pessoas que vivem perto dela gostem também da empresa e não tenham nenhuma rejeição. Com o apoio ao Instituto SL 2024, esperamos colaborar para deixar uma São Leolpoldo melhor para as novas gerações.


No Esporte Clube Aimoré, foi lá que tive a honra de conhecer o saudoso João Correia da Silveira, que era uma pessoa incrível. Ele estava adiantado no tempo e tinha a clara noção do quanto era importante ter a marca Amapá associada ao Aimoré. O Aimoré levou e ainda leva o nome da cidade para muito longe, para lugares que ninguém imagina. Muitas vezes, quando viajo para locais muito distantes, ainda me perguntam o que aconteceu com o Aimoré. Acredito que ainda podemos fazer com que o clube da nossa cidade tenha sucesso, assim como a Higra está tendo.


O senhor possui uma equipe qualificada que lhe auxilia na HIGRA. Qual o seu papel na empresa? Pensa em, algum dia, aposentar-se?
Eu já tentei me aposentar por duas vezes, uma pela previdência e outra quando vendi a Bombas Geremia. Confesso que a experiência foi péssima, não consegui me adaptar, pelo simples fato que eu adoro aquilo que faço. Sem isto eu me sinto um Zé ninguém. Portanto, eu pretendo trabalhar enquanto eu puder, independente de ganhar ou não dinheiro. A diferença é que hoje procuro tirar mais tempo pra mim, para meu lazer. Gosto muito de viajar! E viajar, no meu caso, é sempre muito produtivo, porque é viajando que surgem minhas inspirações. Eu também trabalho mais na empresa como um consultor e estou passando meus conhecimentos adquiridos em 40 anos de experiência para meu filho Alexsandro e outros jovens que trabalham conosco.


Se pudesse lhe definir em algumas palavras, quais seriam?
Muito trabalho, prazer naquilo que faço, foco, organizado e perfeccionista com meus compromissos. Gosto de valorizar as pessoas pelo que elas são. Também sou ambicioso, mas não pelo dinheiro, mas sim como profissional.


A HIGRA tem como marca a sustentabilidade. De que forma o senhor aplica isto na sua vida profissional e pessoal?
Em tudo aquilo que faço. Sustentabilidade não é só meio ambiente. Tudo o que fizemos durante a vida tem que ser sustentável. Isto é, no trabalho, na política, na sociedade, na comunidade, no dia a dia. Acredito que tudo o que fizermos sem ela nos deixará sem rumo, sem segurança e sem objetivos e, cedo ou tarde, vamos ter que pagar a conta. Às vezes, a conta pode ser muito alta e pode nos levar ao naufrágio.


Como vê a sustentabilidade, em seus mais variados conceitos, nos próximos anos?
Possui uma visão otimista quanto ao futuro?

Eu sou um otimista por natureza. Infelizmente, o homem aprende diante das dificuldades e das catástrofes. Nós estamos assistindo à revolta da natureza com enchentes e furacões. Então, eu digo para todos e para quem questiona que, é só dar mais um ou dois Katrina, que também os americanos, resistentes as ações dos ecologistas, irão se mexer. Hoje vejo que eles também já estão preocupados e se mexendo. Isto é muito importante e atualmente a palavra sustentabilidade esta em toda a parte do mundo. A Higra esta com um trabalho pioneiro no Rio Grande do Sul, já reconhecido, e acho que este é um caminho que todos devem seguir.


Com que tipos de pessoas gosta de trabalhar? O que diria para quem se espelha em pessoas como o senhor e almeja um futuro de sucesso como empresário?


Silvino GeremiaEm primeiro lugar, acredito que a pessoa deve procurar um ramo no qual tenha domínio, também deve procurar trabalhar com pessoas ambiciosas e que queiram crescer. Além disso, procurar aconselhar-se sempre com quem teve sucesso e deu certo, não misturar dinheiro particular com o da empresa, eliminar pessoas gananciosas que só visam o interesse próprio, ter foco total na empresa e no negócio e ter a clara visão que três são os pontos principais: a marca, o mercado e o cliente.






