FOCA BRASIL - Fundação Organizacional de Comunidades Autônomas

divisor

O dilema da educação na América Latina

Audiência Pública sobre o cenário atual da educação no RN

Exame da ORDEM

Gestão organizacional e autodesenvolvimento

O fracasso de uma educação

Educação em profunda crise

A Bicicleta e o lápis

A educação é nosso maior desafio

divisor

O dilema da educação na América Latina: submeter-se aos sindicatos de professores ou inspirar-se nos campeões mundiais de excelência educativa?

Polan Lacki e Juan Manuel Zepeda del Valle


Nos países da America Latina existe um crescente consenso de que a baixa qualidade da educação é a principal causa dos nossos problemas e fracassos pessoais, familiares, profissionais, empresariais, governamentais, etc. Direta ou indiretamente, todos estamos sendo afetados pelas debilidades e ineficiências do nosso anacrônico sistema de educação. Entretanto, como sempre acontece,são as grandes massas de pobres as que estão pagando as consequências mais imediatas da insuficiência e inadequação do que lhes ensinaram, ou deixaram de ensinar, seus pais e/ou seus professores. Devido a esta debilidade educativa os pobres vivem permanentemente ameaçados e/ou afetados por desgraças que estão muito próximas aos seus núcleos familiares: subemprego, desemprego, desnutrição, doenças, “favelização”, conflitos familiares, violência, criminalidade, alcoolismo, consumo e tráfico de drogas, etc. Os governos tentam, mas não conseguem, eliminar e nem reduzir estes sofrimentos humanos porque cometem o grave erro de fazê-lo através de efêmeras e excludentes medidas paternalismo-demagógicas; em vez de eliminar a causa das causas que origina e alimenta o nosso subdesenvolvimento: a insuficiência e/ou inadequação dos conhecimentos, das habilidades/aptidões, das atitudes, dos valores e dos princípios éticos que, no momento oportuno, as instituições educativas não lhes proporcionaram.


Necessitamos de uma nova educação que “dês-ensine” e ensine


Nosso sistema de educação ainda não está cumprindo a sua principal função que consiste em desenvolver as potencialidades latentes das crianças e jovens para que eles sejam menos vulneráveis às desgraças recém mencionadas e mais autodependentes na solução dos seus principais problemas cotidianos. Desenvolver estas potencialidades é uma tarefa que a educação escolarizada simplesmente não tem a quem delegar e, consequentemente, deve assumi-la imediatamente, pois se ela não o fizer ninguém o fará. Entre outras, pela elementar razão de que a grande maioria dos pais e mães de família, infelizmente, não está em condições de ensinar aos seus filhos aquilo que a esses mesmos pais ninguém lhes ensinou. É por este importante motivo que o sistema escolar, além de melhorar o ensino dos conteúdos do currículo convencional, deve assumir duas novas atribuições: “dês-ensinar”/corrigir os ensinamentos equivocados que, desde a mais tenra idade, as crianças aprenderam com os seus pais, com os seus vizinhos e através dos perniciosos e destrutivos programas de televisão; e reforçar o componente de atitudes, princípios e valores que a maioria dos pais não teve condições de proporcionar aos seus filhos.


A maioria dos pais de família, conscientes de que, na era do conhecimento, é necessário estudar cada vez mais, faz um grande esforço para que seus filhos concluam a educação fundamental e, se for possível, a de nível médio. No entanto, quando os jovens atingem tal escolaridade e, cheios de esperanças, procuram o seu primeiro emprego surge a grande decepção. Os conhecimentos (insuficientes, disfuncionais, descontextualizados, fragmentados, teóricos e abstratos) que a escola lhes proporcionou, não são aqueles que os potenciais empregadores necessitam encontrar em um bom funcionário. O mercado de trabalho os rechaça porque as escolas não lhes proporcionaram os conhecimentos, tampouco as aptidões e muito menos as atitudes, os valores e os princípios éticos que são necessários para ter um desempenho mais responsável, eficiente e produtivo no trabalho. Diante desta realidade cabe perguntar: para que serviu aumentar as despesas e os esforços, dos governos e dos pais de família, para que os alunos pudessem frequentar a escola durante 9 ou 12 anos? Definitivamente, não podemos continuar iludindo-nos de que estamos educando os alunos para os desafios do presente e do futuro. Sem perda de tempo, necessitamos fazer algo radicalmente diferente do que temos feito até agora.


Por onde iniciar: pela reforma ideal ou pela reforma possível?


Uma reforma educativa viável e eficaz, não necessariamente deverá iniciar nos gabinetes dos ministros da fazenda e de educação aos quais sempre estamos reivindicando altas decisões políticas e recursos adicionais para o sistema educativo.


Ela deverá iniciar nas duas fontes que estão originando a baixa qualidade da nossa educação e, como consequência, impedindo o florescimento das extraordinárias potencialidades de desenvolvimento existentes em nossos países. A primeira fonte está instalada nas faculdades de educação e/ou pedagogia que formam os futuros professores; a segunda, que é consequência direta da primeira, está alojada nas escolas fundamentais. Nestas duas instituições, de extraordinária importância estratégica para o desenvolvimento de cada nação, paradoxalmente, está funcionando o gerador inicial das gravíssimas debilidades e distorções do nosso sistema educativo; e, consequentemente, nelas deverá iniciar a gradual, porém imediata, reconstrução da nossa semi-destruída educação. As melhorias na educação secundária e terciária virão, em boa medida, como consequência do efeito irradiador, das duas reformas prioritárias recém propostas.


Se é tão imprescindível e urgente melhorar a nossa educação, por que não o fazemos?


Entre outros, pelos seguintes obstáculos que, embora sistematicamente subestimados, têm uma altíssima incidência na baixa qualidade da nossa educação. Vários deles poderiam ser evitados e/ou eliminados pelos próprios professores e diretores das unidades escolares:


1º Obstáculo. Os posicionamentos dos líderes sindicais dos professores que estão confundindo as autoridades, os meios de comunicação e a opinião pública, ao apresentar ruidosas reivindicações dos seus interesses corporativos (decisões políticas mais generosas em termos de salários, jornadas de trabalho, estabilidade no emprego, aposentadorias precoces, tolerância com o elevado absenteísmo dos docentes, etc.). Apresentam tais reivindicações de interesse corporativo, como se fossem requisitos imprescindíveis para que os professores corrijam suas ineficiências e melhorem o seu desempenho docente. Com tal procedimento, durante décadas e mais décadas, os sindicalistas se mantêm numa cômoda postura de “condicionar” o melhoramento do desempenho docente a que os governos satisfaçam suas reivindicações recém mencionadas. Os líderes sindicais subestimam e depreciam os seus representados ao não reconhecer que em muitos casos, os próprios professores e diretores das escolas poderiam corrigir as suas principais e mais frequentes debilidades e ineficiências; inclusive praticando o autoestudo através das extraordinárias facilidades e oportunidades proporcionadas pela Internet, já disponíveis em um crescente número de escolas. Porque as medidas corretivas mais urgentes para melhorar a péssima qualidade da nossa educação, não necessariamente requerem de altas decisões governamentais nem de uma expressiva alocação de recursos adicionais aos que já estão disponíveis em muitas instituições educativas; embora tais apoios externos sejam sempre desejados e bem vindos.


A educação necessita de professores excelentes e não tanto de sindicalistas eloquentes


Ao serem demandados a melhorar a qualidade da educação os líderes sindicais argumentam que não podem fazê-lo pelas seguintes razões: que o investimento público em educação é insuficiente (como percentual do PIB), que os salários são muito baixos com a consequente necessidade de terem que trabalhar em vários turnos e em várias escolas distantes umas das outras, que faltam laboratórios, bibliotecas e computadores, que existe excesso de alunos em cada sala de aula, que eles não têm oportunidades de fazer cursos de pós-graduação no exterior e que os alunos chegam às escolas muito mal educados pelos seus pais. Em relação a esta última justificativa, é necessário não esquecer que os alunos chegam às escolas mal-educados, principalmente porque aos seus pais a escola que frequentaram tampouco lhes ensinou a serem bem educados. Evidentemente que está fora de discussão que algumas destas dificuldades/adversidades mencionadas pelos sindicalistas existem e necessitam ser corrigidas e/ou eliminadas pelos governos. No entanto, elas estão muito longe de serem as principais causadoras da disfuncionalidade, descontextualização e baixíssima qualidade da nossa educação.