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ISTOÉ Entrevista

N° Edição: 1879 - Camilo Vannuchi
Roberto Shinyashiki
"Cuidado com os burros motivados"


Em Heróis de verdade, o escritor combate a supervalorização da aparência e diz que falta ao Brasil competência, e não autoestima.


Observador contumaz das manias humanas, Roberto Shinyashiki está cansado dos jogos de aparência que tomaram conta das corporações e das famílias. Nas entrevistas de emprego, por exemplo, os candidatos repetem o que imaginam que deve ser dito. Num teatro constante, são todos felizes, motivados, corretos, embora muitas vezes pequem na competência. Dizem-se perfeccionistas: ninguém comete falhas, ninguém erra. Como Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa) em Poema em linha reta, o psiquiatra não compartilha da síndrome de super-heróis.


“Nunca conheci quem tivesse levado porrada na vida (...) Toda a gente que eu conheço e que fala comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, nunca foi senão príncipe”, dizem os versos que o inspiraram a escrever Heróis de verdade (Editora Gente, 168 págs., R$ 25). Farto de semideuses, Roberto Shinyashiki faz soar seu alerta por uma mudança de atitude. “O mundo precisa de pessoas mais simples e verdadeiras.”


Istoé - Quem são os heróis de verdade?
Roberto Shinyashiki
- Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoa de sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro importado, viajar de primeira classe. O mundo define que poucas pessoas deram certo. Isso é uma loucura. Para cada diretor de empresa, há milhares de funcionários que não chegaram a ser gerentes. E essas pessoas são tratadas como uma multidão de fracassados. Quando olha para a própria vida, a maioria se convence de que não valeu a pena porque não conseguiu ter o carro nem a casa maravilhosa. Para mim, é importante que o filho da moça que trabalha na minha casa possa se orgulhar da mãe. O mundo precisa de pessoas mais simples e transparentes. Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar os outros. São pessoas que sabem pedir desculpas e admitir que erraram.


Istoé - O sr. citaria exemplos?
Roberto Shinyashiki
- Dona Zilda Arns, que não ia a determinados programas de tevê nem aparecia de Cartier, mas estava salvando milhões de pessoas. Quando eu nasci, minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão aos sete anos, empregado em uma farmácia. Morávamos em um bairro miserável em São Vicente (SP) chamado Vila Margarida. Eles são meus heróis. Conseguiram criar seus quatro filhos, que hoje estão bem. Acho lindo quando o Cafu põe uma camisa em que está escrito “100% Jardim Irene”. É pena que a maior parte das pessoas esconda suas raízes. O resultado é um mundo vítima da depressão, doença que acomete hoje 10% da população americana. Em países como Japão, Suécia e Noruega, há mais suicídio do que homicídio. Por que tanta gente se mata? Parte da culpa está na depressão das aparências, que acomete a mulher que, embora não ame mais o marido, mantém o casamento, ou o homem que passa décadas em um emprego que não o faz se sentir realizado, mas o faz se sentir seguro.


Istoé - Qual o resultado disso?
Roberto Shinyashiki
- Paranoia e depressão cada vez mais precoces. O pai quer preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês, informática e mandarim. Aos nove ou dez anos a depressão aparece. A única coisa que prepara uma criança para o futuro é ela poder ser criança. Com a desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos dos pais estão roubando a infância dos filhos. Essas crianças serão adultos inseguros e terão discursos hipócritas. Aliás, a hipocrisia já predomina no mundo corporativo.


Istoé - Por quê?
Roberto Shinyashiki
- O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo de recrutamento. É contratado o sujeito com mais marketing pessoal. As corporações valorizam mais a autoestima do que a competência. Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras. Disse que ela não parecia demonstrar interesse. Ela me respondeu estar muito interessada, mas, como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho dela, e não a conversa. Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade, e não de relações públicas. Contratei na hora. Num processo clássico de seleção, ela não passaria da primeira etapa.


Istoé - Há um script estabelecido?
Roberto Shinyashiki
- Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um presidente de multinacional no programa O aprendiz? “Qual é seu defeito?” Todos respondem que o defeito é não pensar na vida pessoal: “Eu mergulho de cabeça na empresa. Preciso aprender a relaxar.” É exatamente o que o chefe quer escutar. Por que você acha que nunca alguém respondeu ser desorganizado ou esquecido? É contratado quem é bom em conversar, em fingir. Da mesma forma, na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder. O vice-presidente de uma das maiores empresas do planeta me disse: “Sabe, Roberto, ninguém chega à vice-presidência sem mentir.” Isso significa que quem fala a verdade não chega a diretor?


Istoé - Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas?
Roberto Shinyashiki
- Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento. Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência. Cuidado com os burros motivados. Há muita gente motivada fazendo besteira. Não adianta você assumir uma função para a qual não está preparado. Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão. Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso para o qual eu não estava preparado. Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia. O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.


Istoé - Está sobrando autoestima?
Roberto Shinyashiki
- Falta às pessoas a verdadeira autoestima. Se eu preciso que os outros digam que sou o melhor, minha autoestima está baixa. Antes, o ter conseguia substituir o ser. O cara mal-educado dava uma gorjeta alta para conquistar o respeito do garçom. Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer. As pessoas parecem que sabem, parece que fazem, parece que acreditam. E poucos são humildes para confessar que não sabem. Há muitas mulheres solitárias no Brasil que preferem dizer que é melhor assim. Embora a autoestima esteja baixa, fazem pose de que está tudo bem.


Istoé - Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos perfeitos em tudo e de valorizar a aparência?
Roberto Shinyashiki
- Isso vem do vazio que sentimos. A gente continua valorizando os heróis. Quem vai salvar o Brasil? O Lula. Quem vai salvar o time? O técnico. Quem vai salvar meu casamento? O terapeuta. O problema é que eles não vão salvar nada! Tive um professor de filosofia que dizia: “Quando você quiser entender a essência do ser humano, imagine a rainha Elizabeth com uma crise de diarreia durante um jantar no Palácio de Buckingham.” Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também tem diarreia. Ela certamente já teve dor de dente, já chorou de tristeza, já fez coisas que não deram certo. A gente tem de parar de procurar super-heróis. Porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo o considera um fracassado.


Istoé - O conceito muda quando a expectativa não se comprova?
Roberto Shinyashiki
- Exatamente. A gente não é super-herói nem super fracassado. A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza. Não há nada de errado nisso. Hoje, as pessoas estão questionando o Lula em parte porque acreditavam que ele fosse mudar suas vidas e se decepcionaram. A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade pela própria vida é delas.


Istoé - É comum colocar a culpa nos outros?
Roberto Shinyashiki
– Sim. Há uma tendência a reclamar, dar desculpas e acusar alguém. Eu vejo as pessoas escondendo suas humanidades. Todas as empresas definem uma meta de crescimento no começo do ano. O presidente estabelece que a meta é crescer 15%, mas, se perguntar a ele em que está baseada essa expectativa, ele não vai saber responder. Ele estabelece um valor aleatoriamente, os diretores fingem que é factível e os vendedores já partem do princípio de que a meta não será cumprida e passam a buscar explicações para, no final do ano, justificar. A maioria das metas estabelecidas no Brasil não leva em conta a evolução do setor. É uma chutação total.