Se essas reivindicações dos sindicatos fossem as verdadeiras causas, caberiam as seguintes perguntas:


a) Por que em muitas escolas nas quais essas adversidades/restrições já foram eliminadas ou atenuadas, a educação continua sendo de baixa qualidade?
b) Por que nos vários países latino-americanos nos quais os governos fizeram e continuam fazendo elevados e crescentes investimentos no sistema de educação e incrementaram os salários dos professores (Brasil, México, Chile, Colômbia, etc.), não houve melhorias qualitativas no desempenho dos docentes nem na aprendizagem dos alunos?


Reiterados estudos realizados por instituições sérias, nacionais e internacionais (Sugere-se ler o Informe McKinsey - “Cómo hicieron los sistemas educativos con mejor desempeño del mundo para alcanzar sus objetivos”:
http://www.eduteka.org/pdfdir/McKENSEY_InformeReformaEducativa.pdf), têm demonstrado que essas supostas causas indicadas pelos líderes sindicais não têm maior incidência na qualidade da educação; e por esta razão as desculpas dos sindicalistas não resistem a uma argumentação séria. Vários estudos também têm demonstrado que existem outras causas, muito mais importantes que as alegadas pelos sindicalistas, cuja eliminação produziria um extraordinário impacto no melhoramento da qualidade da educação. Entre estas outras causas, quase todas elas passam pela necessidade de melhorar dramaticamente a formação, capacitação, supervisão/avaliação e a motivação dos docentes e pela necessidade de selecionar e nomear competentes e exigentes diretores nas escolas. Cumpridos tais requisitos muitas das causas reais da baixa qualidade educativa poderiam ser evitadas, corrigidas ou eliminadas pelos próprios professores e diretores das escolas, independentemente do que façam ou deixem de fazer as altas autoridades educativas nacionais. É na inadequada formação, capacitação e supervisão dos docentes e diretores que se originam as profundas debilidades do sistema de educação. Por este motivo é nos docentes e com os docentes, fundamentalmente dentro das salas de aula e das respectivas escolas, que podemos e devemos priorizar e concentrar os esforços em prol do melhoramento da educação. Fazê-lo, pragmaticamente, de baixo para cima e de dentro para fora das escolas, em vez de continuar esperando que as soluções venham de fora para dentro e de cima para baixo. É no desenvolvimento das competências e desempenhos dos professores e diretores, e não necessariamente nas altas decisões políticas nem no modernismo das instalações físicas das escolas, que é necessário fazer um investimento inteligente, pragmático e prioritário para que eles tenham um melhor desempenho dentro das salas de aula e das escolas. Em resumo, pressões sindicais baseadas em diagnósticos que não interpretam o pensamento dos bons professores estão induzindo os governos a desperdiçar os escassos recursos públicos em “prioridades” corporativas, que não necessariamente são sinônimos de prioridades educativas. É por esta razão que os governos estão gastando cada vez mais em educação, porém não estão educando cada vez melhor. Em vez de continuar dando ouvidos a esses sindicalistas, nossas autoridades educativas e os nossos professores e diretores deveriam analisar, inclusive via Internet, o que foi que fizeram e continuam fazendo as escolas de Shangai (China), Singapura, Coréia do Sul, Finlândia e Hong Kong, países/estados que nas décadas de 1950 e 1960 eram pobres e até paupérrimos, cujos alunos obtiveram os primeiros cinco lugares entre os 67 países que participaram do último exame PISA-OCDE realizado no ano 2009. Enquanto que, na nossa “triunfalista” e mal educada América Latina, Chile, Uruguai, México, Colômbia, Brasil, Argentina, Panamá e Peru ocuparam, respectivamente, os lugares de números 45, 48, 49, 53, 54, 58, 63 e 64 entre os 67 países participantes. A humildade e o bom senso recomendam que nos inspiremos naquilo que, com tanto êxito, fizeram e continuam fazendo os campeões mundiais em matéria de excelência educativa.


Formar professores críticos ou autocríticos?


2º Obstáculo. A péssima formação que as faculdades de educação/pedagogia estão proporcionando aos futuros professores (disfuncional, descontextualizada, excessivamente teórica e abstrata, politizada e "ideologizada”). Em muitas delas se insiste em repetir o chavão de que sua principal função é formar professores conscientes e críticos (mas isto na prática tem sido sinônimo de criticar os próprios governos, os países ricos e desenvolvidos, a globalização e o neoliberalismo, o FMI e o Banco Mundial; sempre atribuindo aos outros, e nunca à nossa péssima educação, a culpa pelo nosso subdesenvolvimento). Em vez de assumir a responsabilidade de melhorar a nossa educação formando professores competentes que, na era do conhecimento, possam atuar como os mais eficazes agentes de desenvolvimento de cada país. Evidentemente que é necessário que as faculdades de educação/pedagogia formem professores conscientes e críticos das injustiças e desigualdades sociais imperantes em nossos países. No entanto, muito mais prioritário e construtivo será formar futuros professores autocríticos que analisem as profundas disfuncionalidades e ineficiências do nosso sistema educativo; e que durante o seu período de formação universitária adquiram a capacidade, a motivação e o compromisso de corrigir, eles mesmos, aquelas debilidades das instituições educativas que podem e devem ser corrigidas pelos próprios professores. Porque grande parte destas desigualdades e injustiças sociais se deve coincidentemente à disfuncional e inadequada formação que eles receberam nas escolas que frequentaram. Adicionalmente estas faculdades de educação/pedagogia mantêm os alunos durante 4 ou 5 anos encerrados nas salas de aula; com mínimo ou nulo contato/consulta com os clientes/usuários/beneficiários do seu futuro exercício profissional como docentes. Com tal isolamento, os professores destas faculdades estão formando os futuros educadores através de excessivas e tediosas aulas discursivas. Em vez de levá-los a conhecer a dura realidade cotidiana na qual vivem os pobres (nos hospitais públicos, nas filas de desempregados, nas filas do SUS e do INSS, nos serviços de recuperação de drogados, etc.) para que constatem que, em grande parte, tal realidade poderia e deveria ser evitada através de uma educação de boa qualidade. Em muitas faculdades de educação/pedagogia se ocupa demasiado tempo em teorizar elucubrações e abstrações (sobre os aspectos filosóficos, sociológicos, históricos e antropológicos da educação, as teorias de Jean Piaget, Liev Vigotski e Paulo Freire, etc.); em vez de ensinar-lhes aquilo que é verdadeiramente medular e prioritário: como outorgar aos futuros professores uma formação mais utilitária, eclética, funcional, prática e pragmática de modo que, imediatamente depois de formados, saibam na teoria e especialmente na prática:
- em primeiríssimo lugar, ensinar às crianças e jovens as atitudes, comportamentos, princípios e valores para que tenham uma convivência de disciplina, cordialidade, respeito e solidariedade/cooperação na escola, no lar, na comunidade e futuramente no trabalho;
- como levantar o ego, a autoestima e a autoconfiança das crianças e jovens para que adquiram a vontade de progredir na vida através do seu próprio e eficiente esforço; - como ensinar aos seus futuros alunos através de práticas docentes mais eficientes para obter melhores rendimentos educativos;
- como preparar e apresentar aulas estimulantes e produtivas que despertem a atenção, a curiosidade e a criatividade dos seus futuros alunos; como estimular o hábito da leitura e do autoestudo.
- como estimular nos alunos a adoção de "boas práticas" de comportamentos para manter a disciplina nas salas de aula;
- como preparar e avaliar deveres de casa, que estimulem e fortaleçam a dedicação aos estudos;
- como estabelecer um relacionamento de cooperação com os pais e mães dos alunos e com suas comunidades;
- como melhorar as atitudes e procedimentos cotidianos dos professores, funcionários e alunos de cada escola, com o objetivo de que os seus bons comportamentos atuem como uma espécie de currículo oculto ou invisível e sirvam como exemplos a serem internalizados e adotados pelos futuros professores.


Durante o período de formação as faculdades de educação/pedagogia deveriam exigir que seus alunos executem/realizem na prática o que estão aprendendo na teoria; e que pratiquem o que lhes é ensinado, tantas vezes quantas sejam necessárias, até que aprendam a fazê-lo com perfeição, desde a primeira vez. É durante o período de formação, e não depois de egressar e fracassar como docentes, que deverão adquirir as competências necessárias para ter um bom desempenho docente e, como consequência, melhorar o rendimento na aprendizagem de seus futuros alunos. Estas práticas deverão ser supervisionadas e avaliadas pelos professores das faculdades e, sempre que seja necessário, deverão ser imediatamente corrigidas, in situ, pelos próprios alunos, sob a supervisão dos docentes.


Nas debilidades e disfuncionalidades de formação dos futuros professores, reside uma importantíssima, embora subestimada e até ignorada, causa da pobreza e do subdesenvolvimento da América Latina. Os primeiros reflexos dessa débil formação começam a manifestar-se nas escolas fundamentais. Imediatamente depois, em virtude do "efeito cascata" desse débil início, provocam o baixo desempenho/desmotivação/tédio/deserção dos alunos nas escolas de educação media e destas nas de educação superior. A inadequada e insuficiente formação dos futuros docentes afeta, especialmente, àquelas grandes maiorias de pobres para as quais o acesso às escolas fundamentais é a única oportunidade de aprender algo útil para melhorar seu futuro desempenho na vida e no trabalho. Esta grande oportunidade de estimular a criatividade, desenvolver as potencialidades latentes e abrir futuras possibilidades de desenvolvimento a todos os cidadãos de cada país, não pode continuar sendo desperdiçada nem sequer adiada, pois em tal caso será muito difícil, para não dizer impossível, recuperá-la no futuro. É por este motivo adicional que as faculdades de pedagogia/educação devem outorgar especial ênfase e importância a uma adequada formação dos futuros professores das escolas fundamentais. Porque devido a baixa qualidade imperante nesta etapa de ensino, são muitas as crianças que, ao completarem os 4 anos iniciais das escolas fundamentais as abandonam porque não encontram motivação nem estímulo para continuar estudando. As abandonam, sem ter adquirido suficientes conhecimentos, autoestima, autoconfiança, formação cívica, desejo de superação, disciplina nem motivação para o trabalho. Abandonam as escolas passivos, apáticos e sem iniciativas; e com estas fragilidades são potenciais candidatos ao fracasso, ao desemprego, aos vícios e à criminalidade.


A urgência requer uma eficaz medida de caráter emergencial


3º Obstáculo. No entanto, não podemos esperar até que as faculdades de educação/pedagogia formem esta nova geração de docentes porque a situação é realmente dramática e exige medidas talvez menos perfeitas, porém mais imediatas.


Nas próprias escolas fundamentais os professores deveriam ter reais oportunidades de capacitação e autocapacitação (de curta duração, eminentemente práticos e participativos); de modo que, depois de capacitados, os próprios professores do ensino fundamental possam ser os protagonistas da correção ou eliminação das ineficiências que atualmente cometem com maior frequência. Na América Latina ainda temos um elevado percentual de alunos que, depois de concluir os primeiros 4 anos da educação fundamental, nem sequer sabem ler e escrever, e quando aparentemente leem não conseguem interpretar o que estão lendo; tampouco conseguem efetuar corretamente as 4 operações aritméticas e muito menos quando estas incluem cálculos com frações ordinárias. Esse baixíssimo aproveitamento educativo demonstra que muitos professores das escolas fundamentais ainda possuem debilidades primárias e elementares em seu desempenho docente; as quais, consequentemente requerem correções igualmente primárias e elementares que não justificam longos, teóricos e caros cursos convencionais de pós-graduação. A adoção destas medidas pragmáticas de capacitação e/ou autocapacitação permitiria um imediato melhoramento no desempenho dos professores nas salas de aula, sem necessidade de afastá-los de seus postos de trabalho por longos períodos.


Implantar a meritocracia e não capitular diante dos “caciques”


4º Obstáculo. A nefasta interferência político-partidária e sindical na formulação das políticas educativas e particularmente na designação/nomeação dos professores e diretores das faculdades de educação e escolas fundamentais. Devido aos danos que produzem tais interferências, estas decisões jamais deveriam ser influenciadas pelos "caciques" políticos e sindicais. Antes de assumir seus cargos os diretores das mencionadas faculdades e escolas fundamentais, deveriam receber um treinamento prático de pré-serviço e fazer um estágio em alguma escola reconhecida pela excelência de sua administração e dos resultados educativos obtidos. Este estágio lhes permitiria aprender o que e como deverão fazer para melhorar o rendimento educativo da escola que terão a responsabilidade de dirigir. Na educação, que é o mais importante e estratégico setor para o desenvolvimento de qualquer país, o império da meritocracia deveria ser um valor inegociável. Uma instituição e uma função tão nobre como é a educação necessita ser "blindada" contra estas interferências perniciosas.


5º Obstáculo. A inexistência de estímulos salariais aos melhores professores. Os docentes deveriam ser regularmente supervisionados e avaliados, dentro das salas de aula. As eventuais falhas e debilidades deveriam ser imediatamente corrigidas pelos avaliados sob a orientação dos avaliadores. No futuro as instituições educativas deveriam ter flexibilidade para pagar salários diferenciados em função dos resultados das supervisões e avaliações recém-mencionadas. Pagar o mesmo salário ao melhor e ao pior professor significa castigar os mais eficientes/competentes e premiar os mais ineficientes/incompetentes; e com tal “democracia” abrir o caminho para que nas escolas se instale e perpetue a apatia, a desmotivação e a mediocridade.


6º Obstáculo. Todas as escolas deveriam ter um currículo com conteúdos mínimos, com objetivos de aprendizagem claros e precisos, com exigências rígidas para seu cumprimento. Também deveriam contar com livros de apoio didático; estes deveriam ser elaborados por educadores experientes e pragmáticos, que saibam distinguir o que é essencial e o que é secundário para ser incluído nos referidos livros. É necessário que cada professor receba uma clara orientação superior sobre o que e como deverá ensinar, para evitar que tais decisões sejam baseadas apenas no seu critério pessoal.


7º Obstáculo. A evidente inadequação dos conteúdos curriculares. Os currículos das faculdades de educação e das escolas fundamentais incluem muitos conteúdos irrelevantes e ou desatualizados que deverão ser substituídos por outros que sejam de real necessidade, importância e aplicabilidade para: as etapas posteriores de estudos, para a vida e para o trabalho da maioria dos alunos.


Para aprender mais e melhor é necessário ensinar mais e melhor


8º Obstáculo. A excessiva generosidade na formulação e especialmente no cumprimento do calendário escolar. Se existe consenso de que na era do conhecimento todos os cidadãos necessitam aprender mais e melhor, o primeiro e mais importante requisito é que no sistema de educação os professores ensinem mais e melhor e os alunos aprendam mais e melhor. Esta premissa nos leva à seguinte reflexão: se a grande maioria dos cidadãos tem que trabalhar 11 meses ao ano e 8 horas ao dia, por que nas escolas temos, em média, apenas 8 meses de aulas ao ano e 4 horas ao dia; especialmente se consideramos que nesses 8 meses temos frequente absenteísmo de professores, feriados, pré-feriados, pós-feriados e greves de docentes, funcionários ou estudantes? Com esta permissividade, os teóricos 200/180 dias do calendário escolar em muitos casos acabam por transformar-se em 160/140. Enquanto um país como a Coreia do Sul, que encarou com seriedade e objetividade o desafio de melhorar sua educação, exige 220 dias letivos e com jornadas diárias de estudos, dentro e fora das salas de aula, que chegam a 12 horas por dia.


É necessário premiar e reconhecer os melhores professores


9º Obstáculo. Os professores eficientes não são valorizados por desempenho e resultados educativos. É recomendável criar estímulos/prêmios, monetários ou de reconhecimentos públicos, para estimular a todos os professores de cada país a que atuem como protagonistas/sujeitos das inovações e melhoramentos na educação. É necessário adotar medidas e estímulos que contribuam a substituir a "vitimização", a omissão e os protestos dos professores, não apenas por propostas, mas especialmente pelo seu efetivo engajamento e protagonismo na introdução de medidas “eficientizadoras” concretas dentro das salas de aula e das suas próprias escolas.