Istoé - Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?
Roberto Shinyashiki
- Tenho minhas angústias e inseguranças. Mas aceitá-las faz minha vida fluir facilmente. Há várias coisas que eu queria e não consegui. Jogar na Seleção Brasileira, tocar nos Beatles (risos). Meu filho mais velho nasceu com uma doença cerebral e hoje tem 25 anos. Com uma criança especial, eu aprendi que ou eu a amo do jeito que ela é ou vou massacrá-la o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse. Quando olho para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo. O resto foram apostas e erros. Dia desses apostei na edição de um livro que não deu certo. Um amigão me perguntou: “Quem decidiu publicar esse livro?” Eu respondi que tinha sido eu. O erro foi meu. Não preciso mentir.


Istoé - Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência?
Roberto Shinyashiki
- O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas cederem a essa tirania e tentar evitá-las. São três fraquezas. A primeira é precisar de aplauso, a segunda é precisar se sentir amada e a terceira é buscar segurança. Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram. Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo do aluno. Elas ensinam a tocar como o Steve Vai, o B. B. King ou o Keith Richards. Os MBAs têm o mesmo problema: ensinam os alunos a serem covers do Bill Gates. O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades.


Istoé - Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?
Roberto Shinyashiki
- A sociedade quer definir o que é certo. São quatro loucuras da sociedade. A primeira é instituir que todos têm de ter sucesso, como se ele não tivesse significados individuais. A segunda loucura é: “Você tem de estar feliz todos os dias.” A terceira é: “Você tem que comprar tudo o que puder.” O resultado é esse consumismo absurdo. Por fim, a quarta loucura: “Você tem de fazer as coisas do jeito certo.” Jeito certo não existe. Não há um caminho único para se fazer as coisas. As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade. Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito. Tem gente que diz que não será feliz enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento. Você precisa ser feliz tomando sorvete, levando os filhos para brincar.


Istoé - O sr. visita mestres na Índia com frequência. Há alguma parábola que o sr. aprendeu com eles que o ajude a agir?
Roberto Shinyashiki
- Quando era recém-formado em São Paulo, trabalhei em um hospital de pacientes terminais. Todos os dias morriam nove ou dez pacientes. Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte. A maior parte pega o médico pela camisa e diz: “Doutor, não me deixe morrer. Eu me sacrifiquei a vida inteira, agora eu quero ser feliz.” Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada. Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas. Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis. Uma história que aprendi na Índia me ensinou muito. O sujeito fugia de um urso e caiu em um barranco. Conseguiu se pendurar em algumas raízes. O urso tentava pegá-lo. Embaixo, onças pulavam para agarrar seu pé. No maior sufoco, o sujeito olha para o lado e vê um arbusto com um morango. Ele pega o morango, admira sua beleza e o saboreia. Cada vez mais nós temos ursos e onças à nossa volta. Mas é preciso comer os morangos.


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Alinhamento, balanceamento e desonestidade


Há muito tempo venho desconfiando do golpe do alinhamento grátis.


Estive numa loja na W3-Norte (não lembro o nome agora), estava com o folder da propaganda que me dava direito ao “Alinhamento Grátis”. Promoção de inauguração. Como precisava trocar os pneus do carro e com essa oportunidade de Alinhamento Grátis, estacionei o carro e fui logo atendido. Combinado preço dos Pneus, apresentei o folder para logo em seguida colocar o carro no elevador.


Um detalhe: tem o pneu normal e o pneu bom. É mais ou menos assim: um custa R$ 100,00 enquanto o outro R$ 150,00. Você é convencido imediatamente a levar o mais caro.


Trocados os pneus, começou meu martírio, pois o técnico do alinhamento veio me falar que o carro estava desalinhado, com o eixo de convergência a 1 grau a mais do que o normal e que precisava fazer esse trabalho para poder alinhar o carro, além de, segundo ele, estarem todas as rodas empenadas.


Fui até o atendente da loja e, a partir daí, o que era “Grátis” passou a custar R$ 480,00 (isso há 5 anos!).


A pressão é tão grande que você é obrigado a fazer o serviço que lhe “oferecem” ou tem de brigar com os caras, além de ter de carregar o receio do que pode lhe acontecer por não ter feito a manutenção do seu carro.