Atualmente os esforços e conquistas pessoais dos melhores professores não são reconhecidos nem premiados; em termos salariais, tanto faz ser ótimo ou ser péssimo como professor. Com este propósito de valorização, em vez de continuar premiando os pseudoídolos do futebol, das telenovelas, dos desfiles de modas, do Big Brother Brasil e dos novos ricos que aparecem na Revista “Caras” e outras similares, deveríamos premiar e reconhecer os verdadeiros ídolos e heróis do mundo moderno, que são aqueles competentes, dedicados e anônimos professores que existem no Brasil e em todos os países de América Latina.


10º Obstáculo. Inexistência de medidas de valorização da profissão docente. Tal valorização deveria iniciar atraindo para ingressar às faculdades de educação/pedagogia os melhores egressos da educação secundária e estabelecendo critérios muito rigorosos para selecionar os candidatos com maiores potencialidades para o magistério (com ênfase no domínio do idioma, matemática, comunicação fluente e inteligível, desejo e interesse de continuar estudando e aperfeiçoando-se, e especialmente, vocação e vontade de ser docente). Na Coreia do Sul só podem candidatar-se às escolas formadoras de professores os 5% melhores alunos da secundária, na Finlândia os 10% e em Singapura os 30%. Na América Latina ocorre exatamente o contrário, pois ingressam às carreiras docentes os que obtiveram os últimos lugares no ensino médio. A estratégia mais eficaz para valorizar a profissão docente e pagar-lhes salários justos e estimulantes consiste em selecionar os melhores candidatos às faculdades de educação/pedagogia e nestas oferecer-lhes uma excelente formação. O bom salário, antiga e legítima reivindicação dos professores, deverá ser consequência do seu excelente desempenho profissional.


Una reflexão final: o efeito deletério da televisão


A adoção destas 10 medidas, de fácil introdução e baixo custo, permitiria um significativo melhoramento na qualidade de nossa educação. No entanto, para que isto ocorra os governos deveriam estabelecer severas normas e restrições aos meios de comunicação, especialmente radio e televisão. Normas que os obriguem a melhorar dramaticamente os conteúdos dos seus programas e das suas enganosas mensagens publicitárias, que estão anulando/destruindo o pouco que as escolas e os pais estão ensinando aos seus filhos. É simplesmente inaceitável que os poderosíssimos meios de comunicação (cujo funcionamento depende de prévia concessão/autorização governamental) não sejam aproveitados/utilizados para difundir e estimular a adoção de atitudes, comportamentos, princípios e valores (de honestidade, integridade, honradez, amor ao trabalho, cooperação e solidariedade, cumprimento de deveres como cidadãos, respeito ao próximo e aos seus direitos, etc.), além de recomendações sobre higiene, alimentação, prevenção de doenças, primeiros socorros, etc. Também é inaceitável que continuemos tolerando que estes meios de comunicação, com a angelical desculpa do “sagrado direito à liberdade de expressão”, continuem "deseducando" e idiotizando os ouvintes e telespectadores com mensagens de consumismo, individualismo e egoísmo, violência, banalidades, mediocridades e trivialidades, ostentação e vaidade, incitação aos vícios e idolatria a pseudoídolos. Especialmente se considerarmos que poderiam e deveriam difundir, com baixos custos e alta eficácia/eficiência, o mais imprescindível insumo do mundo moderno que é o conhecimento útil, cuja insuficiência é a principal responsável pelos problemas, sofrimentos e angústias da maioria dos latino-americanos. No Brasil, por exemplo, as crianças assistem péssimos programas de TV, em média, durante 5 horas por dia; isto significa que dedicam mais tempo a “deseducar-se” na televisão do que a educar-se nas 4 horas que permanecem nas escolas; muito provavelmente algo similar ocorre em quase todos os demais países latino-americanos. Com tal inversão e destruição de valores é triste e tenebroso o futuro do nosso Brasil e da nossa América Latina.


Através dos e-mails Polan.Lacki@onda.com.br telefones (41) 3243-2366 celular 9602-1239
e manuelzepedaster@gmail.com telefones (52-492) 9246147
(CRUCEN da Universidad Autónoma Chapingo - México) celular (52-492) 544-4852, os autores do artigo receberão com especial beneplácito críticas ao seu conteúdo.


Voltar ao topo

divisor

Audiência Pública sobre o cenário atual da educação no RN


“Durante cada fala aqui eu pensava em como organizar a minha fala. Porque são tantas as questões a serem colocadas e tantas as angústias do dia a dia de quem está em sala de aula, que eu queria pelo menos conseguir sintetizar minimamente essas angústias.


Como as pessoas sempre apresentam muitos números e dizem que eles são irrefutáveis, eu gostaria também de apresentar um número que é composto por três algarismos apenas, bem diferentes de tantos números que são apresentados aqui com tantos algarismos: é o número do meu salário, R$ 930, com nível superior e especialização.


Eu perguntaria a todos aqui, mas só respondam se não ficarem constrangidos, se vocês conseguiriam sobreviver ou manter o padrão de vida que vocês mantêm, com esse salário. Certamente não conseguiriam.


Não é suficiente nem para pagar a indumentária que os senhores e as senhoras utilizam para poder frequentar esta Casa. A minha fala não poderia partir de um ponto diferente, porque só quem está em sala de aula, só quem pega três ônibus por dia para chegar a seu local de trabalho é que pode falar com propriedade.


Fora disso, qualquer consideração aqui é apenas para mascarar uma verdade visível a todo mundo: em nenhum governo, em nenhum momento no nosso Estado, na nossa cidade, no nosso país a educação foi uma prioridade.


Então, me preocupa muitíssimo a posição da maioria, inclusive da secretária (de Educação) Betânia Ramalho, de não falarmos sobre a situação precária porque isso todo mundo já sabe.


Como assim, não vamos falar da situação precária? Gente, estamos aceitando a condição precária da educação como uma fatalidade?


Estão me colocando dentro de uma sala de aula com um giz e um quadro para salvar o Brasil, é isso?


Salas de aulas superlotadas com os alunos entrando com uma carteira na cabeça porque não têm carteiras nas salas e sou eu a redentora do País? Não tenho condições, muito menos com o salário que recebo.


A secretária disse que não podemos ser imediatistas, que precisamos pensar a longo prazo. Mas a minha necessidade de alimentação é imediata. A minha necessidade de transporte é imediata, a necessidade dos alunos de ter uma educação de qualidade é imediata.


Eu gostaria de pedir aos senhores que se libertem dessa concepção extremamente equivocada, e digo isso com mais propriedade do que os grandes estudiosos: parem de associar a qualidade da educação com professor dentro da sala de aula.


Não há como ter qualidade em educação com professores trabalhando em três turnos seguidos, multiplicando seus salários: R$ 930 de manhã, R$ 930 de tarde, R$ 930 de noite para poder sobreviver. Não é para andar com bolsa de marca nem para usar perfume francês.


É para pagar a alimentação de seus filhos, para pagar a prestação de um carro que muitas vezes compram para se locomover mais rapidamente entre uma escola e outra.


Não me sinto constrangida de apresentar meu contracheque, porque penso que o constrangimento deve ser de vocês.


Lamento, mas deveriam todos estar constrangidos. Entra governo e sai governo e o que se solicita de nós é paciência e tolerância.


Quero pedir à secretária paciência também porque nós não aguentamos mais esse discurso.


Não podemos ser responsabilizados pelo caos que na verdade só se apresenta para a sociedade quando nós estamos em greve, mas que está lá todos os dias dentro da sala de aula, em todos os lugares.


São muitas questões mais complexas que precisariam ser postas aqui, mas infelizmente o tempo é curto e é isso que eu gostaria de dizer em nome dos meus colegas que pegam três ônibus para chegar ao local de trabalho, em nome dos estudantes que estão sem aula agora por causa da greve, mas que ficam sem aula por muitos outros motivos.”


É isso. Embora não seja apenas isso.
Amada Gurgel
Professora / Natal /RN
Maio de 2011
Veja no YouTube http://www.youtube.com/watch?v=yFkt0O7lceA


Voltar ao topo

divisor

Exame da ORDEM


BBB11! O festival de besteirol acabou, mas não deixamos de registrar esta conversa:


Os brothers vão para a sala da Casa Luxo. Wesley comenta que ficou feliz por Pedro Bial chamá-lo de "Doutor". "E o que é que tem?", pergunta Daniel. "Eu sou advogado", justifica o pernambucano.


Maria questiona: "Tirou a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil)?". Daniel responde:


"Isso é o de menos". A sister comenta: "Eu tenho uma amiga que está há cinco anos tentando". O brother diz: "Essa é burra, passou na cola".


Bem, independente de ter passado na cola este é um assunto que sempre vem à tona, afinal de contas fora a Medicina que tem a Residência Médica, os formandos em Direito são os únicos profissionais que prestam exame depois de formados para obter o registro em seu conselho de classe, a OAB, para poder exercer a profissão.


Os questionamentos são muitos e a justiça está cheia de ações de bacharéis que não conseguiram êxitos no Exame da Ordem em exigir seu livre exercício como um Direito Constitucional.


Alguns Juízes de Primeira Instância estão concedendo, porém não sabemos ainda de decisão Superior.


É um assunto polêmico que permeia em todos os segmentos.


Na política o Senador Gilvan Borges do Amapá e o Deputado Federal Lino Rossi (PP-MT) apresentaram Projeto de Lei proibindo o Exame, defendendo que todos os formados têm direito de exercer a profissão.


No meio jornalístico o conhecidíssimo Ricardo Boechat defende abertamente também a proibição do Exame.


A motivação do Senador e do Deputado mencionados é, por certo, eleitoreira, o que não é o caso do jornalista citado; todavia, os argumentos que Boechat vem usando para defender o fim do exame da ordem estão equivocados. Isso é de se admirar, pois eu o escuto quase todas as manhãs em seu jornal matinal na radio Band News quando estou a caminho do meu trabalho, e o acho muito coerente e ético com as posições que manifesta.


Devo concordar com Daniel, apesar da expressão ser grosseira, mas sendo dita no BBB é mais do que natural... Não só defendo exaustivamente o Exame da Ordem como defendo que deveriam ser estendidos para todas as outras profissões.


Começo minha argumentação com foco na nossa estrutura educacional.


Vejam a foto abaixo: ela expressa a realidade e diferenças entre uma escola do ensino fundamental particular e de uma pública.


A Escola Pública está sucateada e colocada em segundo plano pelos Governos Federal, Estadual e Municipal, com raríssimas exceções.

sigma

Aqui o objetivo de alcançar aprovação em uma Universidade Pública coloca as escolas particulares do Ensino Fundamental e Médio em ritmo de total competição, que as faz investir em bons (e bem remunerados) professores, elevando a qualidade do ensino que oferecem.


Não se tem notícia de uma escola de Ensino Médio Pública anunciar seu índice de aprovação na conquista de uma vaga em Universidade Pública. Ao contrário, o que se vê é a degradação dessa, seja estrutural ou pedagógica.


Se essa é a regra nas fases escolares de base, implica dizer que, de modo contrário, as Universidades Públicas são melhores do que as Particulares, mesmo nas condições mínimas de sobrevivência e de sucateamento em que se encontram a maioria delas.


A dedução da qualidade do Ensino Superior fica patente. As Faculdades Particulares não têm compromisso social algum, a não ser com o lucro fácil e a expedição de um diploma para um profissional, muitas vezes desqualificado, salvo honrosas e raras exceções, visto existirem instituições privadas que, por um motivo ou outro, primam pelo seu bom nome e pela qualidade do ensino que oferecem.


Compreendendo a lógica que as escolas Particulares do Ensino Fundamental tem por obrigação aprovar seus alunos, imaginamos com sensatez a obrigação das Faculdades Particulares em aprovar seus formando no Exame da OAB, do CREA, do CORECON, do CRA, do CRC, do CRP, dentre outros Conselhos. Assim teríamos bons Advogados, Engenheiros e Arquitetos, Economistas, Administradores, Contadores, Psicólogos e em todas as demais categorias profissionais.


Com certeza teríamos na mesma linha das Escolas Particulares do Ensino Fundamental e Médio, Faculdades Particulares com cartazes anunciando seu índice de aprovação nos respectivos conselhos de classe.


O Brasil só tem a ganhar com profissionais melhores preparados, educação de qualidade e saber apropriado fazem bem a todos.


Em favor dos Exames da Ordem e de todos os outros Conselhos de Classe.


Jorge Furtado
@focabrasil


Voltar ao topo

divisor

Gestão organizacional e autodesenvolvimento.
Fábula sobre "a vocação e as aptidões de cada um".


Era uma vez um grupo de animais que quis fazer alguma coisa para resolver os problemas do mundo. Para isto, eles organizaram uma escola.


A escola dos bichos estabeleceu um currículo de matérias que incluía correr, subir em árvores, em montanhas, nadar e voar. Para facilitar as coisas, ficou decidido que todos os animais fariam todas as matérias.


O pato se deu muito bem em natação; até melhor que o professor! Mas quase não passou de ano na aula de voo, e estava indo muito mal na de corrida. Por causa de suas deficiências, ele precisou deixar um pouco de lado a natação e ter aulas extras de corrida. Isto fez com que seus pés de pato ficassem muito doloridos, e o pato já não era mais tão bom nadador como antes. Mas estava passando de ano, e este aspecto de sua formação não estava preocupando a ninguém - exceto, claro, ao pato.


O coelho era de longe o melhor corredor, no princípio, mas começou a ter tremores nas pernas de tanto tentar aprender natação.


O esquilo era excelente em subida de árvore, mas enfrentava problemas constantes na aula de voo, porque o professor insistia que ele precisava decolar do solo, e não de cima de um galho alto. Com tanto esforço, ele tinha cãibras constantes, e foi apenas "regular" em alpinismo, e fraco em corrida.


A águia insistia em causar problemas, por mais que a punissem por desrespeito à autoridade. Nas provas de subida de árvore era invencível, mas insistia sempre em chegar lá da sua maneira. Na natação deixou muito a desejar.


Moral da Estória: Cada criatura tem suas capacidades e habilidades próprias, coisas que faz naturalmente bem. Mas quando alguém o força a ocupar uma posição que não lhe serve, o sentimento de frustração, desencorajamento, e até culpa, provoca mediocridade e derrota total.


Um pato é um pato; nada mais do que um pato. Foi feito para nadar, não para correr, e certamente não para subir em árvores.


Um esquilo é um esquilo; nada mais do que um esquilo. Se insistirmos em afastá-lo daquilo que ele faz bem, ou seja, subir em árvores, para que ele seja um bom nadador ou um bom corredor, o esquilo vai se sentir um burro.


A águia faz uma bela figura no céu, mas é ridícula numa corrida a pé.


No chão, o coelho ganha sempre. A não ser, é claro, que a águia esteja com fome!


O que dizemos das criaturas da floresta vale para qualquer pessoa bem como a sua família, em particular.


Deus não nos fez iguais. Ele nunca quis que fôssemos iguais. Foi Ele quem planejou e projetou as nossas diferenças, nossas capacidades especiais!


Portanto, descubra em você estas qualidades e desfrute de sua paz interior.


Descubra seus dons naturais.


Seja feliz!
(Autor desconhecido).


Voltar ao topo

divisor

O fracasso de uma educação, rural e urbana, que oferece "o circo antes do pão”

Polan Lacki


Nos países latino-americanos, uma crescente porcentagem de jovens, rurais e urbanos, já está conseguindo concluir a escola fundamental e até a média ou secundária. Lamentavelmente, este êxito é mais aparente que real, pois em termos práticos está produzindo resultados decepcionantes. Os jovens, agora mais escolarizados e com um horizonte de aspirações e ambições ampliado, sentem-se frustrados, para não dizer enganados.


Depois de estudar longos 11 anos, durante os quais alimentaram a ilusão de que este esforço lhes ofereceria um futuro de oportunidades e de prosperidade, eles descobrem que não estão aptos sequer a obter um modestíssimo emprego; pois egressam do sistema escolar sem possuir as "qualidades" que os empregadores esperam e necessitam encontrar em um bom funcionário. Isto acontece porque o sistema de educação, rural e urbano, não lhes proporciona os conhecimentos úteis, as aptidões necessárias e nem sequer as atitudes e os valores que necessitam para ser bons empregados; tampouco os prepara para que sejam bons cidadãos e pais de família que saibam educar, orientar, alimentar e cuidar da saúde dos seus filhos, etc.