Não vou detalhar minha situação de 5 anos atrás pois quem assiste TV tem sempre uma chamada do tipo: “qualquer semelhança é pura coincidência.”


Veja o que diz Érika Rodrigues, que assina esse e-mail que está circulando na internet:

email

A semelhança do que aconteceu comigo há 5 anos é total e vem com detalhes que eu não lembrava mais como cáster, cambagem, etc.


Um colega do INCRA responde assim ao email que está circulando:

email

A minha ex-esposa, mês passado me ligou que estava numa dessas lojas no SIA (Setor de Indústria e Abastecimento) ou no Núcleo Bandeirante apavorada, pois comprou os pneus em promoção na condição de fazer o alinhamento no mesmo local. Os pneus parecem que ficaram a R$ 600,00, porém os serviços a R$ 1.100,00.


Expliquei para ela que isso na grande parte não passa de um golpe para tirar dinheiro dos outros e que os alvos principais são os leigos, principalmente as mulheres. Recomendei que não fizesse e que levasse o carro para Paracatu, pois lá seu pai ou seu irmão poderiam cuidar disso para ela.


O assédio foi tão grande que não deu 5 minutos ela ligou de novo, desta vez estava quase chorando, apavorada. Falei para ela, vai lá e diz para colocar o carro no chão e pronto.


Ela comentou depois, já na estrada, que eles ficaram muito irados com a sua decisão de não fazer os serviços.


Vejam, me parece que o problema é geral não é só da Pneuline, esta pode até ser a campeã da desonestidade desse setor, mas muitas outras estão na mesma linha.


Estou certo de que precisamos nos unir e fazermos alguma coisa, pois tem gente por aí trabalhando com honestidade e sendo prejudicada pela ganância e malícia alheias.


Jorge Furtado
www.twitter.com/focabrasil


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Martelada


Um navio carregado de ouro, revestido de todo o cuidado e segurança, atravessava o oceano quando, de repente, o motor enguiçou.


Imediatamente o comandante mandou chamar o técnico do porto mais próximo. Ele trabalhou durante uma semana, porém sem resultados concretos.


Chamaram então o melhor engenheiro naval do país. O engenheiro trabalhou três dias inteiros, sem descanso, mas nada conseguiu o navio continuava enguiçado.


A empresa proprietária do navio mandou então buscar o maior especialista do mundo naquele tipo de motor. Ele chegou, olhou detidamente a casa das máquinas, escutou o barulho do vapor, apalpou a tubulação e, abrindo a sua valise, retirou um pequeno martelo. Deu uma martelada em uma válvula vermelha que estava meio solta e guardou o martelo de volta na valise.


Mandou ligar o motor, e este funcionou na primeira tentativa. Dias depois chegaram as contas ao escritório da empresa de navegação. Por uma semana de trabalho, o técnico cobrou US$700. O engenheiro naval cobrou, por três dias de trabalho, US$900. Já o especialista, por sua vez, cobrou US$10.000 pelo serviço.


Atônito com esta última conta, o Diretor Financeiro da empresa enviou um telegrama ao especialista, perguntando "Como você chegou a esse valor de US$10 mil por cerca de 1 minuto de trabalho e uma única martelada?"


O especialista então enviou os seguintes detalhes do cálculo à empresa:


"Por dar 1 martelada US$1; Por saber onde bater o martelo US$9.999."


Moral da história "O que vale no Universo não é dar a martelada, e sim saber onde bater o martelo. A martelada em si você pode até delegar para outro."


E é por (querer) ignorar isto que muitos subestimam certos tipos de trabalho, que são trivialmente avaliados pelo tempo de duração. "No mundo dos negócios todos são pagos em duas moedas: dinheiro e experiência. Agarre a experiência primeiro, o dinheiro virá depois."


(Harold Geneen)


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