Falemos sem eufemismos, com exceção do que lhes foi ensinado nos três primeiros anos (ler, escrever, efetuar as 4 operações aritméticas, aplicar a regra de três e conhecer o sistema métrico), praticamente todos os demais conhecimentos são irrelevantes para que eles possam ter um melhor desempenho no trabalho e na vida pessoal, familiar e comunitária. Nesses oito anos subsequentes, os poucos conteúdos que poderiam ser úteis geralmente são ensinados de maneira excessivamente teórica, abstrata, fragmentada e desvinculada da vida e do trabalho, com o que se transformam em virtualmente inúteis. Então, se impõe a seguinte pergunta: para que estudaram esses oito anos adicionais?


Sejamos objetivos e realistas: qual é a utilidade ou aplicabilidade na vida cotidiana que tem o ensino teórico sobre os logaritmos, os determinantes, a geometria analítica, a raiz quadrada e cúbica? Ou o ensino "memorístico" sobre a história da Cleópatra ou da Imperatriz de Bizâncio, os faraós e as pirâmides do Egito, a história da Mesopotâmia e as altitudes das Montanhas Rochosas?


Alguns defensores deste conservadorismo educativo afirmam que tais conteúdos são necessários para desenvolver a criatividade, a engenhosidade, o senso crítico e problematizador, o espírito de iniciativa dos educandos e para oferecer-lhes uma suposta "formação integral". Pessoalmente, opino que existem formas mais inteligentes e produtivas para atingir tais objetivos. Conteúdos mais próximos - no tempo e no espaço - às realidades cotidianas dos educandos seriam muito mais eficazes para desenvolver as suas potencialidades latentes, para estabelecer relações entre causas e efeitos, para evitar que repitam os erros que foram cometidos no passado, etc.


Outros teóricos afirmam que é necessário manter esses conteúdos para "democratizar" as oportunidades de acesso à universidade, ignorando que, na maioria dos países da América Latina, apenas 5 ou 10% dos jovens têm esse privilégio. Em tais condições, não é lógico nem justo castigar e entediar os outros 95 ou 90% que não chegarão à universidade, fazendo-os estudar durante oito anos temas excessivamente teóricos, abstratos, longínquos, não utilizáveis e prescindíveis, para não dizer inúteis.


Na dinâmica do mundo contemporâneo, os educandos têm motivações e interesses muito mais imediatos e concretos. A sua principal aspiração é conseguir um trabalho bem remunerado para adquirir os bens e serviços da vida moderna e para poder constituir uma família próspera e feliz. Portanto, uma educação realista deverá ser orientada ao atingimento desses anseios e necessidades concretas e prioritárias da maioria da população; e não a proporcionar-lhe uma crescente quantidade de informações descontextualizadas e desconexas, que são irrelevantes e não utilizáveis na solução dos seus problemas cotidianos.


A realidade concreta nos indica que, depois de concluir ou abandonar a escola fundamental e média, a grande maioria dos educandos rurais:


A) em uma primeira etapa, vão dedicar-se a atividades agropecuárias, como produtores ou como empregados rurais, nas quais fracassam, principalmente, porque a escola rural preferiu ensinar-lhes a história do Império Romano ou o Renascimento Francês, em vez de ensinar-lhes a produzir, administrar as propriedades rurais e comercializar as suas colheitas com maior eficiência; ignorando que este é o primeiro requisito para que possam incrementar a sua renda e, graças a ela, sobreviver com dignidade no meio rural.


B) em uma segunda etapa, depois de fracassar nas atividades rurais, esses ex-agricultores e os seus filhos migram para as cidades onde serão serventes da construção civil, pedreiros, pintores ou marceneiros, motoristas, manobristas e guardadores de automóveis, policiais e vigilantes, cozinheiros e garçons, balconistas e vendedores ambulantes, empregadas domésticas ou faxineiras de escritórios e de edifícios residenciais, garis, burocratas e operários das empresas públicas e privadas, etc., pois, no mundo moderno, são essas atividades urbanas, as grandes ocupadoras de mão-de-obra.


Isto significa que os conteúdos curriculares das escolas rurais não responderam às necessidades dos pais e agora os conteúdos das escolas urbanas não respondem às necessidades concretas dos seus filhos. Para que essas maiorias possam realizar-se como pessoas e sejam mais eficientes e produtivas, necessitam de conhecimentos que sejam úteis e aplicáveis para melhorar o desempenho nas ocupações majoritárias recém-mencionadas e, especialmente para que possam desempenhar, com eficiência, outras atividades que são mais valorizadas pela sociedade e pelo mercado de trabalho.


O verniz pseudocultural e intelectual, tão frequente nos nossos obsoletos currículos, não contribui ao atingimento de nenhum desses dois objetivos; pois os potenciais empregadores não estão muito interessados em saber se os jovens candidatos a um emprego conhecem a biografia de Montesquieu, Robespierre ou Richelieu.


O abismo existente entre aquilo que o sistema de educação ensina e o que os educandos realmente necessitam aprender é simplesmente inaceitável. Ele é tão prejudicial à nossa juventude, ao setor produtivo e ao futuro das nossas nações, que não podemos continuar aceitando inconsistentes teorizações, justificativas e elucubrações dos "especialistas" que insistem em manter nos currículos o supérfluo, em vez de substituí-lo pelo essencial. A sociedade como um todo, deverá exigir que o sistema de educação adote transformações radicais, corajosas e imediatas; porque as medidas cosméticas adotadas pelo referido sistema nas últimas décadas demonstraram ser mal priorizadas/direcionadas, insuficientes e ineficazes.


Os cidadãos, que através dos seus impostos estão financiando esse anacrônico sistema de educação e pagando as consequências dessa má qualidade educativa, têm todo o direito de exigi-lo; e o sistema de educação tem o dever de acatar essa justíssima reivindicação. Os conteúdos que a maioria dos educandos, provavelmente, nunca utilizará deverão ser sumariamente extirpados dos currículos e substituídos por outros que tenham uma maior probabilidade de ser utilizados pela maioria dos educandos, durante o resto das suas vidas.


É necessário oferecer-lhes uma educação que os ajude a que, eles mesmos, possam transformar as suas realidades adversas, corrigir as suas ineficiências e solucionar os seus problemas cotidianos.


As crescentes multidões de desempregados/subempregados, pobres e miseráveis que não têm dinheiro para pagar um teto digno, comprar os alimentos e os remédios ou mandar os seus filhos para a escola, para o médico e para o dentista, necessitam, em primeiríssimo lugar, de uma educação útil, no sentido de que as habilite a conseguir um trabalho/emprego gerador de um salário razoável, com o qual possam satisfazer as necessidades primárias de sobrevivência das suas famílias. Estas multidões de "mal-educados" pelas nossas escolas não estão muito interessadas em saber qual é a altitude do Everest ou a extensão do Rio Nilo; tampouco em conhecer a história das competições e batalhas que ocorreram no Circo Máximo ou no Coliseu de Roma.


Depois que adquiram os conhecimentos necessários para serem empregados mais produtivos, melhores cidadãos e bons pais de famílias eles poderão buscar as oportunidades e as fontes para adquirir os outros conhecimentos que satisfaçam as suas curiosidades e os seus interesses intelectuais e culturais. Estas oportunidades e fontes não necessariamente deverão ser proporcionadas através do sistema de educação formal (escolarizado).


É compreensível que os privilegiados da sociedade que já têm acesso ao pão desejem ir ao circo. Entretanto, a prioridade da grande maioria constituída pelos não privilegiados, pelos pobres, pelos sofridos e pelos abandonados é diferente, eles querem primeiro o pão, depois o circo.


Polan.Lacki@uol.com.br / Polan.Lacki@onda.com.br
http://www.polanlacki.com.br / http://www.polanlacki.com.br/agrobr


Voltar ao topo

divisor

Educação em profunda crise: é necessário recomeçar tudo ou quase tudo de novo

Polan Lacki


No Brasil estamos sofrendo, antigas, muito dolorosas e crescentes, consequências de um fator de anti-desenvolvimento que está demonstrando ter uma extraordinária força para frear e até mesmo anular os esforços que os cidadãos, as instituições, as empresas e os governos estão realizando para promover o desenvolvimento econômico e social do nosso país. Este fator está presente numa instituição historicamente valorizada, apreciada e reconhecida pela opinião pública, mas que com o passar dos anos está deteriorando sua imagem, porque seus integrantes permanecem com os olhos fechados e os ouvidos tapados, apesar dos danos que, por ação ou por omissão, está causando ao desenvolvimento, à prosperidade e ao bem estar de nossos habitantes.


Refiro-me à péssima qualidade de nossa educação e muito particularmente à incongruência existente entre o que e como nosso anacrônico sistema de educação primária, secundária e terciária está ensinando e o que e como deveria ensinar para que os educandos possam melhorar seus princípios, valores, atitudes, conhecimentos e competências; e desta maneira ter um melhor desempenho na vida pessoal, familiar, profissional, empresarial e civico-comunitária. Com poucas exceções, nossas instituições educativas chegaram em tal nível de deterioração que não podemos continuar aceitando-o; sua reconstrução tem que ser - na prática e não no repudiável discurso demagógico - a mais urgente prioridade de cada governo municipal, estadual e nacional. Porque, falando objetivamente, não existem motivos nem justificativas para aceitar que todos os cidadãos, direta ou indiretamente, continuem sendo afetados e penalizados por uma educação disfuncional que insiste em ensinar-lhes conteúdos descontextualizados que em grande parte são irrelevantes e pouco utilizáveis; além de serem ensinados de forma muito teórica, abstrata, desestimulante e minimamente vinculada às suas futuras necessidades de vida e de trabalho. Principalmente se considerarmos que o mundo moderno está necessitando, desesperadamente, de uma educação mais pragmática e instrumental, cujos conteúdos os educandos possam utilizar e aplicar na correção de suas próprias ineficiências, como estratégia para que possam solucionar os problemas que enfrentam em suas vidas cotidianas e oferecer uma maior e melhor contribuição ao desenvolvimento de suas comunidades e do país.


Reformas cosméticas para "manter as aparências" ou reformas profundas para mudar de verdade?


As autoridades educativas devem abandonar, de uma vez por todas, as inócuas reformas cosméticas que vem realizando, ano após ano, durante as últimas décadas.


Porque tais reformas estão enganando os educandos e condenando-os ao desemprego e ao fracasso como pessoas, como pais de família, como trabalhadores, como empreendedores e como membros de suas comunidades. É por esta importante razão que o ministério nacional e as secretarias estaduais e municipais de educação devem promover reformas educativas profundas e radicais, que produzam resultados concretos e imediatos: na formação e capacitação (mais pragmática, funcional e prática) dos docentes, nos conteúdos curriculares, nos métodos pedagógicos, na administração das escolas e em seu relacionamento com os pais de família, com as comunidades e com o mercado de trabalho. Também devem promover reformas que modifiquem os “generosos” calendários escolares (com 4 horas de aulas por dia, 8 meses de aulas por ano e repletos de celebrações, assembléias, pré-feriados, pós-feriados e greves). Estas “generosidades” são inaceitáveis porque, se necessitamos que os alunos aprendam mais e melhor, é indispensável que os professores lhes ensinem mais e melhor.


Todos os educandos devem ser formados para que possam atuar como cidadãos exemplares


Uma nova educação deverá estar orientada a estimular e "empoderar" os educandos para que queiram, saibam e possam ser mais eficientes e mais auto-dependentes na solução dos seus próprios problemas. Uma educação que lhes ensine como elevar sua produtividade e sua capacidade para gerar mais riquezas e renda familiar, como pré-requisitos para reduzir a pobreza na qual vive a maioria dos educandos. Se queremos erradicar a pobreza não podemos continuar formando cidadãos passivos e dependentes dos simplistas programas paternalistas de dar dinheiro aos pobres; porque estes são pobres financeiramente porque são pobres em conhecimentos que seus pais e especialmente o sistema de educação não lhes proporcionaram. Estes paliativos populistas estão destruindo a dignidade dos pobres e condenando-os ao fatalismo, à passividade, à ociosidade, aos vícios e conduzindo-os a uma miséria que, com a "ajuda" do ganhar sem trabalhar, está levando-os a uma pobreza irreversível.


O sistema de educação deve formar uma nova geração de cidadãos que possuam os princípios, os valores, as atitudes, os conhecimentos e as competências necessárias para que eles mesmos possam evitar/corrigir/eliminar os erros e ineficiências que estão cometendo, porque geralmente são estes os principais responsáveis de seu próprio subdesenvolvimento. Uma educação funcional e de boa qualidade deve ter como objetivo e estratégia convertê-los em cidadãos mais honrados, mais honestos, mais responsáveis, mais conscientes de seus deveres, mais criativos, mais produtivos, mais empreendedores, mais solidários e mais ativos e eficientes protagonistas na solução de seus problemas pessoais, familiares, profissionais e comunitários.


Os ministros e secretários de educação devem ter “currículos” que os recomendem


Por uma questão de coerência esta educação inovadora requer de autoridades educativas que também tenham atitudes e procedimentos inovadores e até revolucionários, no bom sentido. Os postos de ministros e de secretários estaduais e municipais de educação já não podem continuar sendo atribuídos aos oportunistas de plantão como retribuição por terem ajudado a eleger o governo de turno. Estes postos deverão ser ocupados pelos mais competentes educadores do país e de cada estado e município. Competentes, não necessariamente por terem muitos títulos acadêmicos afixados nas paredes, mas sim no sentido de que em suas vidas pregressas tenham demonstrado criatividade, inteligência e competência técnico-administrativa para formular e executar soluções inteligentes e inovadoras, que sejam capazes de provocar um grande impacto na qualidade educativa e nas atitudes e competências dos educandos. Nas instituições educativas, muitíssimo mais que em qualquer outro organismo ou empresa, a meritocracia tem que ser um princípio irrenunciável e inegociável. Uma missão com tão elevada importância estratégica, econômica e social não pode continuar sendo atribuída aos maus políticos e muito menos aos maus sindicalistas da educação, porque estes estão cada vez menos preocupados em educar e cada vez mais dedicados a fazer proselitismo político e a catequizar ideologicamente os estudantes. A educação deve ser política e ideologicamente neutra.


Apesar de tudo, é muitíssimo o que podem fazer os professores para melhorar a educação


Obviamente que as adequadas decisões políticas dos ministros e secretários de educação e as eficientes administrações dos reitores das universidades e dos diretores das unidades educativas nos três níveis são importantes. No entanto, elas não produzirão os resultados necessários se os integrantes do mais importante e mais decisivo estamento da educação - os professores - não assumirem um maior protagonismo no melhoramento do seu próprio desempenho e consequentemente na qualidade do ensino que proporcionam aos educandos. Por mais adversas que sejam suas condições trabalhistas e salariais, é muito o que os professores podem fazer para reverter a baixa qualidade educativa e a crescente deterioração da educação.


Em muitos casos eles não necessitam condicionar a melhoria de seu desempenho docente a que os governos adotem altas decisões políticas e proporcionem significativos recursos adicionais. Porque muitas das atuais ineficiências são tão elementares, de fácil correção e de tão baixo custo que podem ser evitadas, corrigidas ou eliminadas pelos próprios professores, independentemente do que façam ou deixem de fazer os ministros e secretários da educação, os reitores das universidades e os docentes e diretores das faculdades e escolas nos três níveis.


Conscientes de que é muito pouco o que eles podem esperar dos seus debilitados e endividados governos, é necessário que os professores façam um esforço adicional e assumam um maior protagonismo na correção das profundas ineficiências, debilidades e disfuncionalidades das instituições educativas. É para que eles tenham uma incidência eficiente e produtiva na mencionada correção, que todos os cidadãos do país através de seus impostos (inclusive dos contribuintes muito pobres que coincidentemente são os mais castigados pela baixa qualidade da educação), financiaram a formação acadêmica dos professores e estão pagando, mesmo que em muitos casos muito mal, os seus salários.


Críticas e contribuições para melhorar esta abordagem serão bem-vindas através dos e-mails:
- Polan.Lacki@onda.com.br/- Polan.Lacki@uol.com.br


O resumo da trajetória profissional e outros artigos do autor estão disponíveis na página:
- http://www.polanlacki.com.br


Voltar ao topo

divisor

A Bicicleta e o lápis

Jornal do Commercio - 26/12/2008
Cristovão Buarque


Há muitos anos, escrevi carta a Papai Noel pedindo uma bicicleta. E ganhei. Miro, que morava num casebre ao lado da minha casa, no Bairro dos Aflitos, não recebeu.


Escrevi outra carta ao Papai Noel, pedindo uma bicicleta para ele. Ele não recebeu. Hoje, não pediria bicicleta, pediria uma boa escola. Este é o pedido que faria neste Natal para o Brasil: que no dia 25 de dezembro, nossa população acordasse educada, com um imenso conhecimento-coletivo (a soma do conhecimento de todos os brasileiros) de geografia, matemática, filosofia, história; sabendo usar computadores, lendo e escrevendo bom português, falando idiomas estrangeiros, conversando sobre literatura, conhecendo arte, tendo dezenas de milhares de doutores e cientistas.


Com a soma desse conhecimento, a população educada faria uma economia potente e moderna, a riqueza seria mais bem distribuída entre as pessoas e regiões, as cidades seriam pacíficas; o meio ambiente, equilibrado.


Mas o conhecimento não chega de repente, precisa de anos, décadas para se formar, por isso, desejo 200 mil escolas bonitas, com espaço suficiente para todos os alunos; todas com os equipamentos necessários, laboratórios, computadores, televisões, DVDs, antenas parabólicas, quadras esportivas, bibliotecas, teatros e cinemas; desejo que nenhuma criança saia da escola antes de completar o ensino médio; e que sejam alfabetizados os 15 milhões de adultos que ainda não sabem ler.


O Brasil seria um celeiro de cientistas, escritores, filósofos, intelectuais, doutores, engenheiros, professores, como somos o celeiro dos melhores futebolistas do mundo.


Sobretudo, se tivesse a quem pedir, escreveria solicitando que o Brasil recebesse, de presente, dois milhões de professores, todos eles muito bem preparados, com muitos anos de estudos, dedicação, vontade de trabalhar, amor à profissão e aos alunos, bem preparados, dedicados e muito, muito bem remunerados, queridos e respeitados pela população.


Pode parecer que a idade me deixou ambicioso: em vez de uma bicicleta para o vizinho, peço um presente complicado para o Brasil. Mas Papai Noel vem da Finlândia. Naquele país – eu tive a chance de ver – foi possível fazer a revolução educacional, garantir a qualidade de suas escolas, tratar bem os professores, aprimorar o cuidado com as crianças. Descobri que, na terra do Papai Noel, a educação construiu um país rico em cultura, ciência, tecnologia e economia. Por isso, sinto-me no direito de desejar o mesmo para meu País.


Mas sei que não é possível receber conhecimento coletivo – nem escolas com seus equipamentos e professores – do exterior. A revolução educacional só pode ser feita pelo próprio povo e por seus líderes. Por isso, neste Natal, gostaria de pedir uma nova geração de líderes, como o melhor presente para o Brasil. Líderes que tenham o compromisso de transformar o País, educando nosso povo. Mas isso tampouco vai nos chegar sob a forma de presente. Não há presentes na política e na condução dos países. A cada povo cabe encontrar seu próprio caminho, definir que futuro deseja, decidir como usar seus recursos.


Mas os líderes são eleitos pelo povo. Portanto, desejo que cada brasileiro seja o Papai Noel do Brasil, elegendo os líderes de que precisamos para fazer a revolução educacional que mudará o País. Sobretudo, desejo que, graças ao voto, o Brasil se transforme e não seja mais preciso uma criança pedir bicicleta a Papai Noel para o vizinho pobre.


Voltar ao topo

divisor

A educação é nosso maior desafio


Na próxima década, quem sabe o Brasil poderá finalmente descobrir qual deve ser o maior investimento do Estado. Como reduzir a violência e melhorar a segurança? Educação. Como diminuir a pobreza, a fome e a desigualdade? Educação. Como melhorar a saúde? Educação. Como aumentar a taxa de emprego? Educação. Começa quando a criança nasce. Não dá para esperar até 4 ou 6 anos. A carência emocional e intelectual na primeira infância é meio caminho perdido.


“Para cada dólar aplicado, a sociedade ganhou nove”, afirmou o americano James Heckman, de 65 anos, prêmio Nobel de Economia de 2000. O professor Heckman se referia a uma experiência bem-sucedida em Michigan com educação na primeira infância. Em entrevista a O Globo na semana passada, Heckman disse algo que está na nossa cara, está sob as marquises dos centros urbanos ou nas lavouras: sem atenção de 0 a 3 anos, sem estímulo intelectual, com pais analfabetos, pouco instruídos e ausentes, sem a adequada assistência médica, essas crianças entrarão na escola em profunda desvantagem. Uma desvantagem que não é reversível, salvo exceções. “Uma boa política de família acaba se tornando uma boa política econômica. Há governos que acham que dar mais dinheiro aos pobres resolve o problema.”


Nenhuma esmola nacional, por mais ambiciosa e popular que seja, poderá ajudar o Brasil a ter um índice de desenvolvimento humano (IDH) compatível com a imagem de potência emergente. Jamais haverá dinheiro bastante para dar autoestima a brasileiros na linha da pobreza – ou abaixo. Hoje, nenhum candidato ousa criticar o Bolsa Família. Com todas as boas intenções, o Bolsa Família continua sendo um programa assistencialista, sujeito a fraudes de toda sorte. Esses recursos seriam mais bem aplicados se houvesse uma obsessão: Educação, Educação, Educação.


Só mesmo a Educação ampla, irrestrita e de qualidade, a partir do nascimento de cada brasileiro, poderá mudar a cara deste país. Com uma rede gratuita de creches (não depósitos de crianças) para filhos de pais carentes e mães solteiras. E escolas públicas de qualidade. Isso significa mudar de verdade, e não remendar, maquiar estatísticas, impressionar com números de matrículas ou com porcentagens que iludem mais do que explicam.


Na próxima década, o país precisa tornar a educação uma obsessão nacional para se destacar no mundo.


“O cérebro se forma muito cedo”, diz o economista e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Aloísio Araújo. “A criança que vem de um lar em que os pais são educados, leem em voz alta, dão estímulos lógicos e usam vocabulário amplo está muito mais preparada quando chega à escola. Com 1 ano de idade, as diferenças são muito pequenas. Aos 4, muito grandes. Fica muito difícil o sistema escolar recuperar essa defasagem. As intervenções precoces são um desafio para o Brasil.”


Aloísio é um dos autores de Educação básica no Brasil – Construindo o país do futuro, livro editado neste ano pela Campus. Na página 103, há um gráfico assustador: 93% da diferença de desenvolvimento cognitivo medida em adolescentes de 13 anos de idade já está presente aos 5 anos, antes mesmo que as crianças comecem a frequentar a escola.


Há exemplos de programas dedicados a formar “capital humano” na primeira infância. Com atenção redobrada para famílias carentes. São experiências restritas geograficamente. Os três programas mais conhecidos aconteceram nos Estados Unidos – Michigan, Carolina do Norte, Chicago. Em comum, o envolvimento ativo dos pais, porque, sem a família, todos ficam órfãos, inclusive o Estado.


Ninguém precisa ser prêmio Nobel para saber os efeitos de uma educação que vem do berço. Um deles é formar jovens menos violentos, menos antissociais. Não se fala aqui apenas de pobreza. Pais ricos que abandonam seus filhos nas mãos de babás sem instrução – achando que, depois, a escola fará seu “papel” – um dia podem se arrepender muito de só ter acompanhado o crescimento de seu bebê por imagens instantâneas em celular.


Na última década, o Brasil avançou. Na próxima, precisa tornar a Educação, precoce e fundamental, uma obsessão nacional.


RUTH DE AQUINO
raquino@edglobo.com.br


Voltar ao topo

© 2013 FOCABRASIL - Todos os direitos reservados | Política de Privacidade | Termos de uso